A architectura religiosa na Edade Média

Part 7

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Quando no anno de 814 da era de Christo morreu Carlos Magno, o seu vasto Imperio, abrangendo a França, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a Hespanha até ao Ebro e a Italia quasi toda até ao Volturno, entrou em dissolução, tendo o destino fatal de todas as tentativas de restauração do antigo poder romano.

A unidade apparente, que reinava entre raças e nações differentes, proviera do prestigio pessoal de Carlos Magno, do seu talento administrativo, da bondade do seu caracter, em summa da elevação intellectual e moral de um homem, que imprimiu ao movimento do espirito humano, tão abatido n'aquelles tempos, um vigoroso impulso, afrouxado nos seculos seguintes, mas, ainda assim, não perdido para a Humanidade.

As antigas e inuteis discussões byzantinas tomaram, com effeito, novo caracter especial, constituindo a philosophia da Edade-Media, a Escholastica, que na realidade nasceu nas academias e nas escolas, creadas por Carlos Magno. Este movimento intellectual é interessantissimo, principalmente nas duas primitivas phases: a primeira sob a influencia do idealismo de Platão, subordinando a philosophia, isto é, a sciencia, á theologia; a segunda, sob a acção do realismo de Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham a par.

O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais activa entre _realistas_ e _nominalistas_, entre as influencias de Aristoteles e de Platão, lucta formidavel, nem sempre incruenta porque teve perseguidoras e martyres, sendo uma das origens da reforma religiosa do seculo XVI e do movimento philosophico e positivo das sciencias nos seculos seguintes.

O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo curto e brilhante depois d'esse espaço obscuro e terrivel das invasões, em que tantos povos de origem differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo mundo romano.

Sob a acção poderosa de Carlos Magno, a unidade administrativa do Imperio podia considerar-se completa. Os delegados do poder central, duques, condes, vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome do imperador, em quem residia o poder supremo indiscutivel e respeitado. Já no tempo de Carlos Magno, comtudo, o espirito de rebellião lavrava entre estes funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente, altivo e ambicioso do poder, os levava a pensar na hereditariedade dos cargos e na permanencia das funcções. O prestigio pessoal do imperador contrariára-lhes os designios, que tomaram vulto e animo depois da sua morte. Estas tendencias definem a origem e são a causa da organisação do _feudalismo_, constituido no seculo XIII, em que tambem se manifesta o primeiro periodo do Estylo Ogival.

Os filhos e netos de Carlos Magno não lhe haviam herdado nem o prestigio nem as qualidades pessoal. Tibios e ambiciosos, em continuas guerras, enfraqueciam-se mutuamente, deixando engrossar a idéa de independencia, que sempre germinára entre os delegados imperiaes. Assim, o fraco Carlos-o-Calvo, rei de França, reconheceu aos senhores, que o eram já de facto, o direito da hereditariedade e certa independencia, na _Capitularia_ de 877, anno da sua morte, que define historicamente o começo do feudalismo.

Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores, constituidas principalmente pelos vencidos e pelos pobres e trabalhadores, lavrava tambem o espirito da liberdade, animado pelo Christianismo e pelas tradições das antigas instituições romanas. A Republica excitára sempre a vida local. O Imperio, depois, restringira-a successivamente; conservando-lhe, apenas, as funcções indispensaveis para facilitar o exercicio do poder central. Esta acção, a decadencia dos costumes dos cidadãos dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes dos municipios romanos, fizeram decaír as _curias_ da sua primitiva grandeza.

É sabido que nos ultimos tempos do Imperio as funcções municipaes, consideradas de perigo e onerosas, não eram disputadas, como outr'ora; para obter os _curiales_, os imperadores viram-se forçados a obrigar os cidadãos a desempenharem estes cargos, com penas e multas correspondentes. O espirito communal, todavia, não se extinguira de todo nem com a depravação dos costumes romanos, nem com a conquista dos barbaros. No sul da França, por exemplo, mais livre das invasões, os antigos municipios romanos haviam-se conservado com maior ou menor pureza.

Além d'isso, a tradição d'estas instituições locaes mantinha-se, e os seus principios existiam vivos, com o brilho das legislações theoricas, no antigo direito romano. É muito provavel, tambem, que o espirito de fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas, como as dos artifices e dos operarios, tivesse atravessado o longo collapso do V ao X seculo. Pelo menos parece serem d'isto exemplo as associações _franco-maçonicas constructoras_, que tanta influencia tiveram na arte ogival e, a nosso ver, se não se filiam nas similares romanas, pelo menos derivam d'ellas, como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este livro.

Seja como for, julgamos que os dois principios, o _feudalismo_, nascido do espirito barbaro, e o movimento das _communas_, insufflado pelo espirito christão, sem duvida os agentes principaes da civilisação dos seculos XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de evolução entre o Imperio de Carlos Magno e os começos do seculo XI, no qual na realidade começa a _Renascença,_ que se operou durante um longo periodo, com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo sob o aspecto da arte.

De facto, a Edade-Media parece dividida em dois periodos distinctos: o primeiro do seculo V ao seculo X, o das terriveis luctas entre os tres principios, o classico, o christão e o barbaro; o segundo periodo do seculo XI ao seculo XV, o da lenta combinação e fusão d'estes principios. No seculo V, a luz já quasi crepuscular do grandioso mundo classico perde-se na noute, longa e tempestuosa noute d'alguns seculos. A pallida aurora do mundo moderno começa a despontar a partir do seculo XI.

Estes dois periodos são definidos por um facto historico interessante e de alguma importancia. O espirito mystico do Christianismo e as profundas miserias, soffridas pelo mundo romano logo após a victoria d'esta religião, geraram a lenda do _millenio_ periodo de mil annos durante o qual a humanidade dos vivos e os martyres e adeptos do Christianismo resuscitados gosariam, sob o proprio reinado de Jesus Christo, todas as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O principio d'estes seculos de Justiça implicava logicamente o fim de um mundo cheio de dores e flagellos, que assim foi prefixado para o ultimo dia do seculo X.

A superstição teve sempre grande presa sobre os espiritos ignorantes e fracos; julgue-se, pois, da influencia na Edade-Media d'esta prophecia, fundada em textos sagrados, tendo uma longa tradição e admittida por homens superiores, até por alguns papas. Nos fins do seculo X, a approximação d'este dia tremendo amortecera todas as expansões da actividade humana. Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir, construir, fazer esforços, quando estava prestes o fim d'este mundo e o principio d'aquelle em que todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre a terra a justiça e a felicidade sob o sceptro do proprio Christo?!

Por isso, a historia descreve o collapso profundo e crescente, que se apoderou do mundo christão, quando se avisinhava esse dia de Juizo, tão admiravelmente traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um dos mais bellos canticos da egreja:

Dies irae, dies ille Solvent seculum in faville.

N'esse dia um panico profundo envolveu todos os espiritos. As egrejas encheram-se de fieis, que esperavam a catastrophe entre prantos e rezas; ora, por uma doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do seculo XI raiou esplendida.

Para apreciar bem a importancia d'este facto, que hoje parece pueril, é preciso transportarmo-nos aos primitivos tempos da Edade-Media, avaliarmos a ignorancia extrema de todas as classes sociaes, com rarissimas excepções e essas escondidas principalmente nos conventos; apreciarmos, emfim, o espirito publico n'um tempo em que primava a idéa religiosa, não tendo outros competidores.

A passagem do perigo imminente alliviou a alma humana, dando-lhe expansão ás faculdades creadoras e activando-lhe o exercicio do trabalho. Assim, o segundo periodo da Edade-Media é bem differente do primeiro.

No seculo XI, a sociedade christã entrou n'uma evolução accentuada. O feudalismo achava-se quasi constituido. Esta nova organisação social espalhou-se pela superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra, toda dividida em _feudos_, pertencia aos suzeranos; mas os _senhores_ tinham n'esses feudos quasi absolutos direitos de soberania, absorvidos a pouco e pouco aos reis, agora confinados em pequenos Estados propriamente seus.

Em compensação, estes suzeranos recebiam dos feudatarios o respeito pessoal e a defeza da sua honra, auxilios prefixados em homens equipados a cargo dos mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do suzerano, que ás vezes tambem conservava o direito de justiça, funcção em geral independente dos senhores feudatarios. Esta organisação politica era, na realidade, uma federação de pequenos Estados, tendo um soberano ou imperador mais ou menos nominal.

O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem dentro dos seus Estados novos feudos, disseminava as baronias e originava uma hierarchia de suzeranos secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes na sua diocese e suzeranos nos seus Estados. As grandes doações, feitas á egreja, haviam multiplicado o numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram a possuir em França e Inglaterra o quinto das terras, e o terço na Allemanha.

N'esta organisação autonoma e guerreira sente-se claramente o espirito dos barbaros, que seculos antes haviam destruido o Imperio Romano. As violencias e as luctas intestinas entre estes senhores eram constantes e traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido; o amor pelas aventuras e o desejo ardente do poder arremessavam-n'os uns sobre os outros, impondo-se reciprocamente pelo direito da força n'uma sociedade, onde eram mal reconhecidos pelos fortes e poderosos os principios do direito e os dictames da justiça. Assim, a egreja, em nome da religião, unica influencia energica sobre aquellas almas de bronze em corpos vestidos de ferro, procurou intervir, definindo com modestos resultados a _trégua de Deus_, a prohibição da lucta em certos dias da semana.

Estas poderosas unidades guerreiras repousavam, como era logico, sobre a servidão das classes civis, principalmente das mais numerosas e pobres. Em verdade, o Christianismo tinha adoçado o caracter duro e barbaro da escravidão classica. No regimen feudal, a classe dos miseraveis, os _servos de gleba_, que em torno dos castellos agricultavam a terra e eram herdados como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros instrumentos de trabalho, tinha subido um pouco na escala da escravatura, cujos pontos culminantes se desenham no mundo classico e depois no moderno, quando se desenvolveu o infame trafico das raças de côr, consideradas inferiores ás brancas. O feudalismo, repassado pela religião christã, olhava-os como homens, sem direitos politicos e civis é certo; mas estava longe, muito longe ainda, de os considerar, como o _antigo regimen_, o das monarchias absolutas fundadas no Catholicismo, o fez depois, uma multidão de miseraveis, sem garantias, sem direitos e quasi sem familia, que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram massa _taillable, et corvéable à merci_.

Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo menos a grande maioria do povo--digamos a palavra--gozava de certas vantagens, que provinham dos dois espiritos em acção parallela: o germanico e o christão. A familia offerecia uma expressão mais elevada e perfeita. Na antiguidade o casamento era um contracto, na Edade-Media um sacramento, que ligava por toda a vida. O Christianismo consolidára a pedra angular das sociedades com a indissolubilidade do matrimonio. Depois, Jesus Christo encarnára-se no seio de uma mulher, a Virgem. O espirito germanico, acceitando estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia, onde o homem se completa, os seus caracteres de hombridade e de liberdade; o seu _ponto de honra_, emfim, que foi uma feroz creação moral do feudalismo, adoçada pelo Christianismo.

Ainda foi o espirito germanico que implantou no mundo romano o julgamento pelos eguaes--pelos pares--origem do moderno jury. Na Edade-Media o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia _prévia_ consulta, nem sempre talvez respeitada, mas em summa reconhecida. A egreja, n'esse tempo ainda, conservava o principio electivo romano para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros principios temperavam um pouco a tyrannia feudal, e quasi todos elles desappareceram no regimen despotico das monarchias absolutas e da theocracia pontificia.

As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos grandes centros, onde se mantinham as transacções e as industrias rudimentares do tempo, e nos pequenos burgos, povoações dispersas creadas naturalmente, ou facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam guarida e protecção aos fugitivos dos feudos limitrophes; além d'isso, eram formadas por essa multidão de _servos de gleba_, que dispersos ou concentrados perto dos castellos, constituiam os verdadeiros agricultores, como os _sudras_ da India antiga.

O movimento communal nascera naturalmente nos grandes centros, promovido pelas causas geraes, precedentemente apontadas. Demos n'este ponto idéa da essencia e constituição d'este movimento, em que tiveram acção importante os trabalhadores d'esse tempo, como teem nos tempos modernos os operarios industriaes na formação das futuras sociedades socialistas.

A acção das associações, ou confraternidades operarias, na constituição das communas e a influencia que exerceu uma das mais poderosas, principalmente no periodo ogival, a dos _franco-maçons constructores_, obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos das suas origens e dos seus fins. As origens provaveis estão nas associações romanas similares, ou por filiação directa e successiva, o que aliás não demonstra a historia no grande collapso do V ao X seculo, ou organisada sob a acção das tradições e das leis romanas na phase activa das construcções do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos XI e XII.

Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez por ambos, ninguem póde deixar de reconhecer a profunda similhança entre as duas associações: as romanas e as da Edade-Media. Já no tempo da Republica, havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia se prolongou durante o Imperio. Constituia uma verdadeira associação de classe no sentido moderno da expressão, composta de architectos, pedreiros e canteiros ligados pelos principios da confraternidade moral, mutuo auxilio e protecção ao trabalho. O Estado reconhecera-lhe a existencia. Possuia estatutos, propriedades, salas de reunião; era, emfim, uma instituição legal.

No regimen interno, os associados, classificados mestres, companheiros e aprendizes, tinham assembléas deliberantes, secretarios, fundos proprios administrados por um thesoureiro, archivos, escolas, em summa, tudo que caracterisa uma poderosa associação. As praticas internas, mais ou menos secretas, empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam as ferramentas dos respectivos officios.

Esta vasta associação espalhava-se por todo o Imperio--ella, as suas lojas filiaes, ou outras associações congeneres--era privilegiada pelas leis; por exemplo, não pagava impostos. N'estas condições, abrangia uma area tão extensa que existem d'ella noticias historicas na Gallia e na Bretanha, onde provavelmente deu origem, com outras associações romanas, aos primitivos _guilds_, os antecessores dos poderosos Trade-Unions da Inglaterra moderna.

Esta simples descripção, fornecida pelos escriptores romanos, manifesta similhanças tão singulares com os caracteres fundamentaes das grandes associações constructoras da _franco-maçonaria_, que pela filiação directa, o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia da tradição, as mesmas idéas e os mesmos interesses approximaram estas classes de operarios, salvo as differenças provenientes da acção do Christianismo na Edade-Media.

Dos seculos V ao X, espaço de tempo a que chamamos o primeiro periodo medieval, as miserias, as crises sociaes e a acção mystica do Christianismo haviam desenvolvido o espirito cenobitico e monastico, como necessidade da segurança e do descanço do corpo, e da paz e da liberdade do espirito. As sciencias e as artes refugiaram-se nos primeiros conventos. Em 529, por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre ordem dos benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas tambem, como obrigações scientificas, a conservação da sciencia classica e a copia dos manuscriptos. Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos valiosos são conhecidos, espalhou-se por todo o orbe christão, constituindo grandes e historicas abbadias.

Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam os architectos e os constructores dos mosteiros e dos templos, agruparam-se os operarios, organisando as primeiras associações christãs. Ora, a tradição e a essencia das grandes associaçães romanas deviam manter-se no espirito e nos archivos dos mosteiros d'esse tempo. Por esta fórma se explica a ligação, directa ou indirecta mas indiscutivel, das associações romanas e das medievaes.

Assim, os primeiros traços historicos da _franco-maçonaria_ datam do seculo XI, isto é, do seculo em que se define o segundo periodo do Estylo Romanico. No seculo XIII, estas associações apparecem já independentes, com organisação completa e construindo as maiores cathedraes do Estylo Ogival. Teremos occasião de desenvolver o assumpto n'outra parte d'este livro.

É indiscutivel que as corporações de artes e mesteres, embora bem rudimentares n'essa epocha, feitas á imagem e similhança das romanas, deviam constituir grandes forças revolucionarias nos primeiros movimentos communaes. A communa nasce, pois, do amor da liberdade, manifestação do espirito germanico, do principio das organisações methodicas e regulares, tradição do espirito romano, e dos sentimentos de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do Christianismo. Em nenhum facto historico da Edade-Media se distingue mais clara e profundamente a acção parallela e harmonica das tres manifestações d'esse espirito, de que falavam as escolas de Anaxagoras e de Socrates. A communa, todavia, representava tambem a ligação dos fracos quasi inermes, contra o feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima d'esta instituição democratica provém de todos estes principios.

Os primeiros movimentos communaes accentuados datam do seculo XI, embora, como dissemos, as organisações municipaes romanas tivessem subsistido nos pontos do Imperio mais livres das invasões barbaras, por exemplo no sul da França. Nos seculos XII e XIII a organisação communal era já poderosa. Estas communhões, confederações, ou conjurações, segundo os nomes caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos antigos centros, ou em centros novos. O seu principal fim, n'esses tempos de guerras e desastres, foi a defeza reciproca; a primeira obrigação dos cidadãos consistia em se reunirem armados, quando tocava a rebate o sino do campanario, em volta do qual se agrupava a communa, e d'onde esculcas vigilantes, noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas. A organisação interna das communas nasceu logicamente d'estas agremiações primitivas, realisadas á sombra da egreja, que, ás vezes, constituia o ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria feudal.

Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com astucia as occasiões favoraveis das luctas entre os senhores feudaes e a sua necessidade de dinheiro, as communas foram obtendo a pouco e pouco a organisação autonoma, umas livres constituindo quasi _feudos burguezes_, se nos consentem a expressão, outras sujeitas ao delegado do senhor ou do suzerano, o _preboste_; mas todas reunindo uma força respeitavel, depois aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento dos planos de restauração da unidade do poder real, que antecedem e preparam a formação das monarchias do direito divino.

No seculo XIII as communas livres e do _prebostado_ eram numerosas e os seus direitos mais ou menos reconhecidos por contratos, entre os senhores feudaes e as agremiações burguezas. Libertadas dos antigos serviços pessoaes, tendo uma organisação administrativa independente e electiva, que envolvia, ás vezes, o direito de justiça, em qualquer caso repousando sobre o julgamento dos _pares_, livres de tributos arbitrarios substituidos por contribuições fixas, as communas manifestam n'este seculo certa unidade de organisação e os caracteres de liberdade e de vida locaes.

Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos traços, as duas forças, o feudalismo e as communas, que fizeram a historia do segundo periodo da Edade-Media. N'este meio social, se a ignorancia era profunda, as sciencias e as artes davam os primeiros passos. A Escholastica, nascida com o Imperador Carlos Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard, perdera o brilho que attingira nas escolas e academias imperiaes. Revive no seculo XI, em que Abelard, celebre pelos seus amores com Heloisa, lhe imprime um vigoroso impulso, do qual resultará o grande movimento Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes de S. Thomás de Aquino, o auctor da Summula Theologica, e de Roger Bacon, o sabio universal e prophetico. Estes dois grandes homens representam duas escolas, a primeira que por evolução successiva devia produzir a theologia e a metaphysica, a segunda que originaria o methodo experimental e é a essencia positiva das sciencias modernas.

No seculo XI começam tambem as guerras religiosas, o embate das grandas forças do islamismo, accumuladas ao sul da Europa, e do Christianismo, occupando o centro e o norte. A primeira lucta corpo a corpo, travada nos campos da Palestina, constituiu a Cruzada do anno de 1096. O feudalismo move-se em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em Constantinopla, ponto de partida. As populações servis da Europa christã respiram, alliviadas d'esta força tremenda, que vae a Jerusalem libertar o Santo Sepulcro. As fileiras rareadas do feudalismo facilitam a constituição communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas, que dura dois seculos, activa as relações de todas as ordens com o Oriente, põe as nações occidentaes em mais directa communicação com a arte byzantina, que tanta influencia tivera já sobre o Estylo Latino, e contribue poderosamente para a riqueza e dispersão dos Estylos Romanico e Ogival.

N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos definir o _meio social_, em que se desenvolveram os mais completos estylos da arte christã. A pintura é incompleta, mas um trabalho d'esta natureza não se presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os necessarios fal-os-emos tratando dos Estylos Romanico e Ogival. N'este ponto, basta notar que o espirito humano teve rapida e ascensional evolução nos dois seculos XI e XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o seculo XIII representa na historia uma phrase brilhante, um relampago da Renascença, em que principia o periodo ogival.

CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO

Os _meios_ sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita e o da transição para o Estylo Ogival.