A architectura religiosa na Edade Média

Part 3

Chapter 33,663 wordsPublic domain

Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do Christianismo. Tinha assistido, provavelmente, aos actos de perseguição alli praticados por ordem de Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára a energia de alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar, sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que desconhecia quasi o paganismo. Para elles, martyres, a morte não era horrivel; por um lado, davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino era um genio e os genios vêem sempre no futuro.

Depois, annos de morticinio não extinguiam os christãos. Parecia que a flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A suggestão do martyrio, fundando-se na esperança, trazia novos adeptos, que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva pullulam as boninas brancas na primavera.

Constantino era politico e os politicos usam das forças vivas para os seus altos designios. A idéa e a força sempre crescente do Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa imperial não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios, unicos, para o sonho de Constantino, a unificação e a reorganisação do antigo Imperio Romano.

Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa polytheista estava condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades pagãs e a moral dos cidadãos. A doutrina christã, simples e virtuosa, o seu principio deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspiração da sua alma.

Não é, pois, necessaria a revelação divina para explicar a conversão de Constantino. Em nome das perseguições feitas aos christãos, o novo imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia, derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e, ajudado pelos christãos, levando na frente o _labarum_, com a cruz de Christo e o prophetico lemma _in hoc signo vinces_, vence-o e fal-o morrer junto dos muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milão o Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.

Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a titulo das perseguições exercidas contra os christãos; derrota-o em Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado tempo!

A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a organisação administrativa. Os christãos haviam sido auxiliares do imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino não combatia ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo os christãos de favores, mostrando por elles viva predilecção. Ora, os favores e a predilecção dos poderosos são uma ordem e um incentivo para os pequenos.

O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. Não bastava que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religião do Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que entre os romanos era a melhor manifestação de força e de soberania. Em 321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos templos da nova religião, entre elles o direito de asylo dos templos classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; começa até a perseguir os pagãos. Eram costumes do tempo.

Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no terceiro seculo do Christianismo ameaçava já a tradição orthodoxa, Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião dos bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definição do dogma nas reuniões da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciação do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o _Symbolo dos Apostolos_, ainda hoje o _Credo_ resado pelos christãos; finalmente, fulminou o anathema e a excommunhão sobre Ario e a sua doutrina, que negavam esta consubstanciação.

O arianismo, porém, não se deu por vencido e, durante seculos, manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na catechese dos povos barbaros.

Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos germanicos, é o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o catholico e o protestante.

Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe apenas o baptismo; comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funcções e a influencia de _pontifice-maximo_ do paganismo perseguido, quasi extincto mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico, deixa a prova indubitavel e solemne da conversão, para os ultimos dias da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio, reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de Constantino, uma cinta de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das invasões, que se começavam a formar e entrarão com movimento irresistivel no seculo seguinte.

O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição relativamente mais segura do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O imperador transferiu a séde do governo para Constantinopla, no anno 330 da nossa era.

Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do Estado, official e professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo: _cujus regio, ejus religio_.

Um novo periodo historico vae, pois, começar para a Humanidade. A politica e a moral, expressões geraes da actividade humana, manifestarão caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidirá a esta phase longa e brilhante da evolução historica, que ha de inflorar-se com a civilisação e o progresso modernos.

Entre o mundo classico e o christão parece existir hoje um abysmo; todavia, na evolução do espirito não occorreu a menor solução de continuidade. As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como a arvore se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que recebe a seiva e o alimento.

A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas, quando na realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do espirito humano. As differenças provéem da intima natureza das religiões, que imprimiu caracteres especiaes á expressão do bello, a Arte, nas duas sociedades.

Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente conforme a perfeição da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e romano, pelas condições especiaes da sua formação, via esse ideal atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario, contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins são identicos; apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.

A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello visivel da natureza.

A religião christã exalta a alma, penetrando-a de elevado espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo dolorosamente até entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com cilicios e açoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens mundanos, absorvia-se na contemplação da belleza ideal do Eterno Espirito.

A applicação d'esta doutrina é facil e concludente. Na architectura, comparemos duas producções singulares em merito e belleza: o Parthenon e a Cathedral de Strasburgo.

O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da arte christã. No primeiro, todas as proporções e elementos foram estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma; mas a expressão é fria. O monumento não diz nada ao nosso espirito. Na segunda, pelo contrario, a belleza da expressão completa a da forma. A Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra, um cantico da religião christã.

Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!

Mas, n'essa multidão immensa de primores, não encontrou a expressão. As physionomias são de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em geral, não teem movimento. A expressão não existe, até quando as condições do acto mais a exigem. A morte não tem contracções no rosto. A lucta não manifesta a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva, conforme os sexos.

As excepções são rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe, chorando os filhos, são exemplares curiosos da expressão dos antigos estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda a parte a vida, a expressão, o movimento dos esculptores da Renascença, de que Bernini nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza de Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas modernos.

A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia intima das respectivas religiões. Na primeira, predomina a forma; na segunda sobresae o espirito. Estas observações parecem-nos fundamentaes na Historia da Arte.

CAPITULO TERCEIRO

AS INVASÕES DOS BARBAROS

O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este principio: _o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais_.

Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.

O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira _endosmose_ e _exosmose_ de idéas, que termina pela constituição homogenea das sociedades modernas.

A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos, sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo, um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica, que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a humanidade.

A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos _barbaros_, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a hegemonia ao Christianismo.

Já no tempo de Constantino hordas numerosas de _barbaros_, mais ou menos organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio de perigos previstos e tremendos.

De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando, emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do inimigo.

Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos barbaros.

Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras, repercutindo-se até ao Rheno.

Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.

Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França. Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.

Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim um facto consummado.

Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio, comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e dos visigodos.

Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.

Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e ethnicos apresentavam intimas analogias.

Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.

O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os _bardos_, como entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.

Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros, fieis aos seus chefes, estes _barbaros_, como lhes chamavam os romanos, nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da _reforma_ religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo XVI.

Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte da Europa, suas legitimas descendentes.

O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres, pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas de dons propheticos, estes _barbaros_ traziam em si o germen, que, ao calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela mulher no tempo da cavallaria.

Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os _barbaros_ eram irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos, povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora, estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos periodos romanico e ogival.

Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um precursor de Carlos Magno e como elle um _barbaro_ de genio. Educado na côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o _barbaro: cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes, uma só justiça reinará para todo o mundo_. E, todavia, os godos eram os conquistadores e os romanos os vencidos!

Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os _barbaros_ traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico, um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O _barbaro_ só vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.

O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova civilisação.

O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da fusão de principios, um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha o Santo Imperio de Carlos Magno.

PARTE SEGUNDA

OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS

V SECULO AO X SECULO

CAPITULO PRIMEIRO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO

O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi todo o seculo seguinte passara-se em invasões successivas. Hordas de barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando o que umas ás outras deixavam. As perseguições religiosas haviam cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invasões accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho não tinha socego, a agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava ameaçada e a industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de fogo, de sangue e de incerteza. Não é n'estas condições da sociedade e do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo Latino, que principiára a formar-se nos meiados do seculo IV, constitui-se lentamente no seculo seguinte.

A derrota do paganismo inutilisára os templos e mutilára as estatuas dos antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das religiões, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria dormindo sobre o campo da batalha, as religiões triumphantes occupam e apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.