A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento
Part 92
19 Não terá filho [11] nem neto entre o seu povo, e resto nenhum _d’elle_ ficará nas suas moradas.
20 Do seu dia se espantarão os vindouros, e os antigos serão sobresaltados de horror.
21 Taes _são_, na verdade, as moradas do perverso, e este _é_ o logar _do que_ não [12] conhece a Deus.
[1] cap. 13.14.
[2] Pro. 13.9 e 20.20 e 24.20.
[3] cap. 21.17.
[4] cap. 32.10.
[5] cap. 5.5.
[6] cap. 15.21 e 20.25. Jer. 6.25 e 20.3 e 46.5 e 49.29.
[7] cap. 15.23.
[8] cap. 8.14 e 11.20. Pro. 10.28.
[9] cap. 29.19. Isa. 5.24. Amós 2.9. Mal. 4.1.
[10] Pro. 2.22 e 10.7.
[11] Isa. 14.22. Jer. 22.30.
[12] Jer. 9.3 e 19.25. I The. 4.5. II The. 1.8. Tito 1.16.
_Job queixa-se da obstinação e dureza dos seus amigos._
19 Respondeu porém Job, e disse:
2 Até quando entristecereis a minha alma, e me quebrantareis com palavras?
3 Já dez vezes [1] me envergonhastes; vergonha não tendes: contra mim vos endureceis.
4 Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.
5 Se devéras vos levantaes contra mim, e me arguis com o meu opprobrio,
6 Sabei agora que Deus _é o que_ me transtornou, e _com_ a sua rede me cercou.
7 Eis que clamo: Violencia; porém não sou ouvido; grito: Soccorro; porém não _ha_ justiça.
8 O meu [2] caminho entrincheirou, e _já_ não posso passar, e nas minhas veredas poz trevas.
9 Da minha honra me despojou; e tirou-me a corôa da minha cabeça.
10 Derribou-me elle em roda, e eu me vou, e arrancou a minha esperança, como a uma arvore.
11 E fez inflammar contrar mim a sua ira, [3] e me reputou para comsigo, como a seus inimigos.
12 Juntas vieram as suas tropas, [4] e prepararam contra mim o seu caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda.
13 Poz longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem devéras me estranharam.
14 Os meus parentes _me_ deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim.
15 Os meus domesticos e as minhas servas me reputaram como um estranho, _e_ vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.
16 Chamei a meu creado, e elle _me_ não respondeu, supplicando-lhe eu por minha _propria_ bocca.
17 O meu bafo se fez estranho a minha mulher, e eu _a_ supplico pelos filhos do meu corpo.
18 Até os rapazes [5] me desprezam, _e_, levantando-me eu, fallam contra mim.
19 Todos os homens do meu secreto conselho me abominam, e _até_ os que eu amava se tornaram contra mim.
20 Os meus ossos se [6] apegaram á minha pelle e á minha carne, _e_ escapei _só_ com a pelle dos meus dentes.
21 Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, [7] porque a mão de Deus me tocou.
22 Porque me perseguis _assim_ como Deus, e da minha carne vos não fartaes?
23 Quem _me_ déra agora, que as minhas palavras se escrevessem! quem _me_ dera, que se gravassem n’_um_ livro!
24 E que, com penna de ferro, e _com_ chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha!
25 Porque eu sei _que_ o meu Redemptor vive, e _que_ estará em pé no derradeiro _dia_ sobre o pó.
26 E depois de _roida_ a minha pelle, comtudo desde a minha carne [8] verei a Deus,
27 A quem eu verei por mim mesmo, e os meus olhos o verão, e não outro: _e por isso_ os meus rins se consomem no meu seio.
28 Na verdade, que devieis dizer: [9] Porque o perseguimos? Pois a raiz da [NB] accusação se acha em mim.
29 Temei vós mesmos a espada; porque o furor traz os castigos da espada, para saberdes que _haverá_ um juizo.
[1] Gen. 31.7. Lev. 26.26.
[2] cap. 3.23.
[3] cap. 13.24. Lam. 2.5.
[4] cap. 30.12.
[5] II Reis 2.23.
[6] cap. 30.30. Lam. 4.8.
[7] cap. 1.11.
[8] I Cor. 13.12. I João 3.2.
[9] ver. 22.
_Sofar descreve as calamidades que os impios soffrem._
20 Então respondeu Sofar, o naamathita, e disse:
2 Por isso _é que os_ meus pensamentos me fazem responder, e portanto me apresso.
3 Eu ouvi a reprehensão, que me envergonha, mas o espirito do meu entendimento responderá por mim.
4 _Porventura não_ sabes isto, _que foi_ desde todo o tempo, desde que o homem foi posto sobre a terra?
5 _A saber_: que o jubilo dos impios é breve, e a alegria dos hypocritas como d’um momento?
6 Ainda que a sua altura [1] subisse até ao céu, e a sua cabeça chegasse até ás nuvens,
7 _Comtudo_ como o seu _proprio_ esterco perecerá para sempre: _e_ os que o viam dirão: Onde está?
8 Como um sonho vôa, e não será achado, e será afugentado como uma visão da noite.
9 O olho [2] que _já_ o viu jamais o verá, nem olhará mais para elle o seu logar.
10 Os seus filhos procurarão agradar aos pobres, e as suas mãos restaurarão [3] a sua fazenda.
11 Os seus ossos [4] se encherão dos seus _peccados_ occultos, e _juntamente_ se deitarão com elle no pó.
12 Ainda que o mal lhe seja doce na bocca, _e_ elle o esconda debaixo da sua lingua,
13 E o guarde, e o não deixe, antes o retenha no seu paladar,
14 Comtudo a sua comida se mudará nas suas entranhas; fel d’aspides _será_ interiormente.
15 Enguliu fazendas, porém vomitalas-ha; do seu ventre Deus as lançará.
16 Veneno d’aspides sorverá; lingua de vibora o matará.
17 Não verá as correntes, [5] os rios _e_ os ribeiros de mel e manteiga.
18 Restituirá do seu trabalho, [6] e não _o_ engulirá: conforme ao poder de sua mudança, _e_ não saltará de gozo.
19 Porquanto opprimiu, desamparou os pobres, e roubou a casa que não edificou.
20 Porquanto não sentiu socego [7] no seu ventre; da sua tão desejada fazenda coisa nenhuma reterá.
21 Nada _lhe_ sobejará do que coma; pelo que a sua fazenda não será duravel.
22 Estando _já_ cheia a sua abastança, estará angustiado: toda a mão dos miseraveis virá sobre elle.
23 Haja _porém ainda_ de que possa encher o seu ventre; _comtudo Deus_ mandará sobre elle o ardor da sua ira, e a fará chover [8] sobre elle quando elle fôr a comer.
24 Ainda que fuja [9] das armas de ferro, o arco d’aço o atravessará.
25 Desembainhada _a espada_, sairá do _seu_ corpo, e resplandecendo [10] virá do seu fel: _e haverá_ sobre elle assombros.
26 Toda a escuridão se occultará nos seus esconderijos: um fogo não assoprado o consumirá: _e_ com o que ficar na sua tenda irá mal.
27 Os céus manifestarão a sua iniquidade: e a terra se levantará contra elle.
28 As rendas de sua casa serão transportadas: no dia da sua ira todas se derramarão.
29 Esta, [11] da parte de Deus, _é_ a porção do homem impio: e, da parte de Deus, a herança dos seus ditos.
[1] Isa. 14.13, 14. Abd. 3, 4.
[2] cap. 7.8, 10 e 8.18.
[3] ver. 18. cap. 13.26.
[4] cap. 21.26.
[5] Jer. 17.6.
[6] ver. 10, 15.
[7] Ecc. 5.13, 14.
[8] Num. 11.33.
[9] Isa. 24.18. Jer. 48.43. Amós 5.19.
[10] cap. 16.13 e 18.11.
[11] cap. 17.13 e 31.2, 3.
_Job mostra que os impios muitas vezes gozam prosperidade n’esta vida._
21 Respondeu porém Job, e disse:
2 Ouvi attentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolações.
3 Soffrei-me, e eu fallarei: e, havendo eu fallado, [1] zombae.
4 _Porventura_ eu me queixo a _algum_ homem? porém, ainda _que assim fosse_, porque se não angustiaria o meu espirito?
5 Olhae para mim, e pasmae: e ponde a mão [2] sobre a bocca.
6 Porque, quando me lembro _d’isto_, me perturbo, e a minha carne é sobresaltada d’horror.
7 Por que razão [3] vivem os impios? envelhecem, e ainda se esforçam em poder?
8 A sua semente se estabelece com elles perante a sua face; e os seus renovos perante os seus olhos.
9 As suas casas teem paz, sem temor; e a vara de Deus não _está_ sobre elles.
10 O seu touro gera, e não falha: pare a sua vacca, [4] e não aborta.
11 Mandam fóra as suas creanças, como _a_ um rebanho, e seus filhos andam saltando.
12 Levantam _a voz, ao som_ do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som dos orgãos.
13 Na prosperidade gastam [5] os seus dias, e n’um momento descem á sepultura.
14 E, _todavia_, [6] dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.
15 Quem [7] _é_ o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? e que nos aproveitará que lhe façamos orações?
16 Vêde _porém_ que o seu bem não _está_ na mão d’elles: [8] esteja longe de mim o conselho dos impios!
17 Quantas [9] vezes succede que se apaga a candeia dos impios, e lhes sobrevem a sua destruição? [10] _e Deus_ na sua ira _lhes_ reparte dôres!
18 _Porque_ [11] são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho.
19 Deus guarda [12] a sua violencia para seus filhos, _e_ lhe dá o pago, que o sente.
20 Seus olhos vêem a sua ruina, [13] e elle bebe do furor do Todo-poderoso.
21 Porque, que prazer teria na sua casa, depois de si, cortando-se-_lhe_ o numero dos seus mezes?
22 Porventura [14] a Deus se ensinaria sciencia, a elle que julga os excelsos?
23 Este morre na força da sua plenitude, estando todo quieto e socegado.
24 Os seus baldes estão cheios de leite, e os seus ossos estão regados de tutanos.
25 E outro morre, ao contrario, na amargura do seu coração, não havendo comido do bem.
26 Juntamente [15] jazem no pó, e os bichos os cobrem.
27 Eis que conheço bem os vossos pensamentos: e os maus intentos _com que_ injustamente me fazeis violencia.
28 Porque direis: [16] Onde _está_ a casa do principe? e onde a tenda das moradas dos impios?
29 _Porventura_ o não perguntastes aos que passam pelo caminho? e não conheceis os seus signaes?
30 Que [17] o mau é preservado para o dia da destruição; e são levados no dia do furor.
31 Quem accusará diante d’elle [18] o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que faz?
32 Finalmente é levado ás sepulturas, e vigia no montão.
33 Os torrões do valle lhe são doces, e attrahe a si a todo o homem; e diante de si _ha_ innumeraveis.
34 Como pois me consolaes com vaidade? pois nas vossas respostas ainda resta a transgressão.
[1] cap. 16.10 e 17.2.
[2] Jui. 18.19. cap. 29.9 e 40.4.
[3] cap. 12.6. Jer. 12.1. Hab. 1.16.
[4] Exo. 23.26.
[5] cap. 36.11.
[6] cap. 22.17.
[7] Exo. 5.2. cap. 34.9. cap. 35.3. Mal. 3.14.
[8] cap. 22.18. Pro. 1.10.
[9] cap. 18.6.
[10] cap. 20.28, 29.
[11] Isa. 17.13 e 29.5. Ose. 13.3.
[12] Exo. 20.5.
[13] Isa. 51.17. Jer. 25.15. Apo. 14.10 e 19.15.
[14] Isa. 40.13 e 45.9. Rom. 11.34. I Cor. 2.16.
[15] cap. 20.11. Ecc. 9.2.
[16] cap. 20.7.
[17] Pro. 16.4. II Ped. 2.9.
[18] Gal. 2.11.
_Eliphaz accusa Job de diversos peccados e o exhorta ao arrependimento._
22 Então respondeu Eliphaz o temanita, e disse:
2 _Porventura_ [1] o homem será d’_algum_ proveito a Deus? antes a si mesmo o prudente será proveitoso.
3 _Ou_ tem o Todo-poderoso prazer em que tu sejas justo? ou lucro _algum_ que tu faças perfeitos os teus caminhos?
4 _Ou_ te reprehende, pelo temor _que tem_ de ti? ou entra comtigo em juizo?
5 _Porventura_ não _é_ grande a tua malicia? e sem termo as tuas iniquidades?
6 Porque penhoraste a teus irmãos sem causa [2] _alguma_, e aos nus despiste os vestidos.
7 Não déste de beber agua ao cançado, [3] e ao faminto retiveste o pão.
8 Mas para o violento era a terra, e o homem tido em respeito habitava n’ella.
9 As viuvas despediste vazias, e os braços dos orphãos foram [4] quebrantados.
10 Por isso é que estás cercado de laços, [5] e te perturbou _um_ pavor repentino,
11 Ou as trevas que não vês, e a abundancia [6] d’agua que te cobre.
12 _Porventura_ Deus não _está_ na altura dos céus? olha pois para o cume das estrellas, quão levantadas estão.
13 E dizes que sabe Deus _d’isto_? _porventura_ julgará por entre a escuridão?
14 As nuvens _são_ escondedura para elle, para que não veja: e passeia pelo circuito dos céus.
15 _Porventura_ consideraste a vereda do seculo _passado_, que pisaram os homens iniquos?
16 Os quaes foram arrebatados [7] antes do _seu_ tempo: _sobre_ cujo fundamento um diluvio se derramou.
17 Diziam [8] a Deus: Retira-te de nós. E que _é o que_ o Todo-poderoso lhes fez?
18 Sendo elle o que enchera de bens as suas casas: mas o [9] conselho dos impios esteja longe de mim.
19 Os justos _o_ viram, e se alegraram, e o innocente escarneceu d’elles.
20 Porquanto o nosso estado não foi destruido, mas o fogo consumiu o resto d’elles.
21 Acostuma-te pois a elle, e [10] tem paz, e assim te sobrevirá o bem.
22 Acceita, peço-te, a lei da sua bocca, e põe as suas palavras no teu coração.
23 Se te converteres [11] ao Todo-poderoso, serás edificado: affasta a iniquidade da tua tenda.
24 Então amontoarás [12] oiro como pó, e o _oiro_ d’Ophir como pedras dos ribeiros.
25 E até o Todo-poderoso te será _por_ oiro, e a tua prata amontoada.
26 Porque então te deleitarás [13] no Todo-poderoso, [14] e levantarás o teu rosto para Deus.
27 _Devéras_ orarás, a elle, e elle te ouvirá, e pagarás os teus votos.
28 Determinando tu algum negocio, ser-te-ha firme, e a luz brilhará em teus caminhos.
29 Quando abaterem, então tu dirás: Haja exaltação: e _Deus_ salvará [15] ao humilde.
30 _E_ livrará _até ao_ que não é innocente; porque fica livre pela pureza de tuas mãos.
[1] cap. 35.7. Luc. 17.10.
[2] Exo. 22.26, 27. Deu. 24.10, etc. cap. 24.3, 9. Eze. 18.12.
[3] cap. 31.17. Deu. 15.7, etc. Isa. 58.7. Eze. 18.7, 16. Mat. 25.42.
[4] cap. 31.21. Isa. 10.2. Eze. 22.7.
[5] cap. 18.8, 9, 10 e 19.6.
[6] Lam. 3.54.
[7] cap. 15.32.
[8] cap. 21.14. Psa. 4.6.
[9] cap. 21.16.
[10] Isa. 27.5.
[11] cap. 8.5, 6 e 11.13, 14.
[12] II Chr. 1.15.
[13] cap. 27.10. Isa. 58.14.
[14] cap. 11.15. Isa. 58.9.
[15] Pro. 29.23. Thi. 4.6. I Ped. 5.5.
_Job deseja apresentar-se perante Deus e confia na sua misericordia._
23 Respondeu porém Job, e disse:
2 Ainda hoje a minha queixa está em amargura: a violencia da minha praga mais se aggrava do que o meu gemido.
3 Ah se _eu_ [1] soubesse que o poderia achar! _então me_ chegaria ao seu tribunal.
4 Com boa ordem exporia ante elle a minha causa, e a minha bocca encheria d’argumentos.
5 Saberia as palavras com _que elle_ me responderia, e entenderia o que me dissesse.
6 _Porventura_ segundo a grandeza de _seu_ poder contenderia [2] comigo? não; elle só _o_ põe em mim.
7 Ali o recto pleitearia com elle, e eu me livraria para sempre do meu Juiz.
8 Eis que se me [3] adianto, _ali_ não está: se _torno_ para traz, não o percebo.
9 Se obra a mão esquerda, não o vejo: _se_ se encobre á mão direita, não _o_ diviso.
10 Porém elle sabe o meu caminho: prove-me, [4] _e_ sairei como o oiro.
11 Nas suas pizadas os meus pés se affirmaram: guardei o seu caminho, e não me desviei _d’elle_.
12 Do preceito de seus labios nunca me apartei, _e_ as palavras da sua bocca guardei mais do que a minha porção.
13 Mas, _se_ elle _está_ contra alguem, quem então [5] o desviará? o que a sua alma quizer isso fará.
14 Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas _ainda_ tem [6] comsigo.
15 Por isso me perturbo perante elle, considero, e temo-me d’elle.
16 Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-poderoso me perturbou.
17 Porquanto não fui desarreigado antes das trevas, e nem encobriu com a escuridão o meu rosto.
[1] cap. 13.3 e 16.21.
[2] Isa. 57.16.
[3] cap. 9.11.
[4] Thi. 1.12.
[5] cap. 12.14. Rom. 9.19.
[6] I The. 3.3.
_Job contesta que os impios, muitas vezes, ficam sem castigo n’esta vida._
24 Visto que do Todo-poderoso se não encobriram os tempos [1] porque, os que o conhecem, não vêem os seus dias?
2 Até os limites removem: [2] roubam os rebanhos, e _os_ apascentam.
3 Levam [3] o jumento do orphão: tomam em penhor o boi da viuva.
4 Desviam do caminho aos necessitados; _e_ os miseraveis da terra juntos se escondem [4] _d’elles_.
5 Eis que, _como_ jumentos montezes no deserto, saem á sua obra, madrugando para a preza: o campo raso _dá_ mantimento a elles e aos _seus_ filhos.
6 No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do impio.
7 Ao nu [5] fazem passar a noite sem roupa, não tendo elle coberta contra o frio.
8 Das correntes das montanhas são molhados, e, não tendo refugio, abraçam-se [6] com as rochas.
9 Ao orphãosinho arrancam dos peitos, e penhoram _o que ha_ sobre o pobre.
10 Fazem com que os nus vão sem vestido e famintos _aos que_ carregam com as espigas.
11 Entre as suas paredes espremem o azeite: pisam os lagares, e _ainda_ teem sêde.
12 Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos exclama, e comtudo Deus _lh’o_ não imputa _como_ loucura.
13 Elles estão entre os que se oppõem á luz: não conhecem os seus caminhos _d’ella_, e não permanecem nas suas veredas.
14 De madrugada se levanta o homicida, mata o pobre e necessitado, e de noite é como o ladrão.
15 Assim como o [7] olho do adultero aguarda o crepusculo, dizendo: Não me verá olho nenhum: e occulta o rosto,
16 Nas trevas minam as casas _que_ de dia se assignalaram: não [8] conhecem a luz.
17 Porque a manhã para _todos_ elles _é_ como a sombra de morte; _porque_, sendo conhecidos, sentem os pavores da sombra da morte.
18 É ligeiro sobre a face das aguas; maldita _é_ a sua parte sobre a terra: não se vira pelo caminho das vinhas.
19 A seccura e o calor desfazem as aguas da neve; _assim desfará_ a sepultura _aos que_ peccaram.
20 A madre se esquecerá d’elle, os bichos o comerão gostosamente; nunca mais haverá lembrança [9] _d’elle_: e a iniquidade se quebrará como arvore.
21 Afflige á esteril _que_ não pare, e á viuva não faz bem:
22 Até aos poderosos arrasta com a sua força: _se_ se levanta, não ha vida segura.
23 Se _Deus_ lhes dá descanço, estribam-se n’isso: seus [10] olhos porém _estão_ nos caminhos d’elles.
24 Por um pouco se alçam, e logo desapparecem: são abatidos, encerrados como todos, e cortados como as cabeças das espigas.
25 Se agora não _é assim_, quem me desmentirá e desfará as minhas razões?
[1] Act. 1.7.
[2] Deu. 19.14 e 27.17. Pro. 22.28 e 23.10. Ose. 5.10.
[3] Deu. 24.6, 10, 12, 17. cap. 22.6.
[4] Pro. 28.28.
[5] Exo. 22.26, 27. Deu. 24.12, 13. cap. 22.6.
[6] Lam. 4.5.
[7] Pro. 7.9.
[8] João 3.20.
[9] Pro. 10.7.
[10] Pro. 15.3.
_Bildad sustenta que o homem não pode, sem presumção, justificar-se diante de Deus._
25 Então respondeu Bildad o suhita, e disse:
2 Com elle _estão_ dominio e temor; elle faz paz nas suas alturas.
3 _Porventura_ teem numero as suas tropas? e sobre quem não surge a sua [1] luz?
4 Como pois seria justo [2] o homem para com Deus? e como seria puro aquelle que nasce da mulher?
5 Olha, até a lua não resplandece, e as estrellas não são puras aos seus olhos.
6 E quanto menos o homem, _que é_ um verme, e o filho do homem, _que é_ um bicho.
[1] Thi. 1.17.
[2] cap. 4.17, etc. e 15.14, etc.
_Job reprehende Bildad e exalta o poder de Deus._
26 Porém Job respondeu e disse:
2 Como ajudaste aquelle que não tinha força? _e_ sustentaste o braço que não tinha vigor?
3 Como aconselhaste aquelle que não tinha sabedoria, e plenamente _lhe_ fizeste saber a causa, assim como era?
4 A quem proferiste palavras? e cujo é o espirito que saiu de ti?
5 Os mortos tremem debaixo das aguas, com os seus moradores d’ellas.
6 O inferno _está_ nú [1] perante elle, e não ha coberta para a perdição.
7 O norte estende [2] sobre o vazio: a terra pendura sobre o nada.
8 Prende as [3] aguas nas suas nuvens, todavia a nuvem não se rasga debaixo d’ellas.
9 Encobre a face do _seu_ throno, e sobre ella estende a sua nuvem.
10 Assignalou limite [4] sobre a superficie das aguas ao redor _d’ellas_, até que se acabem a luz e as trevas.
11 As columnas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.
12 Com a sua força [5] fende o mar, e com o seu entendimento abate a sua soberba.
13 Pelo seu Espirito ornou os céus: a sua mão formou a serpente [6] enroscadiça.
14 Eis que isto _são só_ as bordas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido d’elle! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?
[1] Pro. 15.11. Heb. 4.13.
[2] cap. 9.8.
[3] Pro. 30.4.
[4] cap. 38.8. Pro. 8.29. Jer. 5.22.
[5] Isa. 51.15. Jer. 31.35.
[6] Isa. 27.1.
_Job sustenta sua integridade e sinceridade._
27 E proseguiu Job em proferir o seu dito, e disse:
2 Vive Deus, [1] que desviou a minha causa, e o Todo-poderoso, que amargurou a minha alma.
3 Que, emquanto em mim _houver_ alento, e o sopro de Deus nos meus narizes,
4 Não fallarão os meus labios iniquidade, nem a minha lingua pronunciará engano.
5 Longe de mim que eu vos justifique: até que [2] eu expire, nunca apartarei de mim a minha sinceridade.
6 A minha justiça me apegarei [3] e não a largarei: não me remorderá o meu coração em toda a minha vida.
7 Seja como o impio o meu inimigo, e o que se levantar contra mim como o perverso.
8 Porque [4] qual _será_ a esperança do hypocrita, havendo sido avaro, quando Deus _lhe_ arrancar a sua alma?
9 _Porventura_ [5] Deus ouvirá o seu clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?
10 _Ou_ deleitar-se-ha no Todo-poderoso? _ou_ invocará a Deus em todo o tempo?
11 Ensinar-vos-hei [6] ácerca da mão de Deus, _e_ não vos encobrirei o que _está_ com o Todo-poderoso.
12 Eis que todos vós _já o_ vistes: porque pois vos desvaneceis na _vossa_ vaidade?
13 Esta _pois é_ a [7] porção do homem impio para com Deus, e a herança, _que_ os tyrannos receberão do Todo-poderoso.
14 Se [8] os seus filhos se multiplicarem, _será_ para a espada, e os seus renovos se não fartarão de pão.
15 Os que ficarem d’elle na morte serão enterrados, e as suas viuvas não chorarão.
16 Se amontoar prata como pó, e apparelhar vestidos como lodo;
17 Elle os apparelhará, porém [9] o justo os vestirá, e o innocente repartirá a prata.
18 E edificará a sua casa como a traça, e como o guarda _que_ faz a [10] cabana.
19 Rico se deita, e não será recolhido: seus olhos abre, e elle não será.
20 Pavores se [11] apoderam d’elle como aguas: de noite o arrebatará a tempestade.
21 O vento oriental o levará, e ir-se-ha, e o tempestuoso o arrebatará do seu logar.
22 E _Deus_ lançará _isto_ sobre elle, e não _lhe_ poupará; irá fugindo da sua mão.
23 _Cada um_ baterá contra elle as palmas das mãos, e do seu logar o assobiará.
[1] cap. 34.5.
[2] cap. 2.9 e 13.15.
[3] Act. 24.16.
[4] Mat. 16.26. Luc. 12.20.
[5] cap. 35.12. Pro. 1.28 e 28.9. Eze. 8.18. Miq. 3.4. João 9.31. Thi. 4.3.
[6] cap. 22.26, 27.
[7] cap. 20.29.
[8] Deu. 28.41. Ose. 9.13.
[9] Pro. 28.8. Ecc. 2.26.
[10] Isa. 1.8. Lam. 2.6.
[11] cap. 18.11.
_O homem tem sciencia das coisas da terra, mas a sabedoria é dom de Deus._
28 Na verdade, ha _veia_ d’onde se tira a prata, e para o oiro logar _em que_ o derretem.
2 O ferro se toma do pó, e _da_ pedra se funde o metal.
3 Elle poz fim ás trevas, e toda a extremidade elle esquadrinha, a pedra da escuridão e da sombra da morte.
4 Trasborda o ribeiro junto ao que habita _ali_, de maneira que se não possa passar a pé: _então_ se esgota do homem, _e as aguas_ se vão.
5 Da terra procede o pão, e debaixo d’ella se converte como _em_ fogo.
6 As suas pedras são o logar da saphira, e tem pósinhos d’oiro.
7 Vereda que ignora a ave de rapina, e que não viu os olhos da gralha.
8 Nunca a pisaram filhos d’animaes altivos, nem o feroz leão passou por ella.
9 Estendeu a sua mão contra o rochedo, _e_ transtorna os montes desd’as suas raizes.
10 Dos rochedos faz sair rios, e o seu olho viu tudo o _que ha_ precioso.
11 Os rios tapa, e nem uma gotta sae d’elles, e tira á luz o _que estava_ escondido.
12 Porém d’onde se achará [1] a sabedoria? e onde está o logar da intelligencia?
13 O homem não sabe [2] a sua valia, e não se acha na terra dos viventes.
14 O abysmo diz: [3] Não está em mim: e o mar diz: _Ella_ não _está_ comigo.
15 Não se [4] dará por ella oiro _fino_, nem se pesará prata em cambio d’ella.
16 Nem se pode comprar por oiro _fino_ d’Ophir, _nem_ pelo precioso onyx, nem pela saphira.
17 Com ella se não póde comparar o oiro nem o crystal; nem se dá em troca d’ella joia d’oiro fino.
18 Não se fará menção de coral nem de perolas; porque o desejo da sabedoria _é_ melhor que _o dos_ rubins.
19 Não se lhe igualará o topazio de Cus, nem se póde comprar por oiro puro.
20 D’onde pois [5] vem a sabedoria? e onde _está_ o logar da intelligencia?
21 Porque está encoberta aos olhos de todo o vivente, e occulta ás aves do céu.
22 A perdição [6] e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.
23 Deus entende o seu caminho, e elle sabe o seu logar.