A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento
Part 181
3 Quanto a mim, sou varão [2] judeo, nascido em Tarso de Cilicia, e n’esta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruido conforme a verdade da lei de nossos paes, zelador de Deus, como todos vós hoje sois.
4 Que tenho perseguido este caminho até á morte, [3] prendendo, e mettendo em prisões, assim varões como mulheres.
5 Como tambem o summo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho dos [4] anciãos: dos quaes ainda, levando cartas para os irmãos, fui a Damasco, para trazer manietados para Jerusalem aquelles que ali estivessem, para que fossem castigados.
6 Porém aconteceu [5] que, indo eu _já_ de caminho, e chegando perto de Damasco, quasi ao meio dia, de repente me rodeou _uma_ grande luz do céu.
7 E cahi por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues?
8 E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus nazareno, a quem tu persegues.
9 E os que estavam [6] comigo viram em verdade a luz, e se atemorisaram muito; mas não ouviram a voz d’aquelle que fallava comigo.
10 Então disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te, e vae a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer.
11 E, como eu não via, por causa do esplendor d’aquella luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco.
12 E um _certo_ Ananias, [7] varão pio conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeos que _ali_ moravam,
13 Vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a vista. E n’aquella mesma hora o vi.
14 E _elle_ disse: [8] O Deus de nossos paes d’antemão te ordenou para que conheças a sua vontade, e vejas aquelle Justo, e ouças a voz da sua bocca.
15 Porque lhe has de ser [9] testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido.
16 E agora [10] porque te detens? Levanta-te, e baptiza-te, e lava os teus peccados, invocando o nome do Senhor.
17 E aconteceu-me, [11] tornando eu para Jerusalem, que, orando eu no templo, fui arrebatado para fóra de mim.
18 E vi o que me dizia: [12] Dá-te pressa, e sae apressadamente de Jerusalem; porque não receberão o teu testemunho ácerca de mim.
19 E eu disse: [13] Senhor, elles bem sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas synagogas os que criam em ti.
20 E quando [14] o sangue de Estevão, tua testemunha, se derramava, tambem eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava os vestidos dos que o matavam.
21 E disse-me: [15] Vae, porque hei-de enviar-te aos gentios de longe.
22 E ouviram-n’o até esta palavra, e [16] levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal _homem_, porque não convem que viva.
23 E, clamando elles, e lançando de si os vestidos, e deitando pó para o ar,
24 O tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra elle.
25 E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: [17] É-vos licito açoitar um homem romano, sem ser condemnado?
26 E, ouvindo _isto_, o centurião foi, e annunciou ao tribuno, dizendo: Olha o que vaes fazer, porque este homem é romano.
27 E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E elle disse: Sim.
28 E respondeu o tribuno: Eu com grande somma _de dinheiro_ alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu sou-o de nascimento.
29 De sorte que logo d’elle se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, porque o tinha ligado.
_Paulo perante o synhedrio._
30 E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era accusado pelos judeos, soltou-o das prisões, e mandou vir os principaes dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, _o_ apresentou diante d’elles.
[1] cap. 7.2.
[2] cap. 21.39. Phi. 3.5. Deu. 33.3. II Reis 4.38. Gal. 1.14. Rom. 10.2.
[3] cap. 8.3 e 26.9, 10, 11. Phi. 3.6. I Tim. 1.13.
[4] Luc. 22.66. cap. 4.5 e 9.2.
[5] cap. 9.3 e 26.12, 13.
[6] Dan. 10.7. cap. 9.7.
[7] cap. 9.17 e 10.22. I Tim. 3.7.
[8] cap. 3.13 e 5.30 e 9.15 e 26.16 e 3.14 e 7.52. I Cor. 9.1 e 15.8 e 11.23. Gal. 1.12.
[9] cap. 23.11 e 4.20 e 26.16.
[10] cap. 2.38 e 9.14. Heb. 10.22. Rom. 10.13.
[11] cap. 9.26. II Cor. 12.2.
[12] ver. 14. Mat. 10.14.
[13] ver. 4. cap. 8.3. Mat. 10.17.
[14] cap. 7.58 e 8.1. Luc. 11.48. Rom. 1.32.
[15] cap. 9.15 e 13.2, 46, 47 e 18.6 e 26.17. Rom. 1.5 e 11.13 e 15.16. Gal. 1.15, 16 e 2.7, 8. Eph. 3.7, 8. I Tim. 2.7. II Tim. 1.11.
[16] cap. 21.36 e 25.24.
[17] cap. 16.37.
23 E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: [1] Varões irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciencia.
2 Porém o summo sacerdote, Ananias, mandou então aos que estavam junto [2] d’elle que o ferissem na bocca.
3 Então Paulo lhe disse: [3] Deus te ferirá, parede branqueada: tu estás _aqui_ assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?
4 E os que ali estavam disseram: Injurias o summo sacerdote de Deus?
5 E Paulo disse: [4] Não sabia, irmãos, que era o summo sacerdote; porque está escripto: Não dirás mal do principe do teu povo.
6 E Paulo, sabendo que uma parte era de sadduceos e outra de phariseos, clamou no conselho: [5] Varões irmãos, eu sou phariseo, filho de phariseo, no tocante á esperança e resurreição dos mortos sou julgado.
7 E, havendo dito isto, houve dissensão entre os phariseos e sadduceos; e a multidão se dividiu.
8 [6] Porque os sadduceos dizem que não ha resurreição, nem anjo, nem espirito; mas os phariseos confessam ambas as coisas.
9 E originou-se _um_ grande clamor; e, levantando-se os escribas da parte dos phariseos, contendiam, [7] dizendo: Nenhum mal achamos n’este homem, e, se algum espirito ou [8] anjo lhe fallou, não resistamos a Deus.
10 E, havendo grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por elles, mandou descer a soldadesca, e arrebatal-o do meio d’elles, e leval-o para a fortaleza.
11 E na noite [9] seguinte, apresentando-se-lhe o Senhor, disse: Paulo, tem animo: porque, como de mim testificaste em Jerusalem, assim te importa testificar tambem em Roma.
_Conspiração dos judeos contra Paulo; este é mandado para Cesarea._
12 E, vindo o dia, [10] alguns dos judeos fizeram uma conspiração, e se conjuraram, dizendo que não comeriam nem beberiam, emquanto não matassem a Paulo.
13 E eram mais de quarenta os que fizeram esta conjuração.
14 Os quaes foram aos principaes dos sacerdotes e aos anciãos, e disseram: [AIF] Conjurámo-nos, sob pena de maldição, que nada provaremos, até que matemos a Paulo.
15 Agora, pois, vós, com o conselho, fazei saber ao tribuno que vol-o traga ámanhã, como que querendo saber mais alguma coisa de seus negocios, e, antes que chegue, estaremos promptos para o matar.
16 E o filho da irmã de Paulo, ouvindo estas ciladas, foi, e entrou na fortaleza, e o annunciou a Paulo.
17 E Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este mancebo ao tribuno, porque tem alguma coisa que lhe communicar.
18 Tomando-o elle, pois, _o_ levou ao tribuno, e disse: O preso Paulo, chamando-me a si, _me_ rogou que te trouxesse este mancebo, que tem alguma coisa que dizer-te.
19 E o tribuno, tomando-_o_ pela mão, e pondo-se á parte perguntou-lhe em particular: Que tens que me denunciar?
20 E disse elle: [11] Os judeos se concertaram rogar-te que ámanhã leves Paulo ao conselho, como que tendo a inquirir d’elle mais alguma coisa ao certo:
21 Porém tu não os creias; porque mais de quarenta homens d’entre elles lhe andam armando ciladas: os quaes se obrigaram, sob pena de maldição, a não comerem nem beberem, até que o tenham morto: e já estão apercebidos, esperando a tua promessa.
22 Então o tribuno despediu o mancebo, mandando-lhe que a ninguem dissesse que lhe havia manifestado aquillo.
23 E, chamando a si dois centuriões, lhes disse: Apromptae para as tres horas da noite duzentos soldados, e setenta de cavallo, e duzentos archeiros para irem até Cesarea;
24 E apparelhae cavalgaduras, para que, pondo n’ellas a Paulo, o levem a salvo ao presidente Felix.
25 Escreveu uma carta, que continha isto:
26 Claudio Lysias, a Felix, potentissimo [AIG] presidente, saude.
27 Esse homem [12] foi preso pelos judeos; e, estando _já_ a ponto de ser morto por elles, sobrevim eu com a soldadesca, e _lh’o_ tomei, informado de que era romano.
28 E, querendo saber [13] a causa por que o accusavam, o levei ao seu conselho.
29 E achei que o accusavam de _algumas_ questões [14] da sua lei: mas que nenhum crime havia n’elle digno de morte ou de prisão.
30 E, sendo-me [15] notificado que os judeos haviam _de armar_ ciladas a esse homem, logo t’o enviei, mandando tambem aos accusadores que perante ti digam o que tiverem contra elle. Passa bem.
31 Tomando pois os soldados a Paulo, como lhe fôra mandado, _o_ trouxeram de noite a Antipatris.
32 E no dia seguinte, deixando aos de cavallo irem com elle, tornaram á fortaleza.
33 Os quaes, logo que chegaram a Cesarea, e entregaram a carta ao presidente, lhe apresentaram Paulo.
34 E o presidente, lida _a carta_, perguntou de que provincia era; e, entendendo [16] que da Cilicia,
35 Ouvir-te-hei, disse, [17] quando tambem aqui vierem os teus accusadores. E mandou que o guardassem [18] no pretorio de Herodes.
[1] cap. 24.16. I Cor. 4.4. II Cor. 1.12 e 4.2. II Tim. 1.3. Heb. 13.18.
[2] I Reis 22.24. Jer. 20.2. João 18.22.
[3] Lev. 19.35. Deu. 25.1, 2. João 7.51.
[4] cap. 24.17. Exo. 22.28. Ecc. 10.20. II Ped. 2.10. Jud. 8.
[5] cap. 26.5 e 24.15, 21 e 26.6 e 28.20. Phi. 3.5.
[6] Mat. 22.23. Mar. 12.18. Luc. 20.27.
[7] cap. 25.25 e 26.31 e 22.7, 17, 18.
[8] cap. 5.39.
[9] cap. 18.9 e 27.23, 24.
[10] ver. 21, 30. cap. 25.3.
[11] ver. 12.
[12] cap. 21.33 e 24.7.
[13] cap. 22.30.
[14] cap. 18.15 e 25.19 e 26.31.
[15] ver. 20. cap. 24.8 e 25.6.
[16] cap. 21.39.
[17] cap. 24.1, 10 e 25.16.
[18] Mat. 27.27.
_Paulo perante o tribunal do governador Felix._
24 E cinco dias depois o summo sacerdote [1] Ananias desceu com os anciãos, e um certo Tertullo, orador, os quaes compareceram perante o presidente contra Paulo.
2 E, sendo citado, Tertullo começou a accusal-_o_, dizendo:
3 Que por ti tenhamos tanta paz e que, por tua prudencia, a este povo se façam muitos e louvaveis serviços, sempre e em todo o logar, ó potentissimo Felix, com todo o agradecimento o reconhecemos.
4 Porém, para que te não detenha muito, rogo-te que brevemente, conforme a tua equidade, nos ouças:
5 Porque temos [2] achado que este homem é uma peste, e levantador de sedições entre todos os judeos, por todo o mundo; e o principal defensor da seita dos nazarenos;
6 O qual [3] intentou tambem profanar o templo: ao qual tambem prendemos, e conforme a nossa lei o [4] quizemos julgar.
7 Porém, sobrevindo [5] o tribuno Lysias, nol-o tirou d’entre as mãos com grande violencia:
8 Mandando aos seus [6] accusadores que viessem a ti: do qual tu mesmo, examinando-o, poderás entender tudo o de que o accusamos.
9 E tambem os judeos consentiram, dizendo serem estas coisas assim.
10 Porém Paulo, fazendo-lhe o presidente signal que fallasse, respondeu: Porque sei que já vae para muitos annos que d’esta nação és juiz, com tanto melhor animo respondo por mim.
11 Pois bem podes entender que não ha mais de doze dias que subi [7] a Jerusalem a adorar;
12 E não me acharam no templo fallando com alguem, [8] nem amotinando o povo nas synagogas, nem na cidade.
13 Nem tão pouco podem provar as _coisas_ de que agora me accusam.
14 Porém confesso-te isto: que, conforme aquelle caminho que chamam seita, [9] assim sirvo ao Deus de nossos paes, [10] crendo tudo quanto está escripto na lei e nos prophetas.
15 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos tambem, esperam, de que ha de haver resurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.
16 E por isso procuro sempre ter uma [11] consciencia sem offensa, tanto para com Deus como _para com_ os homens.
17 Porém, muitos annos depois, vim trazer á minha nação esmolas [12] e offertas.
18 N’isto me [13] acharam _já_ sanctificado no templo, não com gente, nem com alvoroços, [14] uns certos judeos da Asia,
19 Os quaes convinha que estivessem presentes perante ti, e _me_ accusassem, se alguma coisa contra mim tivessem.
20 Ou digam estes mesmos, se acharam em mim alguma iniquidade, quando compareci perante o conselho.
21 Senão só estas palavras, que estando entre elles, clamei: [15] Hoje sou julgado por vós ácerca da resurreição dos mortos.
22 Então Felix, havendo ouvido estas _coisas_, lhes poz dilação, dizendo: Havendo-me informado melhor d’este caminho, quando o tribuno [16] Lysias tiver descido, _então_ tomarei inteiro conhecimento dos vossos negocios.
23 E mandou ao centurião que guardassem a Paulo, e estivesse com _alguma_ liberdade, [17] e que a ninguem dos seus prohibisse servil-o ou vir ter com elle.
24 E alguns dias depois, vindo Felix com sua mulher Drusilla, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o ácerca da fé em Christo.
25 E, tratando elle da justiça, e da temperança, e do juizo vindouro, Felix, espavorido, respondeu: Por agora vae-te, e em tendo opportunidade te chamarei.
26 Esperando tambem juntamente que Paulo lhe désse [18] dinheiro, para que o soltasse; pelo que tambem muitas vezes o mandava chamar, e fallava com elle.
27 Porém, cumpridos dois annos, Felix teve por successor a Porcio Festo; e, querendo Felix comprazer [19] aos judeos, deixou a Paulo preso.
[1] cap. 21.27 e 23.2, 30, 35 e 25.2.
[2] Luc. 23.2. cap. 6.13 e 16.20 e 17.6 e 21.28. I Ped. 2.12, 15.
[3] cap. 21.28.
[4] João 18.31.
[5] cap. 21.33.
[6] cap. 23.30.
[7] ver. 17. cap. 21.26.
[8] cap. 25.8 e 28.17.
[9] Amós 8.14. cap. 9.2 e 26.22 e 28.23. II Tim. 1.3.
[10] cap. 23.6 e 26.6, 7 e 28.20. Dan. 12.2. João 5.28, 29.
[11] cap. 23.1.
[12] cap. 11.29, 30 e 20.16. Rom. 15.25. II Cor. 8.4. Gal. 2.10.
[13] cap. 21.26, 27 e 26.21.
[14] cap. 23.30 e 25.16.
[15] cap. 23.6 e 28.20.
[16] ver. 7.
[17] cap. 27.3 e 28.16.
[18] Exo. 23.8.
[19] Exo. 23.2. cap. 12.3 e 25.9, 4.
_Paulo comparece perante Festo e appella para Cesar._
[Anno Domini 62]
25 Entrando pois Festo na provincia, subiu d’ali a tres dias de Cesarea a Jerusalem.
2 E o summo sacerdote e [1] os principaes dos judeos compareceram perante elle contra Paulo, e lhe rogaram,
3 Pedindo favor contra elle, para que o fizesse vir a Jerusalem, [2] armando-_lhe_ ciladas para o matarem no caminho.
4 Porém Festo respondeu que Paulo estava guardado em Cesarea, e que elle brevemente partiria _para lá_.
5 Os que pois, disse, d’entre vós podem, desçam juntamente [3] _comigo_, e, se n’este varão houver algum crime, accusem-n’o.
6 E, não se havendo entre elles detido mais de dez dias, desceu a Cesarea; e no dia seguinte, assentando-se no tribunal, mandou que trouxessem Paulo.
7 E, chegando elle, o rodeiaram os judeos que haviam descido de Jerusalem, [4] trazendo contra Paulo muitas e graves accusações, que não podiam provar.
8 Pelo que, em _sua_ defeza, disse: Eu não pequei em coisa alguma [5] contra a lei dos judeos, nem contra o templo, nem contra Cesar.
9 Porém Festo, [6] querendo comprazer com os judeos, respondendo a Paulo, disse: Queres tu subir a Jerusalem, e ser lá perante mim julgado ácerca d’estas _coisas_?
10 E Paulo disse: Estou perante o tribunal de Cesar, onde convem que seja julgado; não fiz aggravo algum aos judeos, como tu muito bem sabes;
11 Porque, se fiz [7] algum aggravo, ou commetti alguma _coisa_ digna de morte, não recuso morrer; porém, se nada ha das _coisas_ de que estes me accusam, ninguem me pode entregar a elles; [8] appello para Cesar.
12 Então Festo, tendo fallado com o conselho, respondeu: Appellaste para Cesar? para Cesar irás.
13 E, passados alguns dias, o rei Agrippa e Berenice vieram a Cesarea, a saudar Festo.
14 E, como ali se detiveram muitos dias, Festo contou ao rei os negocios de Paulo, [9] dizendo: Um _certo_ varão foi deixado por Felix _aqui_ preso,
15 Por cujo [10] respeito os principaes dos sacerdotes e os anciãos dos judeos, estando eu em Jerusalem, compareceram _perante mim_, pedindo sentença contra elle.
16 Aos quaes respondi [11] não ser costume dos romanos entregar algum homem á morte, sem que o accusado tenha presentes os seus accusadores, e tenha logar de defender-se da accusação.
17 De sorte que, chegando elles aqui juntos, no dia seguinte, sem fazer dilação [12] alguma, assentado no tribunal, mandei trazer o homem.
_Paulo perante o rei Agrippa._
18 Ácerca do qual, estando presentes os accusadores, nenhuma _coisa_ apontaram d’aquellas que eu suspeitava.
19 Tinham, porém, contra elle algumas questões [13] ácerca da sua superstição, e de um _certo_ Jesus, defunto, que Paulo affirmava viver.
20 E, estando eu perplexo ácerca da inquirição d’esta causa, disse se queria ir a Jerusalem, e lá ser julgado ácerca d’estas _coisas_.
21 E, appellando Paulo para ser reservado ao conhecimento de Augusto, mandei que o guardassem até que o enviasse a Cesar.
22 Então [14] Agrippa disse a Festo: Bem quizera eu tambem ouvir esse homem. E elle disse: Ámanhã o ouvirás.
23 De sorte que, no dia seguinte, vindo Agrippa e Berenice, com muito apparato, e entrando no auditorio com os tribunos e varões principaes da cidade, trouxeram a Paulo por mandado de Festo.
24 E Festo disse: Rei Agrippa, e todos os varões que estaes presentes comnosco: aqui vêdes aquelle de quem toda [15] a multidão dos judeos me tem fallado, tanto em Jerusalem como aqui, clamando que não convém que viva mais.
25 Porém, achando eu que nenhuma _coisa_ [16] digna de morte fizera, e appellando elle mesmo tambem para Augusto, tenho determinado enviar-lh’o.
26 Do qual não tenho _coisa_ alguma certa que escreva ao meu senhor, pelo que perante vós o trouxe, e mórmente perante ti, ó rei Agrippa, para que, feita informação, tenha alguma coisa que escrever.
27 Porque me parece contra a razão enviar um preso, e não notificar contra elle as accusações.
[1] cap. 24.1. ver. 15.
[2] cap. 23.12, 15.
[3] cap. 18.14. ver. 18.
[4] Mar. 15.3. Luc. 23.2, 10. cap. 24.5, 13.
[5] cap. 6.13 e 24.12 e 28.17.
[6] cap. 24.27. ver. 20.
[7] ver. 25. cap. 18.14 e 23.29 e 26.31.
[8] cap. 26.32 e 28.19.
[9] cap. 24.27.
[10] ver. 2, 3.
[11] ver. 4, 5.
[12] ver. 6.
[13] cap. 18.15 e 23.29.
[14] cap. 9.15.
[15] ver. 2, 3, 7. cap. 22.22.
[16] cap. 23.9, 29 e 26.31. ver. 11, 12.
26 Depois Agrippa disse a Paulo: Permitte-se-te fallar por ti mesmo. Então Paulo, estendendo a mão em sua defeza, respondeu:
2 Tenho-me por venturoso, ó rei Agrippa, de que perante ti me haja hoje de defender de todas as _coisas_ de que sou accusado pelos judeos;
3 Mórmente _sabendo eu_ que tens noticia de todos os costumes e questões que ha entre os judeos; pelo que te rogo que me ouças com paciencia.
4 A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o principio, em Jerusalem, entre os da minha nação, todos os judeos sabem:
5 Tendo conhecimento de mim desde o principio (se o quizerem testificar), como, conforme a mais [1] severa seita da nossa religião, vivi phariseo.
6 E agora pela esperança [2] da promessa que por Deus foi feita a nossos paes estou _aqui_ e sou julgado.
7 Á qual as nossas doze tribus esperam [3] chegar, servindo _a Deus_ continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agrippa, eu sou accusado pelos judeos.
8 _Pois_ que? julga-se _coisa_ incrivel entre vós que Deus resuscite os mortos?
9 Bem [4] tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus nazareno devia eu praticar muitos actos:
10 O que tambem fiz em Jerusalem. [5] E, havendo recebido poder dos principaes dos sacerdotes, encerrei muitos dos sanctos nas prisões; e quando os matavam eu dava o meu voto.
11 E, castigando-os muitas vezes por todas as synagogas, [6] os forcei a blasphemar. E, enfurecido demasiadamente contra elles, até nas cidades estranhas os persegui.
12 Ao que indo então a Damasco, [7] com poder e commissão dos principaes dos sacerdotes,
13 Ao meio dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, a qual me rodeiou a mim e aos que iam comigo, com sua claridade.
14 E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me fallava, e em lingua hebraica dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues? Dura _coisa_ te _é_ recalcitrar contra os aguilhões.
15 E disse eu: Quem és, Senhor? E elle respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;
16 Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te appareci para isto; para te pôr por ministro [8] e testemunha tanto das _coisas_ que tens visto como d’aquellas pelas quaes te apparecerei:
17 Livrando-te d’este povo, [9] e _dos_ gentios, a quem agora te envio,
18 Para lhes abrires os olhos, e das trevas _os_ converteres á luz, [10] e _do_ poder de Satanaz a Deus; para que recebam a remissão dos peccados, e sorte entre os sanctificados pela fé em mim.
19 Pelo que, ó rei Agrippa, não fui desobediente á visão celestial.
20 Antes annunciei [11] primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalem, e por toda a terra da Judea, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras [12] dignas de arrependimento.
21 Por causa d’isto os judeos lançaram [13] mão de mim no templo, e procuraram matar-_me_.
22 Porém, alcançando [14] soccorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço, testificando tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os prophetas e Moysés disseram que devia acontecer,
23 _Isto é_, que o Christo [15] devia padecer, e, sendo o primeiro da resurreição dos mortos, devia annunciar a luz a este povo e aos gentios.
24 E, dizendo elle isto em _sua_ defeza, disse Festo em alta voz: [16] Deliras, Paulo: as muitas lettras te fazem delirar.
25 Porém elle disse: Não deliro ó potentissimo Festo; antes fallo palavras de verdade e de um são juizo.
26 Porque o rei, diante de quem fallo com ousadia, sabe estas _coisas_, pois não creio que nada d’isto se lhe occulte; porque isto não se fez em qualquer canto.
27 Crês tu nos prophetas, ó rei Agrippa? Bem sei que crês.
28 E disse Agrippa a Paulo: Por pouco não me persuades a que me faça christão.
29 E disse Paulo: [17] Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não sómente tu, mas tambem todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem taes qual eu sou, excepto estas cadeias.
30 E, dizendo elle isto, se levantou o rei, e o presidente, e Berenice, e os que com elles estavam assentados.
31 E, apartando-se a uma banda, fallavam uns com os outros, dizendo: Este homem nada fez digno [18] de morte ou de prisões.
32 E Agrippa disse a Festo: Bem podia soltar-se [19] este homem, se não houvera appellado para Cesar.
[1] cap. 22.3 e 23.6 e 24.15, 21. Phi. 3.5.
[2] cap. 23.6. Gen. 3.15 e 49.10. Deu. 18.15. Isa. 4.2 e 7.14 e 40.10. Eze. 34.23. Dan. 9.24. Tito 2.13.
[3] Thi. 1.1. Luc. 2.37. I Tim. 5.5. Phi. 3.11.
[4] João 16.2. I Tim. 1.13.
[5] cap. 8.3. Gal. 1.13.
[6] cap. 22.19.
[7] cap. 9.3 e 22.6.
[8] cap. 22.15.
[9] cap. 22.21.
[10] Isa. 35.5 e 42.7. Eph. 1.18. Luc. 1.79. II Cor. 6.14. I The. 5.5. I Ped. 2.9, 25. Col. 1.12.
[11] cap. 9.20, 22, 29 e 11.26.
[12] Mat. 3.8.
[13] cap. 21.30, 31.
[14] Luc. 24.27, 44. cap. 24.14 e 28.23. Rom. 3.21. João 5.46.
[15] Luc. 24.26, 46. I Cor. 15.20. Col. 1.18. Apo. 1.5. Luc. 2.32.
[16] II Reis 9.11. João 10.20. I Cor. 1.23 e 2.13, 14 e 4.10.
[17] I Cor. 7.7.
[18] cap. 23.9, 29 e 25.25.
[19] cap. 25.11.
_Paulo é mandado para Italia; o naufragio do navio._
27 E, como se determinou [1] que haviamos de navegar para a Italia, entregaram Paulo, e alguns outros presos, a um centurião por nome Julio, da cohorte augusta.
2 E, embarcando nós em um navio adramytino, partimos navegando pelos logares da Asia, estando comnosco [2] Aristarcho, macedonio, de Thessalonica.
3 E chegámos no _dia_ seguinte a Sidon, e Julio, tratando [3] Paulo humanamente, _lhe_ permittiu ir ver os amigos, para que cuidassem d’elle.
4 E, partindo d’ali, fomos navegando abaixo de Chypre, porquanto os ventos eram contrarios.