A architectura religiosa na Edade Média

Part 6

Chapter 63,598 wordsPublic domain

O Estylo Latino nascera primeiro, começando a constituir-se logo após a saída do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande templo byzantino, descripto no capitulo anterior.

No periodo de formação do Imperio do Oriente, isto é, desde Constantino até Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo vencido, que se encarnou no imperador Juliano.

O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades exigidas pelo _meio_ grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio clima não aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado clima da Italia e a tradição conservaram no primitivo estylo. Como as plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo Latino, nascido no occidente, não encontrando no oriente condições favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram harmonicos com o _meio_ natural e social, para onde o Estylo Latino fôra transplantado.

Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse _meio_ natural e social, não podia repudiar os elementos architectonicos fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos com os seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito christão, que, sendo origem commum de ambos, imprimira á Arte novas feições em situações differentes.

De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino; muito embora, como em breve diremos, a fusão d'estes estylos se devesse realisar mais tarde sob a acção do elemento barbaro, que não podia deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christã, visto que a teve decisiva e innegavel na constituição das sociedades medievaes.

Uma observação interessante na formação do Estylo Byzantino consiste em que a sua maior obra, nunca depois excedida nem até egualada, Santa Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico e uma creação inspirada dos architectos gregos; a verdade é, porém, que o Estylo Byzantino não fugiu á lei de todas as producções humanas, tendo uma formação lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou, dando-lhe a apparencia de uma verdadeira revolução nos estylos architectonicos.

É logico suppôr que o periodo de verdadeira constituição do Estylo Byzantino deve ter começado quando Constantinopla foi declarada capital do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre elementos de actividade social e de riqueza, que só poderam reunir-se quando a administração geral do Imperio concentrou no oriente todas as forças creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.

Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo a sua mais perfeita expressão no templo de Justiniano.

O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte tão perfeita e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forçosamente profunda influencia sobre a arte occidental. Não só as egrejas e as construcções byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo Latino e a invadir a Italia, na parte que então constituia um Exarchado do Imperio do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo estylo, principalmente no sul da Europa.

Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta dispersão, que reinou na Italia, no sul da França e chegou até á Allemanha, as duas nações que mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As relações de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus grandes _caravansarás_ em Constantinopla.

Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo Byzantino, até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripções, sempre um pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.

Estas causas, só por si explicam a influencia da ornamentação oriental sobre a arte do occidente; a acção, porém, tinha de ser mais completa. Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino começou a invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invasão fez-se primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes relações com o mundo oriental.

O facto historico culminante, que facilitou a dispersão do Estylo Byzantino, foi todavia a constituição do Exarchado em Italia. Por morte de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho Athalarico. Esta princeza herdára algumas das grandes qualidades de seu pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisação classica, então representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da corôa entregou-lhe a herança paterna, que a nova imperatriz partilhou com Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritação dos guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da transigencia. Então, a desordem e a dissolução apoderaram-se dos estados de Theodorico.

Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avançou até Ravenna, que por momentos pertenceu á corôa do oriente. As constantes intrigas da côrte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico general de Justiniano, que então incumbiu o persa Narsés de recomeçar a conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.

A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco, dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narsés. Na côrte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o duque de Italia, a quem a propria imperatriz não poupava desgostos e motejos, não se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança de Narsés. Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente ás desgraçadas qualidades physicas do duque de Italia, que _elle era um homem digno de fazer parte de um grupo de fiandeiras_. A resposta do eunucho não se fez esperar. Sentindo a morte proxima, Narsés, incitou entre os lombardos, poderosa e guerreira nação germanica que habitava a Pannonia, a idéa da conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes, precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte importante da região septentrional, que ainda hoje conserva o nome de Lombardia.

O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna, que durou até meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a civilisação e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo com uma das mais intelligentes nações barbaras, das que invadiram o solo da peninsula italica.

As relações entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio, pelas tradições como legitimo representante do grande poderio romano, que aliás os seus antecessores haviam destruido, pela civilisação relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da côrte byzantina. As tradições gloriosas e as riquezas foram e hão de ser em todos os tempos motivos de admiração, de respeito e até de culto para os espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a nomeação de _patricios romanos_, ou acceitavam-n'a como grande honra; com effeito, foram _patricios_ Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei de França. Estas relações diplomaticas do tempo não deviam contribuir pouco para a propagação da influencia da arte byzantina, nas nações occidentaes da Europa.

O movimento logico do ardente mysticismo christão facilitou, ainda, esta propagação em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a representação material das idéas sagradas, de Deus principalmente, quasi uma verdadeira profanação. Era a consequencia logica de doutrinas muito espiritualistas na essencia.

Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moysés entre outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de forte essencia espiritual, não admittiram nunca a representação material da divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de facto, a identicas conclusões.

D'aqui proveiu a famosa seita dos _Iconoclastas_, no fim do seculo V já tão poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador Zenon. Estes _destruidores de imagens_, que as perseguiam com o terrivel furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no seculo IX. N'este periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a pintura, soffreram rudes perseguições nas suas obras, o que promoveu um exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre menos poderosa e nociva.

Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas de milhares de homens de relativa instrucção, que conhecendo apenas a modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla até á Palestina.

Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a dispersão da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo VI começou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se depois successivamente pela Lombardia.

A influencia da ornamentação byzantina em mosaicos, pinturas e esculpturas, que já anteriormente se manifestára sobre o Estylo Latino e que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguições dos iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram bem superiores em majestade, grandeza e duração aos correspondentes no primitivo estylo christão, nascido no occidente.

Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu resistencia, e não foi tão facilmente vencido como no oriente. Na Italia fôra creado e se espalhára com profusão, correspondia ao _meio_ natural e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o representante de antigas tradições.

Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradições vivas dos antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico não penetrou facilmente no sul de Italia e o Ogival, cuja expansão foi enorme por toda a parte, se a invadiu, teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias. Entrou na Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milão; mas, a partir de Florença, onde na opinião dos proprios italianos começa a verdadeira Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o espirito classico.

O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascença terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso ás origens, isto é, ás idéas e aos estylos classicos, foi preparado e realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem escriptores, quer amadores ou artistas.

Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face do poderoso invasor oriental.

Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão da Italia, durante o seculo VI, elevando as suas construcções ao lado das latinas, as leis historicas preparavam as bases das futuras constituições sociaes. O seculo V fôra o periodo das invasões na Italia, nas Gallias e na Iberia. Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fóco da arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués, os hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e miserias, sem crearem organisações sociaes estaveis. Como verdadeiras ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes côrsos, que tão rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas, os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia, destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.

O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera duração. O genio indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade e brilhante grandeza; mas a fusão das raças não se déra. O conquistador era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na côrte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficára sempre um conquistador, confiando mais na força das armas do que na acção lenta e segura da catechese politica. Por isso, conservára os seus guerreiros isolados quanto possivel da civilisação classica, constituindo uma verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissolução dos seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por Belisario e Narsés, os habeis generaes de Justiniano.

No seculo VI começou na realidade a constituição de nacionalidades mais fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos Magno e da actual França; e nos meiados do seculo VI, como já vimos, a Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.

Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo não possuia a malleabilidade do genio, a illustração e a grandeza de caracter do conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com maior egoismo e crueldade. As exacções assumiram proporções violentas, porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.

A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 até 774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fusão da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A abjuração do arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações sociaes. A combinação dos sangues creou a pouco e pouco novas gerações, em que se casaram as qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas tendencias e disposições. A fusão das raças produziu, assim, uma sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religião e na constituição de uma lingua commum, primeiro esboço das futuras sociedades, que deviam resultar da alliança dos tres espiritos creadores, o christão, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o commercio e a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia, apesar das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.

N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a arte oriental e a occidental em contacto não podiam deixar de produzir uma liga especial, sob o calor de novas idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento de uma importante fracção da Humanidade.

A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evolução e a dispersão d'este estylo. Assim, é certo que a constituição da monarchia franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da acção das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana, depois da conversão de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas os lombardos encontraram-se na posição singular e favoravel de contacto com a arte byzantina, cujos edificios e producções se elevavam nos seus proprios Estados. Esta situação especial envolve logicamente mais directa e proficua influencia na formação de novas physionomias da arte.

Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e excellentes constructores, quer o fossem por disposições proprias de raça ou herança do sangue romano, quer o exemplo das construcções existentes lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades. Assim, quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e habeis constructores. Ainda hoje a expressão Estylo Lombardo, applicada a uma feição do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas n'este periodo da evolução da arte.

Difficil será, sem duvida, tentar a fixação de datas, embora seculares, para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios monumentos coévos, em grande parte desappareceram pela acção de longa antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que existem duvidosa classificação. É indiscutivel, todavia, que esse periodo de transição existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenças manifestam-se tão radicaes que só as pôde explicar uma longa evolução.

O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem um longo periodo intermedio de elaboração. Como as transformações biologicas e ethnicas das raças animaes exigem gerações successivas e numerosas de verdadeiros typos intermediarios, assim, entre os estylos christãos primitivos e o Estylo Romanico secundario é logica e necessaria a existencia de um periodo de transição.

Alem d'isso, a comparação dos caracteres architectonicos demonstra que o Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores, constituindo não uma simples mistura de elementos diversos, mas em verdade uma sabia e harmonica combinação, que fixou uma feição especial da arte.[1]

Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposições geraes das fachadas e os narthexs, a fórma interior das egrejas nas naves, nos transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os ciborios, as tribunas e outras disposições particulares archictetonicas e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares massiços e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e riqueza da ornamentação.

Quando começou a manifestar-se essa transformação, que constitue o periodo do Estylo Latino de transição, ou o Estylo Romanico primario?

Em geral, as maiores creações do espirito humano, coincidem com os grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o pensamento, estancando-lhe as forças creadoras; substitue os grandes ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambições pelo sordido egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas _sente_ a necessidade e o prazer de uma vida de sensações faceis e vulgares. Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.

A constituição do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino Lombardo, póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu, como é sabido, profundo impulso á civilisação, e sob o aspecto da arte disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que até hoje se inflorou a Humanidade.

Foi então que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente atmosphera para desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas combinações architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.

Esta revolução na esthetica nasceu indiscutivelmente da acção de um novo espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e caracteristicos os traços, embora orientalisados, do seu antecessor. Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar poderosos mananciaes de novas idéas e de novas fórmas, foi o elemento barbaro.

A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida á cançada e anemica compleição classica. Na arte o seu trabalho de regeneração, atravessando as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica concepção do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.

PARTE TERCEIRA

OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS

XI SECULO AO XV SECULO

CAPITULO PRIMEIRO

SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII