A architectura religiosa na Edade Média

Part 4

Chapter 43,596 wordsPublic domain

Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades ou defeitos da propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; vê-se isto ainda nos tempos modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde os _idolatras_ adoravam os deuses vencidos. Além d'isso, os templos inuteis offerecem, em regra, condições de construcção adequadas ás praticas religiosas; ora, em todas as religiões mais perfeitas existem usos e praticas similhantes. O vencedor não tem tempo para construir logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim, nós vemos os arabes de Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas, onde o Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se tornam templos christãos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.

O Christianismo não procedeu por esta fórma, salvo raras excepções. Em primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religião eram assás differentes dos do paganismo. A expressão da arte classica não dizia bem com a essencia do culto christão. Além d'isso, os templos classicos eram pouco espaçosos. O _naos_, a cella ou sanctuario dos deuses, era pequeno; o que dava amplidão ao tempo classico, o _pro-naos_, o portico que mais ou menos envolvia o _naos_, correspondia ao culto e aos ritos pagãos; não se amoldava, porém, aos do Christianismo, cujas multidões, sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os exercicios divinos.

As circumstancias desgraçadas da sociedade romana, esboçadas anteriormente, proporcionaram aos christãos os grandes edificios das _basilicas_, logares de reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem empregar as ultimas expressões tão modernas.

O amortecimento da actividade social e a extincção da vida politica dos cidadãos, que os chamavam aos _foros_ junto dos quaes existiam as _basilicas_, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as condições adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e regorgitando de cidadãos, na plena actividade de trabalho em variadas operações commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma, logo no principio do imperio de Constantino, começaram a apropriar-se d'estes edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religião.

As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o estylo das primeiras egrejas christãs. Sobre as respectivas disposições existiam duvidas, que a critica e a inducção procuraram resolver; assim, a reconstituição d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida. A importancia que tiveram sobre a arte christã, a grandeza e a magnificencia dos que existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida descripção.

Vitruvio deu-nos as regras principaes da construcção d'estes monumentos e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a reunião dos commerciantes. Os seus fins estão, pois, definidos, pelo menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre architecto romano. As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as proporções prefixadas e tradicionaes da arte classica.

A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o terço do seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigará a construir _chalcidicos_ nos extremos da basilica. As columnas do pavimento terreo terão altura egual á largura dos porticos, como o architecto chama ás naves lateraes, que a seu turno devem offerecer approximadamente um terço da largura do corpo ou nave central. As columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, serão um quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lançado entre as columnas d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente para que as pessoas de cima não sejam vistas pelas de baixo. Por muito incompletos que pareçam, estes pormenores seriam sufficientes para dar approximada idéa dos fins e das disposições d'estes edificios classicos.

[Figura: Schema de uma basilica romana]

O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde provavelmente existiram construcções com fins equivalentes; comtudo, pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a palavra grega expressa o poder real.

A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas proximidades dos _foros_, grandes praças onde existia a tribuna dos oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica parece ter sido um annexo indispensavel d'estes _foros_, recinto abrigado e coberto para occasiões de intemperie. A mais antiga em Roma, a Basilica Porcia, suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos annos antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito Sempronio, _censor_ no ultimo seculo antes de Christo. Estas construcções faziam parte das dadivas, com que os politicos e os ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graças do povo.

Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria possuiam basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que existiu em Pompeia, junto do pequeno _forum_. Ora, esta cidade era, como outras, semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de verão, provavelmente do caracter que hoje têem Nice e as povoações da Côte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.

A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra que nas primitivas não existia ábside. No fim da nave principal, uma tribuna quadrada, avançando sobre o transepto e de altura superior á de um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espaço reservado para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por exemplo a de Constantino, já apparece a ábside saliente, abobadada em meia cupula, para installação dos juizes.

A descripção d'esta ultima basilica dar-nos-á idéa clara da disposição interior e grandeza d'esta natureza de construcções. Media cêrca de 90 metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes existia uma ábside; no outro extremo, em face das ábsides, abriam-se as entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.

Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as disposições internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios, constituidos por uma nave central terminada em ábside e ladeada de porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo central. Este conjunto, exceptuando a ábside abobadada em meia cupula, tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.

Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das naves em face das ábsides.

No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a ábside e o transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes estavam os logares dos vendedores, á similhança dos _bazares_ orientaes. Os porticos superiores constituiam logar de reunião para ociosos e para os que procuravam as diversões da sociedade e da conversação.

Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro schema, onde todos os respectivos elementos estão expressamente desenhados. N'este schema faremos notar as disposições relativas do tribunal, constituido pela ábside, onde estacionava o juiz e o pessoal annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta ábside, e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem nas basilicas. Estes elementos são a origem de disposições especiaes nas egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.

Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta ornamentação. É um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, não podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e solemne grandeza classica. A ornamentação era rica e profusa em estatuas e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo facto, pelo menos, é attestado pelas descripções dos historiadores. É claro que n'este ponto nos referimos ás antigas basilicas romanas e não ás que, seguindo o estylo, edificaram depois os christãos.

As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras egrejas do Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta formação do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder fixar datas, como aliás é sempre difficilimo nas transições artisticas: o primitivo, desde Constantino até Theodorico, em que o estylo devia ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente attingindo a perfeição manifestada no seculo VI, pela construcção de Santa Sophia de Constantinopla. As relações entre o occidente e oriente eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se não desse esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentação riquissima, sobre o Estylo Latino nascente.

Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillações. A consolidação da egreja deve ter influido muito na constituição do estylo. As basilicas christãs dos melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam, por assim dizer, ás regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso, é até certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.

A disposição interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas, principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica de S. Martinho de Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a fórma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais accentuada nas disposições internas, accommodadas ás necessidades do novo culto, e na ornamentação mais ou menos rica, onde exerceu decidida influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.

Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo, que esta descripção _theorica_ soffre as modificações impostas pelas circumstancias, pelas disposições dos edificios apropriados e, emfim, pela imaginação e concepção artisticas, que, embora dentro das regras dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de acção.

Um espaçoso _atrio_, fechado por muros, ás vezes revestidos de porticos internos, dava ingresso á egreja. No fundo d'este _atrio_ quadrado, que foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes. Sobrepujando as portas e as janelas, um frontão pouco alto encobria o madeiramento dos telhados. N'esta disposição vê-se a ordenança classica.

Em frente da egreja e encostado á fachada, um portico de columnas formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os fieis. Algumas vezes, não havia saliencia para fóra da superficie vertical da fachada, que então repousava sobre o intercolumnio externo do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para as abluções.

N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fóra d'elles, onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão, usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação dos ritos, dando caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das egrejas proximo da entrada.

As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham janelas. A parede lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhões. As janelas da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impressão das rotulas orientaes.

No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposições da basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da divisão dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas os pavimentos superiores d'estas naves.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. PAULO--Fachada principal]

Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres ábsides; a da nave central, a mais importante, constituía o _presbyterio_ ou a _tribuna_. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do culto. Estas ultimas foram a origem dos _thesouros_ e das _sacristias_ das nossas egrejas.

Na ábside central, a _tribuna_, em degraus de marmore dispostos em amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem de marmore o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas. Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.

Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo _ciborio_, o _baldachino_ das basilicas modernas de Roma, vasto e alto docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocação da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o _alpha_ e o _ómega_, o _labaro_, a _palma_ do martyrio e outros symbolismos religiosos.

No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o _martyrio_ ou a _confissão_, contendo reliquias de santos; quando este subterraneo era vasto tomava o nome de _crypta_. Todos estes elementos nasceram das tradições do Christianismo das catacumbas.

Este conjunto do altar, o _santuario_, ficava entre a tribuna e o côro, constituido por um vasto espaço quadrado, limitado por muros baixos, no extremo da nave central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e cantores. Dois _ambons_ symetricos, nos extremos do côro, ladeavam quasi o altar. Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados romanos e são a origem dos pulpitos. Estas disposições caracteristicas pódem observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros cortam as naves principaes.

A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das naves, entre o côro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.

Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, ás vezes de grandes caixões. A abobada não foi, nem podia ser empregada em edificios d'esta construcção.

A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras, esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de porphyros. O altar e o côro principalmente offereciam ornamentação riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos em mosaico de fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos da egreja. É evidente que esta pujante ornamentação se desenvolveu nos melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino. Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico nas paredes.

[Figura: ROMA, BASILICA DE S. PAULO--Fachada lateral (norte)]

O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra de grandes lages; depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e amarello, chamado _opus alexandrinus_, nome que lhe caracterisa a origem oriental.

Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo systema romano na qualidade e disposição dos materiaes, teremos dado uma succinta idéa da formação e dos caracteres do Estylo Latino, isto é, do primitivo estylo christão no occidente.

Não temos, infelizmente, em Portugal um só exemplo do Estylo Latino. O nome de _basilica_, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão de grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a qualidades architectonicas, porque estas egrejas são de caracteristico Estylo da Renascença. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do Estylo Latino é necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de Roma!

Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. João de Latrão, Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Lourenço, as duas ultimas construidas fóra dos muros da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas que nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas disposições internas.

A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de facto um formoso e rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposições geraes traduzem, com a possivel exactidão, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente descriptas. Esta grandiosa construcção conserva ainda uma pequena parte antiga, se não primitiva, mas o restante é de epoca moderna.

Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte d'esta primitiva basilica.

Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos á fé dos christãos de todo o mundo, começou a reedificação da antiga basilica; fazendo, porém, engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos, como excellente definição das feições especiaes do Estylo Latino.

[Figura: ROMA--Interior de S Paulo]

A fachada principal é formada por um vasto portico da Ordem Corynthia, para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrás d'este portico eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separação dos sexos nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas aconselhou a suppressão d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente decorada por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, são antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.

O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. São, pois, oitenta columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de medalhões circulares em mosaico, que representam retratos de antigos Papas. Esta grande nave é directamente illuminada por dez janelas lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de caixões de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mór constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro e de S. Paulo, é guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se suppõe ser do anno 440 da nossa era.

A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que sustentam um docel de Estylo Ogival.

No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de um mirante, está collocada por detrás da ábside.

A Egreja de S. Lourenço, segundo a tradição tambem construida por Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.

Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto por telhados muito inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a fresco, não tem frontão.

No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de severidade e grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave central, feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja não tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das fórmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por outro lado, porque a ábside termina em parede plana, guarnecida de janelas.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO]

Não sendo possivel nem opportuno desenvolver descripções mais completas d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.

[Figura: ROMA--Interior da Basilica de S. Lourenço]

CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO

Roma deixára de ser a capital do Imperio. Conservára de direito as suas antigas tradições, o seu cognome de _cidade-eterna_; de facto, a capital do Imperio já no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As extensas fronteiras e as enormes agglomerações de estados e de povos, que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro, com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula italica.

Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de vida devassa, de que os satrapas médo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas tradições respeitadas. São ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes do oriente.