A brazileira de Prazins: scenas do Minho.
Part 11
A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle estaria rijo.
A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas concordavam:--que diabos levasse a mulher que o tolhêra!
O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas, incendido pela febre.
Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis esforços.
Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José lhe escrevia--poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres esperanças.
Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:--bem me fio eu n'isso.
Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro; mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não podia escrever.
Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na _Introducção_ d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção, um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha, mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á alcôva.
Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao pai quem tinha morrido.
Elle respondeu serenamente:--Dizem que foi o Dias que está com Deus. Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.--Martha deu um grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a companhia d'elles algum tempo.
Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está bom», observava-lhe com azedumes:--Deixe-a chorar, deixe-a chorar!--E voltando-se para a irmã:--A estupidez é cruel!
[Nota de rodapé 8: _Carta dirigida ao cavalheiro José Hume_. Versão de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.]
XV
O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua importancia no anno em que governára a freguezia--o respeito dos rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.
Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante de ordens do general,--dois homens gentilmente valorosos;--o coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.
A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do batalhão do Populo.
O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal,[9] um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé politica, antipoda da sua forte intelligencia--uma especie de poeta medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...
--Que ha?--perguntou o quartel-mestre general.
--Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.
O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades, capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo--escreve o snr. Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: _Isso não vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis_.» Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou Guimarães e entrou na estrada de Amarante.
Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...«_A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu, vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar «superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada_.»[10]
E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.
O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I.
Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O Victorino notava-lhe que elle bebia de mais--que o calor da genebra não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça--que era um perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; mas queixava-se de dôres nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com somno, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:--Este ladrão d'este inglez metto-lhe a espada até aos copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã!
O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.
O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado; não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoolica.
A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho Leal: _N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em marcha com uma apoplexia fulminante o P...[11] Coitado! quando me lembra isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de que--mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado velho_.[12]
Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.
O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.
--Toma!--disse um dos jornaleiros--um conto de réis! E inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:--Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o monte ... e topamos o morto...
--Que pechincha!...
Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.
O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:--Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!
--Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!--protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.--Se me matarem ... até lh'o agradeço!--E com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa d'aqui!--e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.
Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.
Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á morte, se chamava _infeliz_ e _desgraçado_, o destino implacavel preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, tocando o _Rei-chegou_: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, cantando o _Bemdito_. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a _Cana-verde_ e _Agua leva o regadinho_. Em um d'esses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama atordoado.
--Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamellas com o regedor.
Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.
O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle não podia defendel-a porque estava tolhido.
O Zeferino perguntou pacificamente:
--E o Simeão que dizia?
--Não dizia nada. Eu é que lhe disse... _Arrieiros somos, na estrada andamos_, visinho Simeão.
O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:
--Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... Que leve o diabo tudo...--E, passados alguns segundos de recolhida angustia:--Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no corpo...
--Homem--atalhou o pai com juizo--não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brazileiro...
--Eu tenho a minha paixão--objectou o filho com transporte--tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...
Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz acutilados.
Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella estivesse fina, casava com o tio.
--E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.
--Pois então!... Tomára-a elle já.
--Emfim--tornou o Bento--você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...
--Tem bô estomago, é o que é--confirmou o Belchior da Rechousa.
O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se vingar.
--Emfim--disse o Belchior--você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.
--Isso cá da minha parte foi chalaça...--defendia-se o Simeão, quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão e derrubou-o.