A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento
Part 8
7 Então perguntou aos eunuchos de Pharaó, que com elle _estavam_ no carcere da casa de seu senhor, dizendo: Porque _estão_ hoje tristes os vossos semblantes?
8 E elles lhe disseram: Temos sonhado um sonho, e ninguem _ha_ que o interprete. E José disse-lhes: [5] Não _são_ de Deus as interpretações? contae-m’o, peço-vos.
9 Então contou o copeiro-mór o seu sonho a José, e disse-lhe: Eis que em meu sonho _havia_ uma vide diante da minha face,
10 E na vide tres sarmentos, e estava como brotando; a sua flôr sahia, os seus cachos amadureciam em uvas:
11 E o copo de Pharaó _estava_ na minha mão, e eu tomava as uvas, e as espremia no copo de Pharaó, e dava o copo na mão de Pharaó.
12 Então disse-lhe José: Esta _é_ a sua interpretação: os tres sarmentos _são_ tres dias;
13 Dentro ainda de tres dias Pharaó levantará a tua cabeça, [6] e te restaurará ao teu estado, e darás o copo de Pharaó na sua mão, conforme o costume antigo, quando eras seu copeiro.
14 Porem lembra-te de mim, quando te fôr bem; e rogo-te que uses commigo de compaixão, e que faças menção de mim a Pharaó, e faze-me sair d’esta casa;
15 Porque, de facto, fui roubado da terra dos hebreus; [7] e tão pouco aqui nada tenho feito para que me puzessem n’esta cova.
16 Vendo então o padeiro-mór que tinha interpretado bem, disse a José: Eu tambem sonhava, e eis que tres cestos [DG] brancos estavam sobre a minha cabeça;
17 E no cesto mais alto _havia_ de todos os manjares de Pharaó, da obra de padeiro: e as aves o comiam do cesto de sobre a minha cabeça.
18 Então respondeu José, e disse: Esta é _a_ sua interpretação: os tres cestos _são_ tres dias;
19 Dentro ainda de tres dias Pharaó levantará a tua cabeça sobre ti, e te pendurará n’um pau, e as aves comerão a tua carne de sobre ti.
20 E aconteceu ao terceiro dia, o dia do nascimento de Pharaó, que fez um banquete a todos os seus servos; e levantou a cabeça do copeiro-mór, e a cabeça do padeiro-mór, no meio dos seus servos.
21 E fez tornar o copeiro-mór ao seu officio de copeiro, [8] e deu o copo na mão de Pharaó,
22 Mas ao padeiro-mór enforcou, como José havia interpretado.
23 O copeiro-mór, porém, não se lembrou de José, antes esqueceu-se [9] d’elle.
[1] Pro. 16.14.
[2] cap. 39.20, 23.
[3] Job 33.15, 17.
[4] Dan. 4.5.
[5] cap. 41.15. Dan. 2.11, 28.
[6] II Reis 25.27. Jer. 52.31.
[7] Psa. 59.3, 4. Dan. 6.21.
[8] ver. 13. II Sam. 21.10.
[9] Job 19.14.
_José interpreta os sonhos de Pharaó._
[Antes de Christo 1718]
41 E aconteceu que, ao fim de dois annos inteiros, [1] Pharaó sonhou, e eis que estava em pé junto ao rio,
2 E eis que subiam do rio sete vaccas, formosas á vista e gordas de carne, e pastavam no prado.
3 E eis que subiam do rio após ellas outras sete vaccas, feias á vista e magras de carne; e paravam junto ás _outras_ vaccas na praia do rio.
4 E as vaccas feias á vista, e magras de carne, comiam as sete vaccas formosas á vista e gordas. Então acordou Pharaó.
5 Depois dormiu, e sonhou outra vez, e eis que brotavam d’uma cana sete espigas cheias e boas,
6 E eis que sete espigas miudas, e queimadas do vento oriental, brotavam após ellas.
7 E as espigas miudas devoravam as sete espigas grandes e cheias. Então acordou Pharaó, e eis que _era um_ sonho.
8 E aconteceu que pela manhã o seu espirito perturbou-se, [2] e enviou e chamou todos os adivinhadores do Egypto, e todos os seus sabios; e Pharaó contou-lhes os seus sonhos, mas ninguem _havia_ que os interpretasse a Pharaó.
9 Então fallou o copeiro-mór a Pharaó, dizendo: Dos meus peccados me lembro hoje:
10 Estando [3] Pharaó mui indignado contra os seus servos, e pondo-me em guarda na casa do capitão da guarda, a mim e ao padeiro-mór,
11 Então [4] sonhámos um sonho na mesma noite, eu e elle, cada um conforme a interpretação do seu sonho sonhámos.
12 E _estava_ ali comnosco um mancebo hebreu, servo do capitão da guarda, e contámos-lh’os, e interpretou-nos os nossos sonhos, a cada um os interpretou conforme o seu sonho.
13 E como elle nos interpretou, assim _mesmo_ foi feito: a mim me fez tornar ao meu estado, e a elle fez enforcar.
14 Então enviou Pharaó, e chamou a José, e o fizeram sair logo da cova; [5] e barbeou-se e mudou os seus vestidos, e veiu a Pharaó.
15 E Pharaó disse a José: Eu sonhei um sonho, e ninguem _ha_ que o interprete; mas de ti ouvi dizer _que quando_ ouves um sonho o interpretas.
16 E respondeu José a Pharaó, dizendo: Sem mim _é isso_: Deus responderá paz a Pharaó.
17 Então disse Pharaó a José: Eis que em meu sonho [6] estava eu em pé na praia do rio,
18 E eis que subiam do rio sete vaccas gordas de carne e formosas á vista, e pastavam no prado.
19 E eis que outras sete vaccas subiam após estas, muito feias á vista, e magras de carne; não tenho visto outras taes, emquanto á fealdade, em toda a terra do Egypto.
20 E as vaccas magras e feias comiam os primeiras sete vaccas gordas;
21 E entravam em suas entranhas, mas não se conhecia que houvessem entrado em suas entranhas: porque o seu parecer _era_ feio como no principio. Então acordei.
22 Depois vi em meu sonho, e eis que d’uma cana subiam sete espigas cheias e boas;
23 E eis que sete espigas seccas, miudas _e_ queimadas do vento oriental, brotavam após ellas.
24 E as sete espigas miudas devoravam as sete espigas boas. E eu disse-o aos [7] magos, mas ninguem _houve_ que m’o interpretasse.
25 Então disse José a Pharaó: O sonho de Pharaó _é_ um só; o que Deus ha de fazer, [8] notificou a Pharaó.
26 As sete vaccas formosas _são_ sete annos; as sete espigas formosas tambem _são_ sete annos: o sonho é um só.
27 E as sete vaccas feias á vista e magras, que subiam depois d’ellas, _são_ sete annos; e as sete espigas miudas e queimadas do vento oriental, [9] serão sete annos de fome.
28 Esta _é_ a palavra que tenho dito a Pharaó; o que Deus ha de fazer, mostrou-o a Pharaó.
29 E eis que veem sete annos, e [10] haverá grande fartura em toda a terra do Egypto.
30 E depois d’elles levantar-se-hão [11] sete annos de fome, e toda aquella fartura será esquecida na terra do Egypto, e a fome consumirá a terra;
31 E não será conhecida a abundancia na terra, por causa d’aquella fome _que haverá_ depois; porquanto será gravissima.
32 E que o sonho foi duplicado duas vezes a Pharaó, é [12] porquanto esta coisa é determinada de Deus, e Deus se apressa a fazel-a.
33 Portanto Pharaó se proveja agora d’um varão entendido e sabio, e o ponha sobre a terra do Egypto:
34 Faça _isso_ Pharaó, e ponha governadores sobre a terra, [13] e tome a quinta parte da terra do Egypto nos sete annos de fartura,
35 E ajuntem toda a comida d’estes bons annos, que veem, e amontoem o trigo debaixo da mão de Pharaó, para mantimento nas cidades, e o guardem;
36 Assim será o mantimento para provimento da terra, para os sete annos de fome, que haverá na terra do Egypto; para que a terra não pereça de fome.
37 E esta palavra foi boa aos olhos de Pharaó, [14] e aos olhos de todos os seus servos.
_Pharaó põe José como governador do Egypto._
[Antes de Christo 1715]
38 E disse Pharaó a seus servos: Achariamos um varão como este, em quem _haja_ o espirito de Deus?
39 Depois disse Pharaó a José: Pois que Deus te fez saber tudo isto, ninguem _ha tão_ entendido e sabio como tu:
40 Tu estarás sobre a minha casa, [15] e por tua bocca se governará todo o meu povo, sómente no throno eu serei maior que tu.
41 Disse mais Pharaó a José: Vês aqui te tenho posto sobre toda a terra do Egypto.
42 E tirou Pharaó o seu annel da sua mão, e o poz na mão de José, e o fez vestir de vestidos de linho fino, [16] e poz um collar d’oiro no seu pescoço,
43 E o fez subir no segundo carro que tinha, e clamavam diante d’elle: Ajoelhae; [17] assim o poz sobre toda a terra do Egypto.
44 E disse Pharaó a José: Eu _sou_ Pharaó; porém sem ti ninguem levantará a sua mão ou o seu pé em toda a terra do Egypto.
45 E chamou Pharaó o nome de José [DH] Zaphnath-paneah, e deu-lhe por mulher a Asenath, [18] filha de Potiphera, sacerdote de On; e saiu José por _toda_ a terra do Egypto.
46 E José _era_ da edade de trinta annos quando esteve diante da face de Pharaó, rei do Egypto. E saiu José da face de Pharaó, e passou por toda a terra do Egypto.
47 E a terra produziu nos sete annos de fartura a mãos cheias.
48 E ajuntou todo o mantimento dos sete annos, que houve na terra do Egypto, e guardou o mantimento nas cidades, pondo nas cidades o mantimento do campo que _estava_ ao redor de cada cidade.
49 Assim ajuntou José muitissimo trigo, como a areia do mar, até que cessou de contar; porquanto não _havia_ numeração.
50 E nasceram a José dois [19] filhos (antes que viesse um anno de fome), que lhe pariu Asenath, filha de Potiphera, sacerdote de On.
51 E chamou José o nome do primogenito Manasseh [DI]; porque _disse_: Deus me fez esquecer de todo o meu trabalho, e de toda a casa de meu pae.
52 E o nome do segundo chamou Ephraim [DJ]; porque _disse_: Deus me fez [20] crescer na terra da minha afflicção.
53 Então acabaram-se os sete annos de fartura que havia na terra do Egypto,
54 E começaram a vir os sete annos de fome, como José tinha dito; e havia fome em todas as terras, mas em toda a terra do Egypto havia pão.
55 E tendo toda a terra do Egypto fome, clamou o povo a Pharaó por pão; e Pharaó disse a todos os egypcios: Ide a José; o que elle vos disser, fazei.
56 Havendo pois fome sobre toda a terra, abriu José tudo em que havia _mantimento_, [21] e vendeu aos egypcios; porque a fome prevaleceu na terra de Egypto.
57 E todas as terras vinham ao Egypto, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras.
[1] Dan. 2.1.
[2] Dan. 4.5, 19 e 7.28 e 8.27. Exo. 7.11. Isa. 29.14. Dan. 2.2.
[3] cap. 40.2.
[4] cap. 40.5.
[5] I Sam. 2.8. Psa. 105.20. Psa. 25.14. Dan. 5.16.
[6] ver. 1.
[7] ver. 8. Dan. 4.7.
[8] Dan. 2.29, 45.
[9] II Reis 8.1.
[10] ver. 47.
[11] ver. 54. cap. 47.13.
[12] cap. 37.7, 9. Num. 23.19. Isa. 46.10.
[13] Pro. 6.6, 8 e 22.3.
[14] Act. 7.10.
[15] Psa. 105.21.
[16] Dan. 5.7, 29.
[17] cap. 45.8, 26. Act. 7.10.
[18] Exo. 2.16.
[19] cap. 46.20 e 48.5.
[20] cap. 49.22.
[21] cap. 42.6.
_Os irmãos de José descem ao Egypto._
[Antes de Christo 1707]
42 Vendo então Jacob que havia mantimento no Egypto, [1] disse Jacob a seus filhos: Porque estaes olhando uns para os outros?
2 Disse mais: Eis que tenho ouvido que ha mantimentos no Egypto; descei para lá, e comprae-nos d’ali, para que vivamos e não morramos.
3 Então desceram os dez irmãos de José, para comprarem trigo do Egypto.
4 A Benjamin, porém, irmão de José não enviou Jacob com os seus irmãos, porque dizia: [2] Para que lhe não succeda porventura algum desastre.
5 Assim vieram os filhos de Israel para comprar, entre os que vinham _lá_; porque havia fome na terra de Canaan.
6 José, pois, era o governador d’aquella terra; [3] elle vendia a todo o povo da terra; e os irmãos de José vieram, e inclinaram-se a elle com a face na terra.
7 E José, vendo os seus irmãos, conheceu-os; porém mostrou-se estranho para com elles, e fallou com elles asperamente, e disse-lhes: D’onde vindes? E elles disseram: Da terra de Canaan, para comprarmos mantimento.
8 José, pois, conheceu os seus irmãos; mas elles não o conheceram.
9 Então José lembrou-se dos sonhos, [4] que havia sonhado d’elles, e disse-lhes: Vós sois espias, _e_ sois vindos para ver a nudez da terra.
10 E elles lhe disseram: Não, senhor meu; mas teus servos são vindos a comprar mantimento.
11 Todos nós somos filhos de um varão; somos homens de rectidão; os teus servos não são espias.
12 E elle lhes disse: Não; antes viestes para ver a nudez da terra.
13 E elles disseram: Nós, teus servos, _somos_ doze irmãos, filhos de um varão na terra de Canaan; e eis que aqui o mais novo _está_ com nosso pae hoje; [5] mas um não está _mais_.
14 Então lhes disse José: Isso _é_ o que vos tenho dito, dizendo que _sois_ espias:
15 N’isto sereis provados; [6] pela vida de Pharaó, não saireis d’aqui senão quando vosso irmão mais novo vier aqui.
16 Enviae um d’entre vós, que traga vosso irmão, mas vós ficareis presos, e vossas palavras sejam provadas, se _ha_ verdade comvosco; e se não, pela vida de Pharaó, vós sois espias.
17 E pôl-os juntos em guarda tres dias.
18 E ao terceiro dia disse-lhes José: Fazei isso, e vivereis; [7] _porque_ eu temo a Deus.
19 Se sois homens de rectidão, que fique um de vossos irmãos preso na casa de vossa prisão; e vós ide, levae mantimento para a fome de vossa casa,
20 E trazei-me o vosso irmão mais novo, [8] e serão verificadas vossas palavras, e não morrereis. E elles assim fizeram.
21 Então disseram uns aos outros: [9] Na verdade, _somos_ culpados ácerca de nosso irmão, pois vimos a angustia da sua alma, quando nos rogava; nós porém não ouvimos: por isso vem sobre nós esta angustia.
22 E Ruben respondeu-lhes, dizendo: [10] Não vol-o dizia eu, dizendo: Não pequeis contra o moço; mas não ouvistes: e vêdes aqui, o seu sangue tambem á requerido.
23 E elles não sabiam que José os entendia, porque _havia_ interprete entre elles.
24 E retirou-se d’elles, e chorou. Depois tornou a elles, e fallou-lhes, e tomou a Simeão d’elles, e amarrou-o perante os seus olhos.
_Os irmãos de José voltam do Egypto._
25 E ordenou José, que enchessem os seus saccos de trigo, e que _lhes_ restituissem o seu dinheiro a cada um no seu sacco, e lhes dessem comida para o caminho; [11] e fizeram-lhes assim.
26 E carregaram o seu trigo sobre os seus jumentos, e partiram d’ali.
27 E, abrindo [12] um _d’elles_ o seu sacco, para dar pasto ao seu jumento na venda, viu o seu dinheiro; porque eis que estava na bocca do seu sacco.
28 E disse a seus irmãos: Tornou-se o meu dinheiro, e eil-o tambem aqui no meu sacco. Então lhes desfalleceu o coração, e pasmavam, dizendo um ao outro: Que é isto que Deus nos tem feito?
29 E vieram para Jacob, seu pae, na terra de Canaan; e contaram-lhe tudo o que lhes aconteceu, dizendo:
30 O varão, o senhor da terra, fallou comnosco asperamente, [13] e tratou-nos como espias da terra;
31 Mas dissemos-lhe: Somos _homens_ de rectidão: não somos espias:
32 _Somos_ doze irmãos, filhos de nosso pae; um não _é mais_, e o mais novo _está_ hoje com nosso pae na terra de Canaan.
33 E aquelle varão, o senhor da terra, nos disse: N’isto conhecerei que vós sois _homens_ de rectidão; deixae commigo um de vossos irmãos, e tomae para a fome de vossas casas, e parti,
34 E trazei-me vosso irmão mais novo; assim saberei que não sois espias, mas _homens_ de rectidão; _então_ vos darei o vosso irmão e negociareis na terra.
35 E aconteceu que, [14] despejando elles os seus saccos, eis que cada um tinha a trouxinha com seu dinheiro no seu sacco; e viram as trouxinhas com seu dinheiro, elles e seu pae, e temeram.
36 Então Jacob, seu pae, disse-lhes: Tendes-me desfilhado; [15] José não _está mais_, e Simeão não _está mais_: agora levareis a Benjamin. Todas estas coisas vieram sobre mim.
37 Mas Ruben fallou a seu pae, dizendo: Mata os meus dois filhos, se t’o não tornar a trazer; dá-m’o em minha mão, e t’o tornarei a trazer.
38 Elle porém disse: Não descerá meu filho comvosco; [16] porquanto o seu irmão é morto, e elle só ficou. Se lhe succedesse algum desastre no caminho que fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza á sepultura.
[1] Act. 7.12.
[2] ver. 38.
[3] cap. 41.41.
[4] cap. 37.5, 9.
[5] cap. 37.30.
[6] I Sam. 1.26 e 17.55. Thi. 5.12.
[7] Lev. 25.43. Neh. 5.15. Luc. 18.2, 4.
[8] cap. 43.5.
[9] Num. 32.23. I Reis 17.18. Job 36.8, 9. Ose. 5.15.
[10] cap. 37.21. cap. 9.5. I Reis 2.32. II Chr. 24.22. Psa. 9.12.
[11] Mat. 5.44. Rom. 12.17, 20. Eph. 4.2.
[12] cap. 43.21.
[13] ver. 7, 12.
[14] cap. 43.21.
[15] cap. 43.14.
[16] cap. 44.29.
_Os irmãos de José descem outra vez ao Egypto._
43 E a fome [1] _era_ gravissima na terra.
2 E aconteceu que, como acabaram de comer o mantimento que trouxeram do Egypto, disse-lhes seu pae: Tornae, comprae-nos um pouco de alimento.
3 Mas Judah respondeu-lhe, dizendo: Fortemente nos protestou aquelle varão, dizendo: Não vereis a minha face, se o vosso irmão não _vier_ comvosco.
4 Se enviares comnosco o nosso irmão, desceremos, e te compraremos alimento;
5 Mas se não _o_ enviares, não desceremos; porquanto aquelle varão nos disse: Não vereis a minha face, se o vosso irmão não _vier_ comvosco.
6 E disse Israel: Porque me fizestes _tal_ mal, fazendo saber áquelle varão que tinheis ainda _outro_ irmão?
7 E elles disseram: Aquelle varão particularmente nos perguntou por nós, e pela nossa parentela, dizendo: Vive ainda vosso pae? tendes mais um irmão? e respondemos-lhe conforme as mesmas palavras. Podiamos nós saber que diria: Trazei vosso irmão?
8 Então disse Judah a Israel, seu pae: Envia o mancebo commigo, e levantar-nos-hemos, e iremos, para que vivamos, e não morramos, nem nós, nem tu, nem os nossos filhos.
9 Eu serei fiador por elle, da minha mão o requererás; [2] se eu não t’o trouxer, e não o pozer perante a tua face, serei réu de crime para comtigo para sempre:
10 E se nós não nos tivessemos detido, certamente já estariamos segunda vez de volta.
11 Então disse-lhes Israel, seu pae: Pois que assim _é_, fazei isso; tomae do mais precioso d’esta terra em vossos vasos, [3] e levae ao varão um presente: um pouco de balsamo, e um pouco de mel, especiarias, e myrrha, terebintho e [DK] amendoas;
12 E tomae em vossas mãos dinheiro dobrado, [4] e o dinheiro que tornou na bocca dos vossos saccos tornae a levar em vossas mãos; bem pode ser que fosse erro;
13 Tomae tambem a vosso irmão, e levantae-vos, e voltae áquelle varão;
14 E Deus Todo-poderoso vos dê misericordia diante do varão, para que deixe vir comvosco vosso outro irmão, [5] e Benjamin; e eu, _se fôr_ desfilhado, desfilhado ficarei.
_Os irmãos de José jantam com elle._
15 E os varões tomaram aquelle presente, e tomaram dinheiro dobrado em suas mãos, e a Benjamin: e levantaram-se, e desceram ao Egypto, e apresentaram-se diante da face de José.
16 Vendo pois José a Benjamin com elles, disse ao que _estava_ sobre a sua casa: [6] Leva _estes_ varões á casa, e mata rezes, e apresta; porque _estes_ varões comerão commigo ao meio dia.
17 E o varão fez como José dissera, e o varão levou aquelles varões á casa de José.
18 Então temeram aquelles varões, porquanto foram levados á casa de José, e diziam: Por causa do dinheiro que d’antes foi [DL] tornado nos nossos saccos, fomos levados _aqui_, para nos criminar e cair sobre nós, para que nos tome por servos, e a nossos jumentos.
19 Por isso chegaram-se ao varão que _estava_ sobre a casa de José, e fallaram com elle á porta da casa,
20 E disseram: Ai! senhor meu, certamente descemos d’antes a comprar mantimento;
21 E aconteceu que, [7] chegando nós á venda, e abrindo os nossos saccos, eis que o dinheiro de cada varão _estava_ na bocca do seu sacco, nosso dinheiro por seu peso; e tornamos a trazel-o em nossas mãos;
22 Tambem trouxemos outro dinheiro em nossas mãos, para comprar mantimento; não sabemos quem tenha posto o nosso dinheiro nos nossos saccos.
23 E elle disse: Paz _seja_ comvosco, não temaes; o vosso Deus, e o Deus de vosso pae, vos tem dado um thesoiro nos vossos saccos; o vosso dinheiro me chegou a mim. E trouxe-lhes fóra a Simeão.
24 Depois levou o varão aquelles varões á casa de José, [8] e deu-_lhes_ agua, e lavaram os seus pés; tambem deu pasto aos seus jumentos.
25 E prepararam o presente, para quando José viesse ao meio dia; porque tinham ouvido que ali haviam de comer pão.
26 Vindo pois José a casa, trouxeram-lhe a casa o presente, [9] que estava na sua mão; e inclinaram-se a elle á terra.
27 E [10] elle lhes perguntou como estavam, e disse: Vosso pae, o velho de quem fallastes, está bem? ainda vive?
28 E elles disseram: Bem está o teu servo, nosso pae [11] vive ainda. E abaixaram a cabeça, e inclinaram-se.
29 E elle levantou os seus olhos, e viu a Benjamin, seu irmão, [12] filho de sua mãe, e disse: Este _é_ vosso irmão mais novo de quem me fallastes? Depois elle disse: Deus te dê a sua graça, meu filho.
30 E José apressou-se, [13] porque as suas entranhas moveram-se para o seu irmão, e procurou _onde_ chorar; e entrou na camara, e chorou ali.
31 Depois lavou o seu rosto, e saiu; e conteve-se, e disse: Ponde pão.
32 E pozeram-lhe a _elle_ á parte, e a elles á parte, e aos egypcios, que comiam com elle, á parte; porque os egypcios não podem comer pão com os hebreus, porquanto _é_ abominação para os egypcios.
33 E assentaram-se diante d’elle, o primogenito segundo a sua primogenitura, e o menor segundo a sua menoridade: do que os varões se maravilhavam entre si.
34 E apresentou-lhes as porções que _estavam_ diante d’elle; porém a porção de Benjamin era cinco vezes maior do que as porções d’elles todos. E elles beberam, e se regalaram com elle.
[1] cap. 41.54.
[2] cap. 44.32.
[3] Pro. 18.16. cap. 37.25.
[4] cap. 42.35.
[5] Neh. 1.11. Psa. 37.5.
[6] cap. 44.1.
[7] cap. 42.27.
[8] cap. 18.4 e 24.32.
[9] cap. 37.7, 10.
[10] cap. 42.11, 13.
[11] cap. 37.7, 10.
[12] cap. 35.17, 18.
[13] I Reis 3.20. Jer. 31.20. Phi. 1.8 e 2.1. Col. 3.12.
_A astucia de José para deter seus irmãos._
44 E deu ordem ao que estava sobre a sua casa, dizendo: Enche os saccos d’estes varões de mantimento, quanto poderem levar, e põe o dinheiro de cada varão na bocca do seu sacco.
2 E o meu copo, o copo de prata, porás na bocca do sacco do mais novo, com o dinheiro do seu trigo. E fez conforme a palavra de José, que tinha dito.
3 Vinda a luz da manhã, despediram-se estes varões, elles com os seus jumentos.
4 Saindo elles da cidade, _e_ não se havendo ainda distanciado, disse José ao que _estava_ sobre a sua casa: Levanta-te, e persegue aquelles varões: e, alcançando-os, lhes dirás: Porque pagastes mal por bem?
5 Não _é_ este o _copo_ por que bebe meu senhor? e em que elle bem [DM] attenta? fizestes mal no que fizestes.
6 E alcançou-os, e fallou-lhes as mesmas palavras.
7 E elles disseram-lhe: Porque diz meu senhor taes palavras? longe estejam teus servos de fazerem similhante coisa.
8 Eis que o dinheiro, [1] que temos achado nas boccas dos nossos saccos, te tornámos a trazer desde a terra de Canaan: como pois furtariamos da casa do teu senhor prata ou oiro?
9 Aquelle, [2] com quem de teus servos fôr achado, morra; e ainda nós seremos escravos do meu senhor.
10 E elle disse: Ora seja tambem assim conforme as vossas palavras; aquelle com quem se achar será meu escravo, porém vós sereis desculpados.
11 E elles apressaram-se, e cada um poz em terra o seu sacco, e cada um abriu o seu sacco.
12 E buscou, começando do maior, e acabando no mais novo: e achou-se o copo no sacco de Benjamin.
13 Então rasgaram os seus vestidos, [3] e carregou cada um o seu jumento, e tornaram á cidade.
14 E veiu Judah com os seus irmãos á casa de José, porque elle ainda estava ali; [4] e prostraram-se diante d’elle na terra.
15 E disse-lhes José: Que _é_ isto que obrastes? não sabeis vós que tal homem como eu bem [DN] attentara?
_A humilde supplica de Judah._
16 Então disse Judah: Que diremos a meu senhor? que fallaremos? e como nos justificaremos? Achou Deus a iniquidade de teus servos; [5] eis que _somos_ escravos de meu senhor, tanto nós como aquelle em cuja mão foi achado o copo.
17 Mas elle disse: [6] Longe de mim que eu tal faça; o varão em cuja mão o copo foi achado, aquelle será meu servo; porém vós subi em paz para vosso pae.
18 Então Judah se chegou a elle, e disse: Ai! senhor meu, deixa, peço-te, o teu servo dizer uma palavra aos ouvidos de meu senhor, e não se accenda a tua ira contra o teu servo; porque tu _és_ como Pharaó.
19 Meu senhor perguntou a seus servos, dizendo: Tendes vós pae, ou irmão?
20 E dissemos a meu senhor: Temos um pae velho, e um moço da sua velhice, o mais novo, cujo irmão é morto; e elle ficou só de sua mãe, [7] e seu pae o ama.
21 Então tu disseste a teus servos: Trazei-m’o a mim, e porei os meus olhos sobre elle.