A architectura religiosa na Edade Média
Part 5
Constantino, pelas razões que expozemos, edificára em Bysancio a nova capital do Imperio. A permanencia da côrte do autocrata romano no oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta administração do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para Constantinopla as melhores forças vivas e os mais valiosos elementos sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.
O Christianismo existia já n'aquellas provincias do Imperio; mas a acção da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente grande expansão. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes, nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christão, differente do occidental, foi tambem o producto da acção reciproca d'estes elementos. A sua formação é coeva e parallela. Póde dizer-se que o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino, de que nos vamos occupar.
O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio hellenico. Imitou-o na religião, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestações da actividade social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creações do espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em Roma um soffrivel discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores, grandes amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram, cultivando-a pouco, ou pelo menos não produzindo creações novas, comparaveis com os d'outros povos.
Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos, os _foros_ e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.
Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta e artista. O prestigio imperial provocou as acclamações; a força garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos artisticos. É provavel que, sujeita a _este espirito_ dos amadores romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.
Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo e energico que se manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredações romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente, formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituição da esthetica romana pela grega constituia já uma grande vantagem para a nova evolução da Arte.
Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande imperio dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram tantas civilisações antigas, confinava com a mysteriosa _Fars_, a Persia, que em guerras successivas fôra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas nações, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da historia da arte antiga é assás obscura nas origens e nas relações reciprocas; mas estudos modernos vão demonstrando a importancia das manifestações estheticas entre estes povos orientaes.
A influencia de ornamentações riquissimas e de estylos cheios de originalidade, adequados aos costumes, ás necessidades e ao clima do oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho que tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a acção reciproca d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que, substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o Estylo Byzantino.
A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christãos do seu tempo, chegára a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do Imperio; mas as suas fórmas especiaes, pobres e severas, não poderam por longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V foi, pois, o periodo da evolução rapida d'esse novo estylo christão, que o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um só edificio, dos mais bellos do mundo.
Os planos e a construcção de Santa Sophia de Constantinopla foram dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto. Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas, pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias limitrophes, das quaes a ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram, pois, oriundos de raças e nações, onde o espirito hellenico e o oriental tinham descoberto combinações singulares e bellas na arte da construcção, nos estylos e na ornamentação dos edificios.
A construcção do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagração, o Imperador pôde soltar esta soberba e historica expressão: _Gloria a Deus que me julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomão!_
De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do culto excedeu a magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem versiculos do Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais perfeito e mais rico.
O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da Italia e pelo sul da França, chegando até á Allemanha, não penetrou em Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes que tenham deixado tradições ou vestigios materiaes.
Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta descripção de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento, que nos esclarecerá e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.
O exterior de Santa Sophia é simples e severo. Uma multidão de cupulas de differentes dimensões, dominadas pela grande cupula do corpo central da antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente oriental, como o das cidades em climas onde a neve é desconhecida, a chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez do edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem pequenas janelas de volta inteira. Estamos já longe das coberturas de madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas abobadas sobre muros espessos, reforçados por botareos, do Estylo Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia é representada no estado actual, isto é, ladeada de quatro _minaretes_ e cercada de construcções, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.
[Figura: CONSTANTINOPLA--Exterior de S^{ta} Sophia]
A construcção, exceptuando a pequena saliencia da ábside principal, está circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se vê da seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.
[Figura]
A disposição interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta em relação ás lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos, ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro é, portanto, egual ao lado do quadrado. O espaço vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construcção, facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos pilares, constitue quatro enormes _pendentes_, que ligam a mesma cupula aos arcos, sobre que ella repousa.
[Figura]
Esta disposição, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade, estudando o anterior córte, feito pelo centro da cupula e perpendicular ao eixo maior da nave central.
Para o oriente e para o occidente--porque o eixo principal da egreja tem esta direcção--duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado; a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias religiosas, em geral matutinas. Esta orientação apparece mais tarde no Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde já simples approximações.
Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes, onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando sobre os terraços das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta inteira.
Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do que os collateraes, recebendo luz de fóra. Se o Estylo Latino deixou aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separação dos sexos, a disposição tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula respectiva, rasgam-se tres ábsides, das quaes a do centro, um pouco saliente do edificio, era o _sanctuario_. Na parede occidental em frente das ábsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo _narthex_, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados tambem pelo Estylo Latino.
Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente illuminado por numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na base da grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta d'estas janelas, que lhe dão um aspecto singular de elegancia e de levesa, teremos esboçado singela descripção architectonica, que, sem confusões e incertezas segundo pensamos, dará idéa do edificio e das feições caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz magistralmente.
Sem falarmos por emquanto na ornamentação, devemos concluir que o primeiro caracter evidente d'este estylo é a cupula. Como quasi todos os elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo, principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para construcções. Póde servir isto de exemplo para as influencias do clima sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por outras rasões especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.
A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal jazem os restos mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeição da construcção arrojada, tão excellente que resistiu á acção de dezenove seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa assombro porque a excede em grandeza. É toda de pedra talhada e tem 43 metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande abertura por onde o templo recebe a luz.
[Figura: CONSTANTINOPLA--Interior de S.^ta Sophia]
Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que não ignoram o principio da evolução da arte e da sciencia de construir, que uma maravilha d'estas não póde constituir um producto esporadico n'uma civilisação. Roma conhecia este systema de construcção, porque o empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia. É regra logica e segura. Verdade seja que o Pantheon é um templo circular, precedido de um simples portico de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro pilares, com auxilio dos _pendentes_. Eis a caracteristica differença.
D'esta fórma especial de construcção, que provavelmente foi empregada nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou n'outro ponto preferida por condições locaes, é que não se encontraram, até hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A _cupula de pendentes_ é, pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino, herdado de estylos antiquissimos.
Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado Coração de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura interior do cruzeiro, quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é uma cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differença, aliás secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam directamente sobre os arcos sem interposição do tambor cylindrico; dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposição, embora pouco accentuada, se dá na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o podermos affirmar com plena convicção.
A ornamentação de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso--iamos a escrever servil--dos funccionarios das suas vastas provincias, fez saquear os templos pagãos do oriente, como tambem se praticára no occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de Salomão. A historia relata a este respeito espantosos factos de espoliação e destruição dos antigos templos classicos de Palmyra, Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredações n'este caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental; emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differença da ornamentação das egrejas nos primeiros estylos christãos.
Os mais ricos materiaes foram empregados com profusão. Marmores rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse _luxo_ asiatico, em que a prata, o ouro e até as pedras preciosas se revesavam com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro, revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e movimento, em grupos symetricos, expressões hieraticas de uma arte crystallisada, que perdera as tradições do grande estylo e não estudava a natureza.
A magnificencia dos objectos do culto attingiu proporções phantasticas em Santa Sophia.
Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar era feito de uma singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a pó. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos, brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas as especies.
Este altar era coberto pelo _ciborio_ em fórma de torre, cujo docel de ouro massiço repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata, entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia, onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de perolas e gemmas preciosas.
O _sanctuario_ fôra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de santos e lavores de caracter byzantino.
Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme _ambon_ de fórma circular, em recinto vedado, servia de côro para as dignidades ecclesiasticas e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto por um docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de accesso do ambon.
Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata, o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as fórmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes preciosos.
Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental, rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente cinzelados!
Esta impressão extraordinaria, embora não comparavel, sentiu-a um dia o auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse uma _grande caverna de ouro!_
Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada pelos turcos de Mahomet II, se não pelo proprio Mahomet; egreja, transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcorão!
D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor as feições do Estylo Byzantino; devemos, porém, entrar ainda n'este ponto em alguns pormenores.
A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposições. Démos a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna, edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao meio lhe fica perpendicular. É claro que n'este caso os pendentes são pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os lados do polygono.
Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave principal, tendo em comprimento o triplo da largura, é cortada ao meio por um transepto perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas de pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira cruz grega. S. Marcos de Veneza é uma imitação d'esta egreja. Sem multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a maior ou menor approximação da cruz de braços eguaes, a do estylo grego.
No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo na tendencia horisontal das outras coberturas. A construcção respira estabilidade e solidez. As janelas são pequenas, segundo o uso oriental, muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo ás vezes a fórma de ferradura tão usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem muitas das origens do byzantino no mundo oriental.
O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja de Santa Sophia. A ornamentação é caracteristica; mas, na realidade, são as _cupulas de pendentes_, os _mosaicos_ orientaes, as _arcadas sobre columnas_, os _capiteis_, e os _arcos geminados_, que melhor definem o Estylo Byzantino, alem de outros que já descrevemos e vamos enumerar. Observaremos que um grande numero d'estes elementos, não todos, serão empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.
Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é, porém, hierarchica, secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenções de symetria. As personagens não têem vida e movimento; parecem, se nos consentem a expressão, multidões de manequins, dispostos em maus quadros scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.
A ornamentação profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo fórmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, são de extrema diversidade. Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos: cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas salientes, ás vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna. A sua ornamentação manifesta, tambem, caracteres diversos, em que predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados de folhas phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de pedrarias. Ás vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e cestos, completam esta profusa ornamentação, em que foram abandonados e esquecidos o gosto e as proporções classicas.
No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem os córtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro; foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.
É evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem, mas já tratados com outro vigor e largueza.
Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo Byzantino, que o calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo da arte hellenica e oriental.
CAPITULO TERCEIRO
ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS
Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi moribundas da arte grega e oriental, e da romana, creára dois formosos estylos; correspondendo, na realidade, a expressões definidas do bello nas duas maiores civilisações, em que então se dividia a Humanidade.