A architectura religiosa na Edade Média
Part 9
O Estylo Romanico terciario--o de transição--apresenta os mesmos caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo anterior, o _arco em ogiva_, produz logicamente importantes modificações na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda descobrir.
O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda, demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva seria um indiscutivel absurdo.
No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que nos cumpre investigar como inducção interessante.
É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é, davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos, elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim, ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos d'este livro.
Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema de molduras substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal, precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.
Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.
Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no ultimo periodo do Estylo Romanico: os _vitraes_, as vidraças coloridas das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados, tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns exemplares.
Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas considerações.
Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas, que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi adivinhando-a pela simples observação do enfermo.
Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição, principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.
Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de caracter romanico.
Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.
CAPITULO TERCEIRO
A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO
Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.
Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo Romanico, mais ou menos puro.
Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos, dois, a Sé de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas assás barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha de Coimbra, teve nos ultimos annos conscienciosa restauração, que a repoz quanto foi possivel no estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de Lisboa e n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas tão profunda é a ruina d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor se deverá chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples e economica restauração.
Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico ácerca da Sé Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de dimensões ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos de reconstrucção e de restauração, visto que representa a primeira egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e é a cathedral de uma importante cidade da Europa.
Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia historica, têem-se succedido muitas invasões de povos de differentes raças e religiões. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos, occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É evidente que n'esta longa serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condições diversas. Foi pagã e polytheista com os romanos, christã ariana com os visigodos, professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando assumiu a posição de metropole do pequeno reino de Portugal.
Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma cidade importante. Os romanos não eram navegadores e o seu commercio, quasi exclusivamente terrestre e oriental, não podia valorisar o excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam nações rudes ainda, essencialmente guerreiras, embora já penetradas pela civilisação romana e pelos ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente, abandonando as regiões mais occidentaes da peninsula iberica a raças e tribus mais guerreiras e illetradas.
Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona de Portugal, que foi habitada por esta raça, emquanto a Andaluzia está cheia de ricas construcções do Estylo do Khalifado, algumas ainda assás completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisação dos arabes, que povoaram aquella parte da Hespanha.
A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe foi sempre secundaria. A sua transformação profunda em verdadeiro emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da Humanidade: a irradiação, para outros pontos do globo, da civilisação dos povos e das nações, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo, onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do seculo XVI.
Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre tão pobre de monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situação na zona dos terremotos não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de longos seculos penosamente accumulou na sua antiga área.
Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa, romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje não restam os menores vestigios, a não ser em vagas tradições, colhidas em antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria sido edificada nas proximidades, se não no proprio local, de um templo classico, substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradição é mais do que plausivel, se attendermos á tendencia das religiões victoriosas em se apossarem dos templos das religiões vencidas, facto de que existem numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas nações. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religiões nos referimos n'outro capitulo d'este livro.
A tradição, que affiança haver sido a actual Sé uma antiga mesquita arabe, é evidentemente absurda. Não só o estylo do templo é accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos curtos periodos, durante os quaes os christãos occuparam Lisboa depois da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construcções e ornamentos especiaes, de que não se encontram os menores vestigios.
Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa levantado no local de uma mesquita arabe?
Esta tradição parece-nos muito fundada; não suppomos, todavia, que a construcção arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de Lisboa não deviam soffrer comparação com as de Toledo, Cordova, Granada e Sevilha, centros da civilisação arabe. A Cathedral de Sevilha, por exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se conservam ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso pateo, que precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.
Seja qual fôr o valor d'estas presumpções, a melhor opinião, fundada em argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos arabes, em outubro de 1147.
Devia ser rapida a construcção. A simplicidade architectonica e a pobreza de ornamentação, que manifesta a parte primitiva do edificio, não exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a propria construcção foi muito cuidada quer na escolha, quer na disposição dos materiaes. Forçoso é confessal-o, embora destôe um pouco dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da Sé de Lisboa é de acanhadas proporções, de muito pobre estylo e de construcção bastante ordinaria.
Sendo muito provavel que as obras começassem logo após a conquista, não é facil determinar a respectiva duração. O conego Vieira da Silva, em memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigações proprias, que a primeira constituição do Cabido da Sé de Lisboa data do anno de 1150.
Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos achar-se-ia já muito adeantado e proximo do seu fim?
Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria grande difficuldade elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em attenção que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras muito proximas das respectivas obras.
Uma observação interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva da Sé Patriarchal.
Depois da sua fundação, o primitivo edificio soffreu muitas reconstrucções, restaurações e alargamentos, dos quaes alguns motivados pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de construcção, que por estas razões se praticaram, seriam inacreditaveis, se grande parte d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor d'este livro e algumas não existissem ainda, attestando o mau gosto, a ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradições, que ás vezes caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos até aos nossos dias.
Seguindo a planta da Sé no seu estado actual, isto é, na data em que escrevemos este livro, é fácil formar clara idéa do plano primitivo da velha egreja de D. Affonso Henriques e das principaes transformações, que ella soffreu durante sete seculos e meio; por isso, chamamos a attenção do leitor para a respectiva planta, observando-lhe que os seus differentes tons correspondem a periodos distinctos da construcção.
A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor periodo--o secundario--que em geral floresceu no occidente e no centro da Europa no seculo XI. Quando se levantava a Sé de Lisboa, em meiados do seculo XII, já o Estylo Romanico em geral attingira o periodo terciario, preparando a transição para o Estylo Ogival. Este relativo atrazo não deve, comtudo, causar surpreza; póde considerar-se quasi regra geral na evolução da arte portuguesa em relação á das restantes nações centraes da Europa.
Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram ridiculamente de Estylo Classico, e das reconstrucções ogivaes posteriores, não encontrámos durante o estudo minucioso, que temos feito d'esta construcção, um só elemento, que possa contrariar a sua classificação no Estylo Romanico secundario.
A planta primitiva era elegante. A nave central, o transepto e capella-mór formavam uma cruz latina. As naves lateraes avançavam, envolvendo a capella mór, isto é, formavam _deambulatorio_, ou _charola_. Não é muito frequente esta disposição no Estylo Romanico secundario; mas, evidentemente, a disposição da planta exige-a como condição indispensavel e de elegancia. Alem d'isso, se não é possivel demonstrar directamente a existencia da charola romanica na Sé de Lisboa, na egreja de Alcobaça, sua coéva, a existencia prova-se pelas fortes columnas e arcadas da capella-mór, que abriam, sem a menor duvida, para uma primitiva charola romanica. Não nos parece nada provavel que a charola romanica da Sé tivesse capellas; como não as tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaça. N'uma e n'outra egreja, estas capellas provéem de restaurações ou reconstrucções ogivaes.
[Figura: Planta da SÉ DE LISBOA--Estado actual]
Occupando os espaços onde hoje estão as capellas do Santissimo e a de S. Vicente, que abrem para os dois extremos do transepto, existiam provavelmente a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia a planta da Sé primitiva, porque o claustro e todos os edificios annexos são de construcção posterior. Escusado será observar que a supposição da existencia de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro grosseiro de tomar certos edificios annexos, de que falaremos mais tarde, por naves extremas, hypothese que a simples inspecção da planta não admittiria com a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada lateral-norte não fosse indiscutivel prova de que a egreja nunca teve mais de tres naves.
A fachada primitiva era formada, como a actual, por duas torres quadradas, massiças e revestidas de fortes botareos. Entre estas torres corria a parte da fachada, correspondente ao côro. A disposição das linhas geraes não foi, pois, alterada pelas restaurações, que aliás estragaram o estylo; com effeito, as torres foram, sem duvida, coroadas de agulhas e as horriveis janelas quadradas n'ellas abertas substituiram, não se póde bem avaliar por que razões, as bellas janelas geminadas romanicas, que ultimamente foram restauradas na torre-norte. As agulhas ou corucheus primitivos, em nossa opinião, não tiveram a detestavel fórma, com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum terramoto--talvez o de 1384--foram restauradas sob a fórma de elevadas torres quadradas, de muito menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas por telhados vulgares de quatro aguas!
A parte central da fachada, comprehendida entre as duas torres, tambem não podia ser em nada parecida com a existente. A rosacea devia existir, bem como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja; mas toda esta parte actual é de construcção posterior e do frio e decadente Estylo da Renascença, no seu peor periodo.
Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada, a mesquinha rosacea e o bruto e feio arco do vestibulo á grande restauração, depois do terramoto de 1755; é um erro. Uma gravura franceza do tempo, mostrando o estado das ruinas da egreja depois do terramoto, prova que tudo isto existia antes d'esta catastrophe. Assim, nós suppomos, com o maior fundamento, que todos estes absurdos elementos, bem como o ridiculo coroamento das torres são obras coévas da sacristia, encostada á fachada lateral-sul da primitiva egreja, datando tudo dos começos do seculo XVIII, talvez do reinado de D. João V.
[Figura: Ruinas da SÉ de LISBOA--Terramoto de 1755]
Alem d'isso, as torres soffreram restaurações em differentes epocas; a do norte no periodo ogival e depois na renascença manuelina; a do sul foi quasi toda reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas em sineiras, fim que primitivamente não tiveram, porque os sinos occupavam uma elevada torre, construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo terremoto de 1755.
Fundados n'estes raciocinios, elaborámos o projeto de restauração da fachada, que melhor nos parece traduzir a physionomia especial do Estylo Romanico da velha egreja. Embora essa fachada não seja grandiosa em dimensões e rica em ornamentação, julgamos traduzir a severa solemnidade do estylo e o aspecto de força, que nunca perderam as grandes e massiças torres da Sé, apesar de torturadas por absurdas restaurações e coroadas por platibandas ridiculas, repousando sobre cornijas classicas.
O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva planta, esclarecendo-a com algumas observações, colhidas em investigações directas e sondagens feitas no actual edificio.
A nave central, a capella mór e o transepto, offerecendo quasi a mesma largura, eram cobertas por abobada de volta inteira, nascendo a egual altura; nos quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre quadrada no exterior, que se elevava muito para cima d'estas abobadas. No interior da egreja esta torre tomava a fórma de um octogono regular, firmando-se em pendentes as paredes, correspondendo aos angulos biselados do quadrado exterior. Em cada uma das faces d'este octogono, rasgava-se uma janela muito alta e estreita, que illuminava a cupula coberta por abobada, gerada pela intersecção de quatro semi-cylindros, lançados entre as faces oppostas do prisma octogonal, isto é, por uma abobada de oito arestas.