A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento

Part 93

Chapter 934,433 wordsPublic domain

24 Porque elle vê as extremidades da terra; _e_ vê tudo [7] _o que ha_ debaixo dos céus:

25 Dando peso ao vento, e tomando a medida das aguas.

26 Prescrevendo [8] lei para a chuva e caminho para o relampago dos trovões.

27 Então a viu e relatou, a preparou, e tambem a esquadrinhou.

28 Porém disse ao homem: Eis que o temor [9] do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal, a intelligencia.

[1] ver. 20. Ecc. 7.24.

[2] Pro. 3.35.

[3] ver. 22. Rom. 11.32, 34.

[4] Pro. 3.13, 14, 15 e 8.10, 11, 19 e 16.16.

[5] ver. 12.

[6] ver. 14.

[7] Pro. 15.3.

[8] cap. 38.25.

[9] Deu. 4.6. Pro. 1.7 e 9.10. Ecc. 12.13.

_Lamentação de Job lembrando-se do seu primeiro estado._

29 E proseguiu Job em proferir o seu dito, e disse:

2 Ah! quem me dera ser como eu fui nos mezes [1] passados! como nos dias _em que_ Deus me guardava!

3 Quando [2] fazia resplandecer a sua candeia sobre a minha cabeça _e quando_ eu pela sua luz caminhava _pelas_ trevas:

4 Como era nos dias da minha mocidade, quando [NC] o segredo de Deus estava sobre a minha tenda:

5 Quando o Todo-poderoso ainda _estava_ comigo, _e_ os meus meninos em redor de mim.

6 Quando [3] lavava os meus passos na manteiga, e da rocha me corriam ribeiros de azeite:

7 Quando sahia a porta pela cidade, _e_ na praça fazia preparar a minha cadeira:

8 Os moços me viam, e se escondiam, e _até_ os edosos se levantavam _e_ se punham em pé:

9 Os principes continham as _suas_ palavras, e punham a [4] mão sobre a sua bocca:

10 A voz dos chefes se escondia: e a sua lingua se pegava ao seu paladar:

11 Ouvindo-_me_ algum ouvido, me tinha por bemaventurado: vendo-_me_ algum olho, dava testemunho de mim;

12 Porque eu [5] livrava o miseravel, que clamava: como tambem o orfão que não tinha quem o soccoresse.

13 A benção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que jubilasse o coração da viuva.

14 Vestia-me da [6] justiça: e ella me servia de vestido: como manto e diadema _era_ o meu juizo.

15 Eu fui o olho do cego, como tambem os pés do coxo:

16 Aos necessitados era pae, e as causas [7] de que eu não tinha conhecimento inquiria com diligencia;

17 E quebrava os queixaes do perverso, e dos seus dentes tirava a preza.

18 E dizia: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia.

19 A minha [8] raiz se estendia junto ás aguas, e o orvalho fazia assento sobre os meus ramos;

20 A minha honra se renovava em mim, [9] e o meu arco se reforçava na minha mão.

21 Ouvindo-me esperavam, e em silencio attendiam ao meu conselho.

22 Acabada a minha palavra, não replicavam, e minhas razões distillavam sobre elles;

23 Porque me esperavam, como a chuva; e abriam a sua bocca, como a chuva [10] tardia.

24 _Se_ me ria para elles, não o criam, e não faziam abater a luz do meu rosto;

25 Eu escolhia o seu caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as tropas: como aquelle que consola os que pranteiam.

[1] cap. 7.3.

[2] cap. 18.6.

[3] Gen. 49.11. Deu. 32.13 e 33.24. cap. 20.17.

[4] cap. 21.5.

[5] Pro. 21.13 e 34.11.

[6] Isa. 59.17 e 61.10. Eph. 6.14, etc. Num. 10.31.

[7] Pro. 29.7.

[8] cap. 18.16. Jer. 17.8.

[9] Gen. 49.24.

[10] Zac. 10.1.

_Job descreve o estado miseravel em que caiu._

30 Porém agora se riem de mim os de menos edade do que eu, cujos paes eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

2 De que tambem me serviria a força das suas mãos? já _de_ velhice se tinham esgotado n’elles.

3 De mingua e fome _andavam_ sós, _e_ recolhiam-se para os logares seccos, tenebrosos, assolados e desertos.

4 Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento _eram_ as raizes dos zimbros.

5 Do meio _dos homens_ foram expulsos, _e_ gritavam contra elles, como _contra_ o ladrão:

6 Para habitarem nos barrancos dos valles, _e_ nas cavernas da terra e das rochas.

7 Bramavam entre os arbustos, _e_ ajuntavam-se debaixo das ortigas.

8 _Eram_ filhos de doidos, e filhos de gente sem nome, e da terra foram expulsos.

9 Porém [1] agora sou a sua canção, e lhes sirvo de rifão.

10 Abominam-me, _e_ fogem para longe de mim, [2] e do meu rosto não reteem o seu escarro.

11 Porque _Deus_ [3] desatou o meu cordão, e me opprimiu, pelo que sacudiram _de si_ o freio perante o meu rosto.

12 Á direita se levantam os moços; empurram os meus pés, e preparam contra [4] mim os seus caminhos de destruição.

13 Desbarataram-me o meu caminho: promovem a minha miseria: não _teem_ ajudador.

14 Veem _contra mim_ como por uma grande brecha, _e_ revolvem-se entre a assolação.

15 Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha [ND] honra, e como nuvem passou a minha felicidade.

16 E agora derrama-se em mim a minha alma: os dias da afflicção se apoderaram de mim.

17 De noite se me traspassam os meus ossos, e os pulsos das minhas veias não descançam.

18 Pela grandeza da força _das dôres_ se demudou o meu vestido, _e_ elle como o cabeção da minha tunica me cinge.

19 Lançou-me na lama, e fiquei similhante ao pó e á cinza.

20 Clamo a ti, porém tu não me respondes: estou em pé, porém para mim _não_ attentas.

21 Tornaste-te a ser cruel contra mim: com a força da tua mão resistes violentamente.

22 Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar _sobre elle_, e derretes-me o ser.

23 Porque eu sei _que_ me levarás á morte e á casa do ajuntamento determinado [5] a todos os viventes.

24 Porém não estenderá a mão para o montão de terra, se houve clamor n’elles _contra mim_ na sua desventura.

25 _Porventura_, não chorei sobre aquelle que estava afflicto? _ou_ não se angustiou a minha alma pelo necessitado?

26 _Todavia_ aguardando [6] eu o bem, então _me_ veiu o mal, _e_ esperando eu a luz, veiu a escuridão.

27 As minhas entranhas ferveram e não estão quietas: os dias da afflicção me surprehenderam.

28 Denegrido ando, porém não do sol, _e_, levantando-me na congregação, clamo por soccorro.

29 Irmão [7] me fiz dos [NE] dragões, e companheiro dos abestruzes.

30 Ennegreceu-se a minha pelle [8] sobre mim, e os meus ossos estão queimados do calor.

31 Pelo que se trocou a minha harmonia em lamentação, e o meu orgão em voz dos que choram.

[1] cap. 17.6. Lam. 3.14, 63.

[2] Pro. 3.15.

[3] ver. 22. Rom. 11.33, 34.

[4] Pro. 3.13, 14, 15 e 8.10, 11, 19 e 16.1.

[5] Heb. 9.27.

[6] Jer. 8.15.

[7] Miq. 1.8.

[8] Lam. 4.8 e 5.10.

_Job declara sua integridade nos seus deveres._

31 Fiz concerto com os meus olhos: [1] como pois attentaria n’uma virgem?

2 Porque qual _seria_ a parte [2] de Deus de cima? ou a herança do Todo-poderoso _para mim_ desde as alturas?

3 _Porventura_ não é a perdição para o perverso, o desastre para os que obram iniquidade?

4 Ou não vê [3] elle os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

5 Se andei com vaidade, e _se_ o meu pé se apressou para o engano

6 (Pese-me em balanças fieis, e saberá Deus a minha sinceridade),

7 Se os meus passos se desviavam do caminho, e se o meu coração [4] segue os meus olhos, e se ás minhas mãos se apegou coisa alguma,

8 Então semeie eu [5] e outro coma, e seja a minha descendencia arrancada até á raiz.

9 Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições á porta do meu proximo,

10 Então môa minha mulher para [6] outro, e outros se encurvem sobre ella.

11 Porque é uma infamia, [7] e _é_ delicto _pertencente_ aos juizes.

12 Porque fogo é que consomem até á perdição, e desarreigaria toda a minha renda.

13 Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando elles contendiam comigo,

14 Então que faria eu quando Deus se levantasse? e, inquirindo _a causa_, que lhe responderia?

15 Aquelle [8] que me fez no ventre não o fez _tambem_ a elle? ou não nos formou do mesmo _modo_ na madre?

16 Se retive o que os pobres desejavam, ou fiz desfallecer os olhos da viuva,

17 Ou só comi o meu bocado, e o orphão não comeu d’elle.

18 (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como _com seu_ pae, e o guiei desde o ventre de minha mãe),

19 Se a alguem vi perecer por falta de vestido, e ao necessitado por não ter coberta,

20 Se os seus lombos me não [9] abençoaram, se elle não se aquentava com as pelles dos meus cordeiros,

21 Se eu levantei a minha mão contra [10] o orphão, porquanto na porta via a minha ajuda,

22 Então caia do hombro a minha espadoa, e quebre-se o meu braço do osso.

23 Porque o castigo de Deus _era_ para mim um [11] assombro, e eu não podia supportar a sua alteza.

24 Se [12] no oiro puz a minha esperança, ou disse ao oiro fino: _Tu és_ a minha confiança;

25 Se [13] me alegrei de que era muita a minha fazenda, e de que a minha mão tinha alcançado muito;

26 Se olhei [14] para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, caminhando gloriosa,

27 E o meu coração se deixou enganar em occulto, e a minha bocca beijou a minha mão,

28 Tambem isto _seria_ [15] delicto _pertencente_ ao juiz: pois _assim_ negaria a Deus _que está_ em cima.

29 Se me alegrei [16] da desgraça do que me tem odio, e se eu exultei quando mal o achou.

30 (Tambem não deixei [17] peccar o meu paladar, desejando a sua morte com maldição),

31 Se a gente da minha tenda não disse: Ah, quem nos désse da sua carne! nunca nos fartariamos _d’ella_:

32 O estrangeiro [18] não passava a noite na rua; as minhas portas abria ao viandante.

33 Se, como Adão, encobri as minhas [19] transgressões, occultando o meu delicto no meu seio;

34 Porque eu temia [20] a grande multidão, e o desprezo das familias me apavoraria, e eu me calaria, e não sairia da porta.

35 Ah quem me dera um que me ouvisse! eis que o meu intento _é que_ o Todo-poderoso [21] me responda, e que o meu adversario escreva um livro.

36 Por certo que o levaria sobre o meu hombro, sobre mim o ataria _por_ corôa.

37 O numero dos meus passos lhe mostraria: como [22] principe me chegaria a elle.

38 Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus regos juntamente chorarem,

39 Se comi a sua novidade sem dinheiro, e suffoquei a alma dos seus donos,

40 Por trigo _me_ produza cardos, [23] e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Job.

[1] Mat. 5.28.

[2] cap. 20.29 e 27.13.

[3] II Chr. 16.9. cap. 34.21. Pro. 5.21 e 15.3. Jer. 32.19.

[4] Num. 15.39. Ecc. 11.9. Eze. 6.9. Mat. 5.29.

[5] Lev. 26.16. Deu. 28.30, 38, etc.

[6] II Sam. 12.11. Jer. 8.10.

[7] Gen. 38.24. Lev. 20.10. Deu. 22.22. ver. 28.

[8] cap. 34.19. Pro. 14.31 e 22.2. Mal. 3.10.

[9] Deu. 24.13.

[10] cap. 22.9.

[11] Isa. 13.7. Joel 1.15.

[12] Mar. 10.24. I Tim. 6.17.

[13] Pro. 11.28.

[14] Deu. 4.19 e 11.16 e 17.3. Eze. 8.16.

[15] ver. 11.

[16] Pro. 17.5.

[17] Mat. 5.44. Rom. 12.14.

[18] Gen. 19.2, 3.

[19] Gen. 3.8, 12. Pro. 28.13.

[20] Exo. 23.2.

[21] cap. 13.22.

[22] Thi. 5.4. I Reis 21.19.

[23] Gen. 3.18.

_Elihu reprehende Job e os seus tres amigos._

32 Então aquelles tres homens cessaram de responder a Job; porque era [1] justo aos seus _proprios_ olhos.

2 E accendeu-se a ira d’Elihu, filho de Baracheel [2] o buzita, da familia de Ram: contra Job se accendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus.

3 Tambem a sua ira se accendeu contra os seus tres amigos: porque, não achando que responder, todavia condemnavam a Job.

4 Elihu porém esperou que Job fallasse; porquanto tinham mais edade do que elle.

5 Vendo pois Elihu que _já_ não havia resposta na bocca d’aquelles tres homens, a sua ira se accendeu.

6 E respondeu Elihu, filho de Baracheel o buzita, e disse: Eu _sou_ de menos [3] edade, e vós _sois_ edosos; receei-me e temi de vos declarar a minha opinião.

7 Dizia eu: Fallem os dias, e a multidão doa annos ensine a sabedoria.

8 Na verdade, ha um espirito no homem, [4] e a inspiração do Todo-poderoso os faz entendidos.

9 Os grandes não são [5] os sabios, nem os velhos entendem juizo.

10 Pelo que digo: Dae-me ouvidos, e tambem eu declararei a minha opinião.

11 Eis que aguardei as vossas palavras, _e_ dei ouvidos ás vossas considerações, até que buscasseis razões.

12 Attentando pois para vós, eis que nenhum de vós ha que possa convencer a Job, _nem_ que responda ás suas razões:

13 Para que não digaes: [6] Achamos a sabedoria; Deus o derribou, _e_ não homem algum.

14 Ora elle não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.

15 Estão pasmados, não respondem mais, faltam-lhes as palavras.

16 Esperei pois, porém não fallam: porque já pararam, _e_ não respondem mais.

17 Tambem eu responderei pela minha parte: tambem eu declararei a minha opinião.

18 Porque estou cheio de palavras, _e_ aperta-me o espirito do meu ventre.

19 Eis que o meu ventre _é_ como o mosto, sem respiradouro, _e_ virá a arrebentar, como odres novos.

20 Fallarei, e respirarei: abrirei os meus labios, e responderei.

21 Oxalá eu não faça accepção [7] de pessoas, nem use de sobrenomes com o homem!

22 Porque não sei usar de sobrenomes: em breve me levaria o meu Creador.

[1] cap. 33.9.

[2] Gen. 22.21.

[3] II Chr. 16.9. cap. 34.21. Pro. 5.21 e 15.3. Jer. 32.19.

[4] Mat. 11.25. Thi. 1.5.

[5] I Cor. 1.26.

[6] Jer. 9.23. I Cor. 1.29.

[7] Lev. 19.15. Deu. 1.17 e 16.19. Pro. 24.23. Mat. 22.16.

_Elihu accusa Job de se oppôra Deus e de entender mal os seus caminhos._

33 Assim, na verdade, ó Job, ouve as minhas razões, e dá ouvidos a todas as minhas palavras.

2 Eis que já abri a minha bocca: _já_ fallou a minha lingua debaixo do meu paladar.

3 As minhas razões _sairão_ da sinceridade do meu coração, e a pura sciencia dos meus labios.

4 O Espirito [1] de Deus me fez: e a inspiração do Todo-poderoso me deu vida.

5 Se podes responde-me, põe por ordem diante de mim _a tua causa_, e levanta-te.

6 Eis que _sou_ de Deus, como tu: do lodo tambem eu fui cortado.

7 Eis que não te perturbará o meu terror, nem será pesada sobre ti a minha mão.

8 Na verdade que disseste aos meus ouvidos; e eu ouvi a voz das palavras, _dizendo_:

9 Limpo [2] estou, sem transgressão: puro _sou_; e não tenho culpa.

10 Eis que acha contra mim achaques, e me considerou [3] como seu inimigo.

11 Põe [4] no tronco os meus pés, _e_ observa todas as minhas veredas.

12 Eis que n’isto te respondo: Não foste justo; porque maior é Deus do que o homem.

13 Por que razão [5] contendeste com elle? porque não responde ácerca de todos os seus feitos.

14 Antes Deus [6] falla uma e duas vezes; porém ninguem attenta para isso.

15 Em sonho [7] _ou em_ visão de noite, quando cae somno profundo sobre os homens, _e_ adormecem na cama,

16 Então o revela ao ouvido dos homens, e lhes sella a sua instrucção.

17 Para apartar o homem d’aquillo que faz, e esconder do homem a soberba.

18 Para desviar a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.

19 Tambem na sua cama é com dôres castigado; como tambem a multidão de seus ossos com fortes _dôres_.

20 De modo que a sua vida abomina _até_ o pão, e a sua alma a comida appetecivel.

21 Desapparece a sua carne á vista _d’olhos_, e os seus ossos, _que_ se não viam, _agora_ apparecem:

22 E a sua alma se vae chegando á cova, e a sua vida ao que traz morte.

23 Se com elle pois houver um [NF] mensageiro, um interprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua rectidão,

24 Então terá misericordia d’elle, e _lhe_ dirá: Livra-o, que não desça á cova; _já_ achei resgate.

25 Sua carne se reverdecerá mais do que _era_ na mocidade, _e_ tornará aos dias da sua juventude.

26 Devéras orará a Deus, o qual se agradará d’elle, e verá a sua face com jubilo, e restituirá ao homem a sua justiça.

27 Olhará para os homens, e dirá: Pequei, [8] e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.

28 _Porém Deus_ livrou [9] a minha alma de que não passasse a cova; assim que a minha vida vê a luz.

29 Eis que tudo isto obra Deus, duas _e_ tres vezes para com o homem;

30 Para desviar [10] a sua alma da perdição, e o alumiar com a luz dos viventes.

31 Escuta _pois_, ó Job, ouve-me: cala-te, e eu fallarei.

32 Se tens alguma coisa que dizer, responde-me: falla, porque desejo justificar-te.

33 Se não, escuta-me tu: cala-te, e ensinar-te-hei a sabedoria.

[1] Gen. 2.7.

[2] cap. 9.17.

[3] cap. 13.24 e 16.9 e 19.11.

[4] cap. 13.27 e 14.16 e 31.4.

[5] Isa. 45.9.

[6] cap. 38.35.

[7] Num. 12.6. cap. 4.13.

[8] II Sam. 12.13. Pro. 28.13. Luc. 15.21. I João 1.9.

[9] Isa. 38.17.

[10] ver. 28. Psa. 56.13.

_Elihu accusa Job de fallar injustamente de Deus._

34 Respondeu mais Elihu, e disse:

2 Ouvi, vós, sabios, as minhas razões: e vós, entendidos, inclinae, os ouvidos para mim.

3 Porque [1] o ouvido prova as palavras, como o paladar gosta a comida.

4 O que é direito escolhamos para nós: _e_ conheçamos entre nós o que _é_ bom.

5 Porque Job disse: [2] Sou justo; e Deus [3] tirou o meu direito.

6 No meu direito me é forçoso mentir: [4] dolorosa _é_ a minha frecháda sem transgressão.

7 Que homem _ha_ como Job, que bebe a zombaria como agua?

8 E caminha em companhia com os que obram a iniquidade, e anda com homens impios?

9 Porque disse: [5] De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.

10 Pelo que vós, homens d’entendimento, escutae-me: Deus esteja [6] longe da impiedade, e o Todo-poderoso da perversidade!

11 Porque, _segundo_ [7] a obra do homem, elle lh’o paga; e segundo o caminho de cada um lh’o faz achar.

12 Tambem, na verdade, Deus não obra impiamente; nem o Todo-poderoso perverte o juizo.

13 Quem lhe pedia conta _do governo_ da terra? e quem dispoz a todo o mundo?

14 Se pozesse o seu coração contra elle, recolheria para si o seu espirito e o seu folego.

15 Toda [8] a carne juntamente expiraria, e o homem se voltaria para o pó.

16 Se pois _ha em ti_ entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos á voz do meu discurso.

17 _Porventura_ o que aborrece o direito ataria _as feridas_? [9] e tu condemnarias aquelle que é justo?

18 Ou dir-se-ha a um rei, [10] Oh! Belial? aos principes, Oh! impios?

19 _Quanto menos áquelle_, que não faz accepção das pessoas de [11] principes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque [12] todos são obras de suas mãos.

20 Elles n’um momento morrem; e _até_ á meia [13] noite os povos são perturbados, e passam, e o poderoso será tomado sem mão.

21 Porque [14] os seus olhos _estão_ sobre os caminhos de cada um, e elle vê todos os seus passos.

22 Não _ha_ trevas [15] nem sombra de morte, onde se escondam os que obram a iniquidade.

23 Porque não se faz tanto caso do homem que contra Deus possa entrar em juizo.

24 Quebranta [16] aos fortes, sem que se possa inquirir, e põe outros em seu logar.

25 Elle conhece pois as suas obras, de noite os transtorna, e ficam moidos.

26 Elle os bate como impios _que_ são, no logar dos expectadores:

27 Porquanto se [17] desviaram d’atraz d’elle, e não comprehenderam nenhum de seus caminhos.

28 Para fazer que o clamor do pobre subisse até elle, e que ouvisse o clamor dos afflictos.

29 Se elle aquietar, quem então inquietará? se encobrir o rosto, quem então o poderá contemplar, seja para com um povo, seja para com um homem _só_?

30 Para que o homem hypocrita nunca _mais_ reine, e não haja laços [18] do povo.

31 Na verdade, quem a Deus disse: [19] Supportei _castigo_, não perecerei.

32 O que não vejo, ensina-m’o tu: se fiz _alguma_ maldade, nunca mais _a_ hei de fazer.

33 _Virá_ de ti como o recompensará, pois tu o desprezas? farias tu pois, e não eu, a escolha: que é logo o que sabes? falla.

34 Os homens de entendimento dirão comigo, e o varão sabio me ouvirá.

35 Job [20] fallou sem sciencia; e ás suas palavras falta prudencia.

36 Pae meu! provado seja Job até ao fim, para as suas respostas entre os homens malignos.

37 Porque ao seu peccado accrescenta a transgressão; entre nós bateria as palmas _das mãos_, e multiplicaria contra Deus as suas razões.

[1] cap. 6.30 e 12.11.

[2] cap. 33.9.

[3] cap. 27.2.

[4] cap. 9.17.

[5] cap. 9.23 e 23.30 e 35.3. Mal. 3.14.

[6] Gen. 18.25. Deu. 32.4. Rom. 9.14.

[7] Pro. 24.12. Jer. 32.19. Eze. 33.20. Mat. 16.27. Rom. 2.6. II Cor. 5.10. I Ped. 1.17. Apo. 22.12.

[8] Gen. 3.19. Ecc. 12.7.

[9] Gen. 18.25.

[10] Exo. 22.28.

[11] Deu. 10.17. II Chr. 19.7. Act. 10.34. Rom. 2.11. Col. 3.25. I Ped. 1.17.

[12] cap. 31.15.

[13] Exo. 12.29, 30.

[14] II Chr. 16.9. cap. 31.4. Jer. 16.17 e 32.19.

[15] Psa. 140.12. Amós 9.2, 3. Heb. 4.18.

[16] Dan. 2.21.

[17] I Sam. 15.11. Isa. 5.12.

[18] I Reis 12.28, 30. II Reis 21.9.

[19] Dan. 9.7, 14.

[20] cap. 35.16.

_O bem e o mal não podem affectar a Deus, mas algumas vezes, por falta de fé dos afflictos não os ouve._

35 Respondeu mais Elihu e disse:

2 Tens por direito dizeres: Maior _é_ a minha justiça do que _a_ de Deus?

3 Porque disseste: [1] De que te serviria _elle_? _ou_ de que mais me aproveitarei do que do meu peccado?

4 Eu te farei resposta, a ti e aos teus amigos comtigo.

5 Attenta [2] para os céus, e vê; e contempla as mais altas nuvens, _que são_ mais altas do que tu.

6 Se peccares, que effectuarás [3] contra elle? _se_ as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás.

7 Se fôres justo, que lhe darás? [4] ou que receberá da tua mão?

8 A tua impiedade _damnaria_ outro tal como tu; e a tua justiça _aproveitaria_ ao filho do homem.

9 Por causa da grandeza _da oppressão_ fazem clamar [5] aos opprimidos: exclamam por causa do braço dos grandes.

10 Porém ninguem diz: [6] Onde _está_ Deus que me fez, que dá psalmos na noite.

11 Que nos faz mais doutos do que os animaes da terra, e nos faz mais sabios do que as aves dos céus.

12 Ali clamam, [7] porém elle não responde, por causa da arrogancia dos maus.

13 Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem attentará para ella o Todo-poderoso.

14 E [8] quanto ao que disseste, _que_ o não verás: juizo _ha_ perante elle; por isso espera n’elle.

15 Mas agora, ainda que a ninguem a sua ira visitasse, nem advertisse muito na multidão _dos peccadores_:

16 Logo Job em vão abriu a sua bocca, e sem sciencia multiplicou palavras.

[1] cap. 34.9.

[2] cap. 22.12.

[3] Pro. 8.36. Jer. 7.19.

[4] cap. 22.2, 3. Pro. 9.12. Rom. 11.35.

[5] Exo. 2.23. cap. 34.28.

[6] Isa. 51.13.

[7] Pro. 1.28. Jer. 11.11.

[8] cap. 9.11.

_Elihu justifica a Deus e diz a Job que o seu peccado estorva a benção d’Aquelle._

36 Proseguiu ainda Elihu, e disse:

2 Espera-me um pouco, e mostrar-te-hei que ainda _ha_ razões a favor de Deus.

3 Desde longe repetirei a minha opinião; e ao meu Creador attribuirei a justiça.

4 Porque na verdade, as minhas palavras não _serão_ falsas: comtigo está um que é sincero na _sua_ opinião.

5 Eis que Deus _é mui_ grande, comtudo [1] a ninguem despreza: grande _é_ em força de coração.

6 Não deixa viver ao impio, e faz justiça aos afflictos.

7 Do justo não tira os seus olhos; antes _estão_ com os reis no throno; ali os assenta para sempre, e _assim_ são exaltados.

8 E, se _estando_ presos em grilhões, _os detem_ amarrados com cordas de afflicção,

9 Então lhes faz saber a obra d’elles, e as suas transgressões; porquanto prevaleceram _n’ellas_.

10 E revela-lh’o aos [2] seus ouvidos, para _seu_ ensino; e diz-_lhes_ que se convertam da maldade.

11 Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias [3] em bem, e os seus annos em delicias.

12 Porém se o não ouvirem, á espada os passarão, e expirarão sem conhecimento.

13 E os hypocritas de coração amontoam _para_ [4] _si_ a ira; e amarrando-os elle, não clamam por soccorro.

14 A sua alma morre [5] na mocidade, e a sua vida entre os sodomitas.

15 Ao afflicto livra, da sua afflicção, e na oppressão o revelará aos seus ouvidos.

16 Assim tambem te desviará da bocca da angustia _para_ um logar espaçoso, em que não haja aperto, e as iguarias da tua mesa _serão_ cheias de gordura.

17 E estarás satisfeito com o juizo do impio: o juizo e a justiça _te_ sustentarão.

18 Porquanto ha furor, _guarda-te_ de que _porventura_ te não tire de pancada, pois por grande preço te não poderiam retirar _d’ali_.

19 Estimaria [6] elle _tanto_ tuas riquezas, ou alguns esforços da força, _que por isso_ não estivesses em aperto?

20 Não suspires pela noite, _em_ que os povos sejam tomados do seu logar.