A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento

Part 91

Chapter 914,491 wordsPublic domain

15 A quem, [10] ainda que eu fosse justo, lhe não responderia: _antes_ ao meu Juiz pediria misericordia.

16 Ainda que chamasse, e elle me respondesse, nem _por isso_ creria que désse ouvidos á minha voz.

17 Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas [11] sem causa.

18 Nem me concede o respirar, antes me farta d’amarguras.

19 Quanto ás forças, eis que elle é o forte: e, quanto ao juizo, quem me citará _com elle_?

20 Se eu me justificar, a minha bocca me condemnará: _se fôr_ recto, então me declarará por perverso.

21 Se fôr recto, não estimo a minha alma: deprezo a minha vida.

22 A coisa _é_ esta; por isso eu digo que elle [12] consome ao recto e ao impio.

23 Matando o açoite de repente, então se ri da prova dos innocentes.

24 A terra se entrega na mão do impio; elle cobre [13] o rosto dos juizes: se não é elle, quem _é_ logo?

25 E os meus [14] dias são mais velozes do que um correio: fugiram, _e_ nunca viram o bem.

26 Passam como navios veleiros: como aguia [15] _que_ se lança á comida.

27 Se eu [16] disser: Me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu rosto, e tomarei alento;

28 Receio todas as minhas dôres, _porque bem_ [17] sei que me não terás por innocente.

29 _E_, sendo eu impio, por que trabalharei em vão?

30 Ainda que me lave [18] com agua de neve, e purifique as minhas mãos com sabão,

31 Ainda me submergirás no fosso, e os meus proprios vestidos me abominarão.

32 Porque elle não _é_ homem, como eu, a quem eu [19] responda, vindo juntamente a juizo.

33 Não [20] ha entre nós arbitro que ponha a mão sobre nós ambos.

34 Tire [21] elle a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror.

35 _Então_ fallarei, e não o temerei; porque assim não estou comigo.

[1] Rom. 3.20.

[2] cap. 36.5.

[3] Ecc. 9.2, 3. Eze. 21.3.

[4] II Sam. 15.30 e 19.4. Jer. 14.4.

[5] cap. 7.6, 7.

[6] Hab. 1.8.

[7] Jer. 2.22.

[8] Exo. 20.7.

[9] Jer. 2.22.

[10] cap. 10.15.

[11] cap. 2.3 e 34.6.

[12] Isa. 2.19, 21. Heb. 12.26. cap. 26.11.

[13] Gen. 1.6.

[14] Gen. 1.16. cap. 38.31, etc. Amós 5.8.

[15] cap. 5.9.

[16] cap. 23.8, 9 e 35.14.

[17] Isa. 45.9. Rom. 9.20.

[18] cap. 26.12.

[19] Ecc. 6.10. Rom. 9.20.

[20] ver. 19. I Sam. 2.25.

[21] cap. 13.20, 21, 22 e 33.7.

10 A minha alma [1] tem tedio á minha vida: darei livre curso á minha queixa, fallarei [2] na amargura da minha alma.

2 Direi a Deus: Não me condemnes: faze-me saber porque contendes comigo.

3 _Parece_-te bem que _me_ opprimas? que rejeites o trabalho das tuas mãos? e resplandeças sobre o conselho dos impios?

4 Tens tu _porventura_ olhos de carne? vês [3] tu como vê o homem?

5 _São_ os teus dias como os dias do homem? Ou _são_ os teus annos como os annos de um homem,

6 Para te informares da minha iniquidade, e averiguares o meu peccado?

7 Bem sabes tu que eu não sou impio: todavia ninguem _ha_ que _me_ livre da tua mão.

8 As tuas mãos me fizeram e me formaram todo em roda; comtudo me consomes.

9 Peço-te que te lembres de que como barro me formaste [4] e me farás tornar em pó.

10 _Porventura_ não me vasaste como leite, e como queijo me não coalhaste?

11 De pelle e carne me vestiste, e com ossos e nervos me ligaste.

12 Vida e beneficencia me fizeste: e o teu cuidado guardou o meu espirito.

13 Porém estas coisas as occultaste no teu coração: bem sei eu que isto esteve comtigo.

14 Se eu peccar, tu me observas; e da minha iniquidade não me escusarás.

15 Se fôr impio, ai [5] de mim! e se fôr justo, não levantarei a minha cabeça: farto _estou_ de affronta; e olho para a minha miseria.

16 Porque se vae crescendo; tu me caças [6] como a _um_ leão feroz: tornaste, e fazes maravilhas contra mim.

17 Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; revezes e combate estão comigo.

18 Por [7] que pois me tiraste da madre? Ah se _então_ dera o espirito, e olhos nenhuns me vissem!

19 _Que_ tivera sido como se nunca fôra: _e_ desde o ventre fôra levado á sepultura!

20 _Porventura_ não _são_ poucos os meus dias? [8] cessa _pois_, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento;

21 Antes que vá e d’onde nunca torne, á terra da escuridão e da sombra da morte;

22 Terra escurissima, como a mesma escuridão, terra da sombra, da morte e sem ordem alguma e onde a luz é como a escuridão.

[1] I Reis 19.4. cap. 7.16. Jon. 4.3, 8.

[2] cap. 7.11.

[3] I Sam. 16.7.

[4] Gen. 2.7 e 3.19. Isa. 64.8.

[5] Isa. 3.11. cap. 9.12, 15, 20, 21.

[6] Isa. 38.13. Lam. 3.10.

[7] cap. 3.11.

[8] cap. 7.16, 19.

_Sofar reprehende Job, mostra a sabedoria de Deus e exhorta ao arrependimento._

11 Então respondeu Sofar, o naamathita, e disse:

2 _Porventura_ não se dará resposta á multidão de palavras? E o homen fallador será justificado?

3 Ás tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que ninguem te envergonhe?

4 Pois [1] tu disseste: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos.

5 Mas, na verdade, oxalá que Deus fallasse e abrisse os seus labios contra ti!

6 E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que ella é multiplice em efficacia; pelo que sabe que Deus exige de ti menos [2] do que _merece_ a tua iniquidade.

7 _Porventura_ [3] alcançarás os caminhos de Deus? _ou_ chegarás á perfeição do Todo-poderoso?

8 _Como_ as alturas dos céus _é_ a _sua sabedoria_; que poderás tu fazer? mais profunda do que [MX] o inferno, que poderás tu saber?

9 Mais comprida _é_ a sua medida do que a terra: e mais larga do que o mar.

10 Se [4] elle destruir, e encerrar, ou _se_ recolher, quem o fará tornar para traz?

11 Porque elle conhece aos homens vãos, e vê o vicio; e não _o_ terá em consideração?

12 Mas o homem vão é [5] falto de entendimento; sim, o homem nasce _como_ a cria do jumento montez.

13 Se tu preparaste [6] o teu coração, e estendeste as tuas mãos para elle!

14 Se _ha_ iniquidade na tua mão, lança-a para longe _de ti_ e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas.

15 Porque então [7] o teu rosto levantarás sem macula: e estarás firme, e não temerás.

16 Porque te esquecerás dos [8] trabalhos, _e_ te lembrarás _d’elles_ como das aguas que já passaram.

17 E a tua vida mais clara se levantará do que o meio dia; ainda que seja trevas, será como a manhã.

18 E terás confiança; porque haverá esperança; e buscarás _e_ repousarás seguro.

19 E deitar-te-has, e ninguem te espantará; muitos supplicarão o teu rosto.

20 Porém os olhos [9] dos impios desfallecerão, e perecerá o seu refugio: e a sua esperança _será_ o expirar da alma.

[1] cap. 6.10 e 10.7.

[2] Esd. 9.13.

[3] Ecc. 3.1, 1. Rom. 11.33.

[4] cap. 9.12 e 12.14. Apo. 3.7.

[5] Ecc. 3.18. Rom. 1.22.

[6] cap. 5.8 e 22.21. I Sam. 7.3.

[7] Gen. 4.5, 6. cap. 22.26. I João 3.21.

[8] Isa. 65.16.

[9] Lev. 26.16. Deu. 28.65. cap. 8.14 e 18.14. Pro. 11.7.

_Job defende-se contra as accusaçoes de seus amigos._

12 Então Job respondeu, e disse:

2 Na verdade, que só vós _sois_ o povo, _e_ comvosco morrerá a sabedoria.

3 Tambem eu tenho [1] um coração como vós, _e_ não vos sou inferior: e quem não sabe taes coisas como estas?

4 Eu sou irrisão aos [2] meus amigos; eu, que invoco a Deus, e elle me responde; o justo e o recto servem de irrisão.

5 Tocha desprezivel _é_ [3] na opinião do _que está_ descançado, aquelle que _está_ prompto a tropeçar com os pés.

6 As tendas [4] dos assoladores teem descanço, e os que provocam a Deus estão seguros; nas suas mãos Deus lhes põe _tudo_.

7 Mas, pergunta agora ás bestas, e cada uma d’ellas t’o ensinará: e ás aves dos céus, e ellas t’o farão saber;

8 Ou falla com a terra, e ella t’o ensinará: até os peixes do mar t’o contarão.

9 Quem não entende por todas estas coisas que a mão do Senhor faz isto?

10 Em cuja mão _está_ [5] a alma de tudo quanto vive, e o espirito de toda a carne humana.

11 _Porventura_ o [6] ouvido não provará as palavras, como o paladar gosta as comidas?

12 Com os edosos _está_ a [7] sabedoria, e na longura de dias o entendimento.

13 Com elle _está_ a sabedoria [8] e a força: conselho e entendimento tem.

14 Eis que elle derriba, e não se reedificará: encerra o homem, e não se _lhe_ abrirá.

15 Eis que elle retem [9] as aguas, e se seccam; e as larga, e transtornam a terra.

16 Com elle _está_ a força e a sabedoria: seu _é_ o errante e o que _o_ faz errar.

17 Aos conselheiros leva despojados, e aos juizes faz [10] desvairar.

18 Solta a atadura dos reis, e ata o cinto aos seus lombos.

19 Aos principes leva despojados, aos poderosos transtorna.

20 Aos acreditados tira a [11] falla, e toma o entendimento aos velhos.

21 Derrama desprezo sobre os principes, e affrouxa o cinto dos violentos.

22 As profundezas das [12] trevas manifesta, e a sombra da morte traz á luz.

23 Multiplica [13] as gentes e as faz perecer; espalha as gentes, e as guia.

24 Tira o coração aos chefes das gentes da terra, e os faz vaguear pelos desertos, sem caminho.

25 Nas trevas andam ás apalpadelas, [14] sem terem luz, e os faz desatinar como ebrios.

[1] cap. 13.2.

[2] cap. 16.10 e 21.3 e 30.1.

[3] Pro. 14.2.

[4] cap. 21.7. Jer. 12.1. Mal. 3.15.

[5] Num. 16.22. Dan. 5.23. Act. 17.29.

[6] cap. 34.3 e 6.30.

[7] cap. 32.7.

[8] cap. 9.4 e 36.5. cap. 11.10. Isa. 22.22. Apo. 3.7.

[9] I Reis 8.35 e 17.1.

[10] II Reis 15.31. Isa. 19.12 e 29.14. I Cor. 1.19.

[11] cap. 32.9. Isa. 3.1, 2, 3. Dan. 2.21.

[12] Dan. 2.22. Mat. 10.26. I Cor. 4.5.

[13] Isa. 9.3 e 26.15.

[14] Deu. 28.29. cap. 5.14.

13 Eis que tudo _isto_ viram os meus olhos, _e_ os meus ouvidos _o_ ouviram e entenderam.

2 Como [1] vós _o_ sabeis, o sei eu tambem; não vos sou inferior.

3 _Mas_ [2] eu fallarei ao Todo-poderoso, e quero defender-me para com Deus.

4 Vós porém _sois_ [3] inventores de mentiras, _e_ vós todos medicos que não valem nada.

5 Oxalá vos calasseis de todo! que _isso_ seria [4] a vossa sabedoria.

6 Ouvi agora a minha defeza, e escutae os argumentos dos meus labios.

7 _Porventura_ [5] por Deus fallareis perversidade? e por elle fallareis engano?

8 _Ou_ fareis acceitação da sua pessoa? _ou_ contendereis por Deus?

9 Ser-_vos_-hia bom, se elle vos esquadrinhasse? _ou_ zombareis d’elle, como se zomba d’algum homem?

10 Certamente vos reprehenderá, se em occulto fizerdes acceitação de pessoas.

11 _Porventura_ não vos espantará a sua alteza? e não cairá sobre vós o seu temor?

12 As vossas memorias _são_ como a cinza: as vossas alturas como alturas de lodo.

13 Calae-vos perante mim, e fallarei eu, e que fique alliviado algum tanto.

_Job confia em Deus e deseja conhecei os seus peccados._

14 Por que _razão_ tomo [6] eu a minha carne com os meus dentes, e ponho a minha [MY] vida na minha mão?

15 [7] _Ainda que_ me matasse, n’elle esperarei; comtudo os meus caminhos defenderei diante d’elle.

16 Tambem elle _será_ a salvação minha: porém o hypocrita não virá perante o seu rosto.

17 Ouvi com attenção as minhas razões, e com os vossos ouvidos a minha declaração.

18 Eis que já tenho ordenado a minha causa, _e_ sei que serei achado justo.

19 Quem [8] _é_ o que contenderá comigo? se eu agora me calasse, daria o espirito.

20 Duas _coisas_ sómente [9] não faças para comigo; então me não esconderei do teu rosto:

21 Desvia a tua mão para longe, de sobre mim, e não me espante o teu terror.

22 Chama, pois, e eu responderei; ou eu fallarei, e tu responde-me.

23 Quantas culpas e peccados tenho eu? notifica-me a minha transgressão e o meu peccado.

24 Porque escondes [10] o teu rosto, e me [11] tens por teu inimigo?

25 _Porventura_ quebrantarás a [12] folha arrebatada _do vento_? e perseguirás o restolho secco?

26 Porque escreves contra mim amarguras [13] e me fazes herdar as culpas da minha mocidade?

27 Tambem pões [14] no tronco os meus pés, e observas todos os meus caminhos, _e_ marcas as solas dos meus pés.

28 Envelhecendo-se entretanto elle com a podridão, _e_ como o vestido, ao qual roe a traça.

[1] cap. 12.3.

[2] cap. 23.3 e 31.35.

[3] cap. 6.21 e 16.2.

[4] Pro. 17.28.

[5] Deu. 28.29. cap. 5.14.

[6] cap. 18.4. I Sam. 28.21.

[7] Pro. 14.32. cap. 27.5.

[8] Isa. 50.8.

[9] cap. 9.34.

[10] Deu. 32.20. Isa. 8.17.

[11] Deu. 32.42. Lam. 2.5.

[12] Isa. 42.3.

[13] cap. 20.11.

[14] cap. 33.11.

_Job roga o favor de Deus por causa da brevidade e miseria da vida humana._

14 O homem nascido da mulher _é_ curto de dias e farto [1] de inquietação.

2 Sae como [2] a flôr, e se corta; foge tambem como a sombra, e não permanece.

3 E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juizo comtigo.

4 Quem do immundo tirará [3] o puro? Ninguem.

5 Visto que os seus dias _estão_ [4] determinados, comtigo _está_ o numero dos seus dias; _e_ tu lhe pozeste limites, e não passará além _d’elles_.

6 Desvia-te [5] d’elle, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.

7 Porque ha esperança para a arvore que, se fôr cortada, ainda se renovará, [6] e não cessarão os seus renovos

8 Se se envelhecer na terra a sua raiz, e morrer o seu tronco no pó,

9 Ao cheiro das aguas brotará, e dará ramos para a planta.

10 Porém, morrendo o homem, está abatido: e dando o homem o espirito, então onde está?

11 Como as aguas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica secco,

12 Assim o homem se deita, e não se levanta: até [7] que não haja mais céus não acordarão nem se erguerão de seu somno.

13 Oxalá me escondesses [MZ] na sepultura, _e_ me occultasses até que a tua ira se desviasse: _e_ me pozesses um limite, e te lembrasses de mim!

14 Morrendo o homem, _porventura tornará a_ viver? todos os dias de meu combate esperaria, [8] até que viesse a minha mudança?

15 Chama-_me_, [9] e eu te responderei, _e_ affeiçoa-te á obra de tuas mãos.

16 Pois agora [10] contas os meus passos: _porventura_ não vigias sobre o meu peccado?

17 A minha transgressão _está_ sellada [11] n’um sacco, e amontoas as minhas iniquidades.

18 E, na verdade, caindo a montanha, desfaz-se: e a rocha se remove do seu logar.

19 As aguas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra: e tu fazes perecer a esperança do homem.

20 Tu para sempre prevaleces contra elle, e elle passa; tu, mudando o seu rosto, o despedes.

21 Os seus filhos estão em honra, sem que elle o saiba: ou ficam minguados [12] sem que elle o perceba:

22 Mas a sua carne n’elle tem dôres: e a sua alma n’elle lamenta.

[1] cap. 5.7. Ecc. 2.22.

[2] cap. 8.9. Isa. 40.6. Thi. 1.10, 11 e 4.14. I Ped. 1.24.

[3] Gen. 5.3. João 3.6. Rom. 5.12. Eph. 2.3.

[4] cap. 7.1.

[5] cap. 7.16, 19 e 10.20. cap. 7.1.

[6] ver. 14.

[7] Isa. 51.6 e 65.17 e 66.22. Act. 3.21. Rom. 8.20. II Ped. 3.7, 10, 11. Apo. 20.11 e 21.1.

[8] cap. 13.15. ver. 7.

[9] cap. 13.22.

[10] cap. 10.6, 14 e 13.27 e 31.4 e 34.21. Pro. 5.21. Jer. 32.19.

[11] Deu. 32.34. Ose. 13.12.

[12] Ecc. 9.5. Isa. 63.16.

_Eliphaz accusa Job de impiedade._

15 Então respondeu Eliphaz o themanita, e disse:

2 _Porventura_ dará o sabio por resposta sciencia de vento? e encherá o seu ventre de vento oriental?

3 Arguindo com palavras que de nada servem e com razões, com que nada aproveita?

4 E tu tens feito vão o temor, e diminues os rogos diante de Deus.

5 Porque a tua bocca declara a tua iniquidade; e tu escolheste a lingua dos astutos.

6 A tua bocca [1] te condemna, e não eu, e os teus labios testificam contra ti.

7 _És_ tu _porventura_ o primeiro homem que foi nascido? [2] ou foste gerado antes dos outeiros?

8 _Ou_ ouviste [3] o secreto conselho de Deus? e a ti _só_ limitaste a sabedoria?

9 Que sabes [4] tu, que nós não sabemos? _e que_ entendes, que não _haja_ em nós?

10 Tambem [5] _ha_ entre nós encanecidos e edosos, muito mais edosos do que teu pae.

11 _Porventura_ as consolações de Deus te _são_ pequenas? ou alguma coisa se occulta em ti?

12 Porque te arrebata o teu coração? e porque acenam os teus olhos?

13 Para virares contra Deus o teu espirito, e deixares sair _taes_ palavras da tua bocca?

14 Que [6] _é_ o homem, para que seja puro? e _o que_ nasce da mulher, para que fique justo?

15 Eis que nos [7] seus sanctos não confiaria, e nem os céus são puros aos seus olhos.

16 Quanto mais [8] abominavel e fedorento _é_ o homem que bebe a [9] iniquidade como a agua?

_Eliphaz mostra que o impio é atormentado n’esta vida._

17 Escuta-me, mostrar-t’_o_-hei: e o que vi _te_ contarei

18 (O que os sabios annunciaram, _ouvindo-o_ de seus paes, e _o_ não [10] occultaram.

19 Aos quaes sómente se déra a terra, e nenhum estranho passou [11] por meis d’elles):

20 Todos os dias o impio se dá pena _a si_ mesmo, e se reservam para o tyranno um certo numero d’annos.

21 O sonido dos horrores _está_ nos seus [12] ouvidos: até na paz lhe sobrevem o assolador.

22 Não crê que tornará das trevas, e que está esperado da espada.

23 Anda vagueando por pão, dizendo: Onde está? _Bem_ sabe que _já_ o dia [13] das trevas lhe está preparado á mão.

24 Assombram-n’o a angustia e a tribulação; prevalecem contra elle, como o rei preparado para a peleja.

25 Porque estende a sua mão contra Deus, e contra o Todo-poderoso se embravece.

26 Arremette contra elle com a dura cerviz, _e_ contra os pontos grossos dos seus escudos.

27 Porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou enxundia nas ilhargas.

28 E habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguem morava, que estavam a ponto de fazer-se montões _de ruinas_.

29 Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão pela terra as suas possessões.

30 Não escapará das trevas; a chamma _do fogo_ seccará os seus renovos, _e_ ao assopro da sua bocca [14] desapparecerá.

31 Não confie _pois_ na [15] vaidade enganando-se a si mesmo, porque a vaidade será a sua recompensa.

32 Antes [16] do seu dia ella se _lhe_ cumprirá; e o seu ramo não reverdecerá.

33 Sacudirá as suas uvas verdes, como _as_ da vide, e deixará cair a sua flor como _a_ da oliveira.

34 Porque o ajuntamento dos hypocritas _se fará_ esteril, e o fogo consumirá as tendas do soborno.

35 Concebem [17] o trabalho, e parem a iniquidade, e o seu ventre prepara enganos.

[1] Luc. 19.22.

[2] Pro. 8.25.

[3] Rom. 11.25, 34. I Cor. 2.11.

[4] cap. 13.2.

[5] cap. 32.6, 7.

[6] I Sam. 8.46. II Chr. 6.36. cap. 14.4. Pro. 20.9. Ecc. 7.20. I João 18.10.

[7] cap. 4.18 e 25.5.

[8] cap. 4.19.

[9] cap. 34.7. Pro. 19.28.

[10] cap. 8.8.

[11] Joel 3.17.

[12] I The. 5.3.

[13] cap. 18.12.

[14] cap. 4.9.

[15] Isa. 59.4.

[16] cap. 22.16.

[17] Isa. 59.4. Ose. 10.13.

_Job accusa a seus amigos de falta de compaixão e misericordia._

16 Então respondeu Job, e disse:

2 Tenho ouvido muitas coisas como estas: todos vós _sois_ consoladores [1] molestos.

3 _Porventura_ não terão fim estas palavras de vento? ou _que_ te irrita, para _assim_ responderes?

4 Fallaria eu tambem como vós _fallaes_, se a vossa alma estivesse em logar da minha alma? _ou_ amontoaria palavras contra vós, e menearia contra vós a minha cabeça?

5 Antes vos fortaleceria com a minha bocca, e a consolação dos meus labios abrandaria a dôr.

6 Se eu fallar, a minha dôr não cessa, e, calando-_me eu_, que _mal_ me deixa?

7 Na verdade, agora me molestou: tu assolaste toda a minha companhia.

8 Testemunha _d’isto é_ que já me fizeste enrugado, e a minha magreza _já_ se levanta contra mim, _e_ no meu rosto testifica _contra mim_.

9 Na sua ira _me_ [2] despedaçou, e elle me perseguiu; rangeu os seus dentes contra mim: aguça o meu adversario os seus olhos [3] contra mim.

10 Bocejam [4] com a sua bocca contra mim; com desprezo me feriram nos queixos, _e_ contra mim se ajuntam todos.

11 Entrega-me [5] Deus ao perverso, e nas mãos dos impios me faz cair.

12 Descançado estava eu, porém elle me quebrantou; e pegou-me pela cerviz, e me despedaçou; tambem me poz por seu alvo.

13 Cercam-me os seus frecheiros; atravessa-me os rins, e não _me_ poupa, _e_ o meu fel derrama em terra.

14 Quebranta-me com quebranto sobre quebranto: arremette contra mim como um valente.

15 Cosi sobre a minha [6] pelle o sacco, _e_ revolvi a minha cabeça no pó.

16 O meu rosto _todo_ está descorado de chorar, e sobre as minhas palpebras _está_ a sombra da morte:

17 Não havendo porém violencia nas minhas mãos, e _sendo_ pura a minha oração.

18 Ah! terra, não cubras o meu sangue; e não [7] haja logar para o meu clamor!

19 Eis que tambem agora _está_ a minha [8] testemunha no céu, e a minha testemunha nas alturas.

20 Os meus amigos _são_ os que zombam de mim; os meus olhos se desfazem _em lagrimas_ diante de Deus.

21 Ah! [9] se se podesse contender com Deus pelo homem, como o filho do homem pelo seu amigo!

22 Porque se passarão _poucos_ annos; e eu seguirei o caminho _por onde_ não tornarei.

[1] cap. 13.4.

[2] cap. 10.16, 17.

[3] cap. 13.24.

[4] Lam. 3.30. Miq. 5.1.

[5] cap. 1.15, 17.

[6] cap. 30.19.

[7] cap. 27.9.

[8] Rom. 1.9.

[9] cap. 31.25. Ecc. 6.10. Isa. 45.9. Rom. 9.20.

17 O meu espirito se vae corrompendo, os meus dias se vão apagando, _e tenho_ perante mim as [1] sepulturas.

2 _Porventura_ não _estão_ zombadores comigo? e os meus olhos não passam a noite _chorando_ pelas suas amarguras?

3 Promette agora, _e_ dá-me _um_ fiador para comtigo: [2] quem ha _que_ me dê a mão?

4 Porque aos seus corações encobriste o entendimento, pelo que não _os_ exaltarás.

5 _O_ que lisongeando falla aos amigos tambem os olhos de seus filhos desfallecerão.

6 Porém a mim me [3] poz por _um_ proverbio dos povos, de modo que _já_ sou uma abominação perante o rosto _de cada um_.

7 Pelo que _já_ se escureceram de magoa os meus olhos, e _já_ todos os meus membros _são_ como a sombra:

8 Os rectos pasmarão d’isto, e o innocente se levantará contra o hypocrita.

9 E o justo seguirá o seu caminho firmemente, e o puro de mãos irá crescendo em força.

10 Mas, na verdade, tornae [4] todos vós, e vinde cá; porque sabio nenhum acho entre vós.

11 Os meus dias [5] passam, os meus propositos se quebraram, [NA] os pensamentos do meu coração.

12 Trocaram o dia em noite; a luz _está_ perto _do fim_, por causa das trevas.

13 Se eu esperar, a sepultura _será_ a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama.

14 Á corrupção clamo: Tu _és_ meu pae; _e_ aos bichos: Vós _sois_ minha mãe e minha irmã.

15 Onde pois _estaria_ agora a minha esperança? emquanto á minha esperança, quem a poderá ver?

16 As barras da [6] sepultura descerão quando juntamente no pó haverá descanço.

[1] I Sam. 1.6, 7.

[2] Pro. 6.1 e 17.18 e 22.26.

[3] cap. 30.9.

[4] cap. 6.29.

[5] cap. 7.6 e 9.25.

[6] cap. 18.13. cap. 3.17.

_Bildad accusa Job de presumpção e impaciencia._

18 Então respondeu Bildad, o suhita, e disse:

2 Até quando _não_ fareis fim de palavras? considerae _bem_, e então fallaremos.

3 Porque somos estimados como bestas, _e_ immundos aos vossos olhos?

4 Oh tu, que despedaças [1] a tua alma na tua ira, será a terra deixada por tua causa? e remover-se-hão as rochas do seu logar?

5 Na verdade, [2] a luz dos impios se apagará, e a faisca do seu fogo não resplandecerá.

6 A luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lampada [3] sobre elle se apagará.

7 Os passos do seu poder se estreitarão, e o seu conselho o derribará.

8 Porque [4] por seus proprios pés é lançado na rede, e andará nos fios enredados.

9 O laço o apanhará pelo calcanhar, _e_ prevalecerá [5] contra elle o salteador.

10 Está escondida debaixo da terra uma corda, e uma armadilha na vereda.

11 Os assombros o espantarão em redor, e o farão correr d’uma parte para a outra, por onde quer que [6] apresse os passos.

12 Será faminto o seu rigor, [7] e a destruição _está_ prompta ao seu lado.

13 O primogenito da morte consumirá _as_ costellas da sua pelle: consumirá, _digo_, os seus membros.

14 A sua confiança [8] será arrancada da sua tenda, e _isto_ o fará caminhar para o rei dos assombros.

15 Morará na sua _mesma_ tenda, não lhe ficando nada: espalhar-se-ha enxofre sobre a sua habitação.

16 Por debaixo se seccarão as suas raizes, [9] e por de cima serão cortados os seus ramos.

17 A sua memoria [10] perecerá da terra, e pelas praças não terá nome.

18 Da luz o lançarão nas trevas, e afugental-o-hão do mundo.