A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
Part 9
O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o _Punhal dos Corcundas_, a _Defesa de Portugal_ do padre Alvito Buela, a _Besta esfolada_, os _Burros_, e o _Novo Principe_. O Verissimo levou-os para o seu quarto, excepto os _Burros_; disse que não gostava de poesia. Fallou com louvor do padre José Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura--columnas do altar e do throno, que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na phalange realista. Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido pessoalmente.--Que sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe proscripto, se lhe fizessem semelhante pergunta.
--Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse vêr el-rei!...--meditou o abbade com a sua grande perspicacia observadora.
--Decerto...--concordava o Verissimo indolentemente.--Mas quem tem agora esperanças de vêr D. Miguel em Portugal?
--Eu, senhor, eu!--respondeu o padre batendo na arca do peito com as mãos ambas--Eu!
O Verissimo folheava o _Punhal dos Corcundas_, e parecia não perceber a vehemencia do padre.
--Bons desejos, bons desejos do caro abbade...
--E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as suas reaes mãos!--Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos, chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo continuava a folhear o _Punhal dos Corcundas_.
--Então viu-o, abbade?
--Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.
--Ainda se recorda das suas feições?
--Perfeitamente.
--Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado...
--Conhecia, conhecia...
O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo. Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:
--Eil-o! eil-o!
--Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não sou quem pensa!
--Estou como devo estar deante do meu rei!--teimou o abbade, com os dous joelhos no sobrado.
--Levante-se que vem gente!--dizia o outro, ouvindo passos na escada.
Era o Nunes.
--Entre, amigo!--disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia licença.
Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por levantal-o.
--Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés d'el-rei!--exclamou o padre.
E o outro, ajoelhando:
--Eu já o sabia, real senhor!
Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos, segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde.
XII
Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D. Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto, o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão.
O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do outro, considerava-se perdido.--Pobre Libania!--deplorava, quando ella souber que eu estou na Relação!
Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me não prenderem--accrescentava muito confiado na lei e na sua actividade.--Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo, porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis.
--Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de degredo--atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do seu quarto.
Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste, com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada.
Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até Almeida e d'Almeida _p'ra diente_ alma sempre!
Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o Gravito para a forca--elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829.
A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D. Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores, suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as testemunhas citadas--os padres suspeitos de frequentarem a residencia de Calvos--nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do aggravante.
E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:--Que aggravado era o aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes, pois que _nenhuma_ testemunha depozéra que o aggravante se inculcasse _D. Miguel_ para perturbar a _ordem constituida_, chamando o povo á revolta; e das respostas do aggravante no interrogatorio a que procedeu a auctoridade administrativa constava que o preso quasi que _fôra obrigado_ por um _clerigo estupido e esturrado miguelista_ a deixar-se chamar _D. Miguel l.°_; mas não constava nem se provava que o aggravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir valores aos seus _estupidos cortezãos_; _o que decerto_ praticaria um _gamenho_ decidido a fingir-se _D. Miguel_ para os espoliar. Que a pronuncia fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que _nada_ se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuos _alarves_ a quem o supposto _monarcha_ fazia mercês de commendas, de titulos, de patentes e até de mitras, sem que d'ahi resultasse alvoroto nem _leve perturbação_ na ordem publica, nem mesmamente damno para os mencionados _burros_ que pediam as mercês, e que deviam ser pronunciados em primeira instancia, se a _côrte de S. Gens de Calvos_, não fosse uma _farça de entrudo_.
E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator, addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras selvaticas do Minho se espalhassem muitos _Migueis_ d'aquella casta e feitio até que os novos _Sebastianistas_ se convencessem de que _somente assim_ poderiam arranjar um _Miguel_ que lhes désse commendas, titulos, postos militares e prelazias.
Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram por unanimidade.
Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia, Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz, deixou-se ser mulher--chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso, no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens extraordinarios.
O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz.
O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas. Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o. O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava--que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato Leite, a rir:
--Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!
O Verissimo recuava muito agradecido.
O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes Elias.
Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações. Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias. Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia com as conspirações da viella da Neta--aquelle baluarte da Liberdade que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado, muito á franceza;--tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma loja de modas, d'um café e d'uma taberna,--o vitalismo soez e chato da decadencia.
Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade civica da rua das Flores e das Congostas.
Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque, José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe _patriota_, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar, n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica.
Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de infanteria,--previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a gritos de _Viva a Rainha_ se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando _vivas á Carta Constitucional_. Eram a obra da prudencia e do conselheiro Fortunato Leite.
Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna do visconde de Vinhaes;--que tinham repugnancia de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque aos dinheiros das snr.ªs Botelhas.
Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco.
Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade. O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre--um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um chorão--publicava:
_Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de consternação pede desculpa de cumprimentos._
O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte, accrescentava: _A exc.^ma snrª D. Libania, que todos choramos com seu exc.^mo viuvo, era uma senhora de esmeradissima educação, pertencia á illustre familia dos Covas;--modêlo no tracto insinuante com que captivava o respeito e a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que tiveram a fortuna de a conhecer. Receba s. exc.ª o snr. conselheiro-director os nossos mais sentidos pesames pela desgraça que acaba de o ferir implacavelmente_.
Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e d'alma.
XIII
O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem. Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres, voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura--que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é o que elle sabia.
Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em quanto o velho tosquenejava a dormitar.
O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.
O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe--um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras.
O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa. Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai as palavras do amado e o Simeão:--Ora venha de lá esse abraço, amigo e sê Zé!--e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filha _como se quer_.
Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda, atirando-se ao rio Ave.
E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido _má mulher_ a mãe de Martha. _De má arvore mim fructo_--era toda a sua philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo.
O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas dizia-lhe a ella em particular:--Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste? E ella:--Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo!
A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias, confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua mãe:--Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina. Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que não esperava nada da sua religião,--um habito de tregeitos de mãos e de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor d'ella.
As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas.
Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e estivera, _vai não vai, ó pernas p'ra que te quero_, lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar;--era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar como um espelho.
O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado _Armas da Castidade_. O mystico filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra Martha. _Conhecia-lhe o leito_, dizia elle. É o mais que se póde dizer sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.