A architectura religiosa na Edade Média

Part 2

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A religião polytheista perdera o prestigio e a força. As classes superiores professavam um epicurismo devasso, elegante e atheu. O povo, sem crenças, debatia-se na miseria politica e economica. Os mythos do polytheismo podiam interessar imaginações ardentes e poeticas; mas não consolavam desgraçados, que sobre a terra sentiam apenas, sem uma esperança, a rudeza do trabalho, as crueldades da dôr e o receio da morte.

Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque não faziam milagres; esses deuses alegres e devassos, que acceitavam os Cesares por collegas e o deixavam, a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais miseravel e esquecido do que as bestas das cavallariças imperiaes...

A religião precisa de milagres, como a politica de grandes e espectaculosos factos, para se engrandecerem aos olhos dos simples. Esta necessidade do espirito humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo, o honesto e bom, o illuminado pela Justiça Divina, elle, que tanto lhe repugnava fazel-os.

A philosophia oppunha ainda impotentes esforços ao desabar da sociedade romana; mas bem na essencia era tambem epicurista. Além d'isso, prégar a moral pelo valor da propria moral, dizer aos simples de espirito que a virtude tem em si o proprio premio, exaltar a humildade e a pobreza aos pequenos, quando os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres do mundo, é doutrina assás abstracta que só comprehendem os philosophos, embora ás vezes não a pratiquem. Seneca, no principio do Imperio, ensinava esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando a pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas, de que era feliz e riquissimo. A philosophia só é uma grande força, quando o exemplo acompanha a palavra.

Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia romana da Judea, manifestou-se o Christianismo. As causas efficientes d'este esplendido e profundo movimento do espirito humano não podem ser desenvolvidas e estudadas em trabalho d'esta natureza.

A egualdade entre os homens de todas as raças e condições, o amor e a fraternidade humanas enunciadas como leis supremas, a fé profunda na existencia de um Deus justo, feito á imagem e similhança da bondade e da doçura de Christo, a esperança n'uma vida eterna de felicidade e de goso, merecido premio das virtudes e boas obras sobre a terra, doce compensação dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia delicada do Christianismo desceu sobre os desgraçados, os pobres, os enfermos, os escravos, essa enorme legião de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes as almas, como a chuva fresca e crystallina levanta as cearas resequidas por longo sol ardente.

Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores, reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra, embalal-os com a visão mystica de uma vida eterna, nunca o polytheismo tivera esta linguagem eloquente, nem os philosophos e os moralistas classicos haviam professado taes doutrinas.

Devemos observar que a escravidão no mundo classico era um facto legitimo, consequencia logica das organisações sociaes. O cidadão livre dirigia o Estado, o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas e a romana, como no Oriente, professavam a divisão das castas, embora mais adoçadas. A cabeça, os braços e os pés tinham funcções hierarchicas differentes. A grandiosa estatua social repousava sobre o plintho da escravidão: se o destruissem, o colosso ruiria em pedaços.

Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente na grande e populosa Roma dos Cesares, era enorme; prisioneiros de guerra uns, outros reduzidos á escravidão hereditaria ou por varias causas, mas em grande parte da mesma raça dos senhores, ou de raças equivalentes. A escravidão moderna defendeu-se, por longo tempo, recrutando as victimas entre as raças negras ou indias da America, consideradas inferiores. O escravo do mundo antigo, recordando-se da passada liberdade, ou sentindo-se do mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem no fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma miseria humana consegue suffocar. As grandes sublevações servis, principalmente a ultima de Spartaco, um seculo antes de Christo, confirmam estas observações.

A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperança e de bondade, era tambem de molde para suggestionar a alma da mulher, incutindo-lhe a fé e o ardor do proselytismo. O espirito feminino é um instrumento perfeito e delicado. A natureza creou as mulheres para nossas amantes e mães, as duas expressões mais finas e elevadas dos sentimentos humanos; por isso, se não lhes concedeu outros em larga escala, as notas da alma feminina são n'estes de deliciosa finura, ás vezes incomprehensivel para os homens vulgares.

A mulher classica estava bem longe de ter subido ao logar elevado, que depois lhe deu o Christianismo no seio da familia. A grega vivia isolada no _gyneceo_, leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada sujeita ao marido, como os filhos ao patrio poder.

O divorcio entre os antigos era um facto corrente e facil; ora, a mulher sente que o seu logar é na familia. O adulterio, crime horrendo para as mulheres, soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher classica era, em summa, uma serva, uma filha, uma forma de propriedade do marido.

O Christianismo tornava-a companheira e egual ao homem. Christo dissera que o casamento na terra se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera e, um dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo a prostituta no doce manto do seu amor, glorificando-a perante os homens e salvando-a perante Deus.

O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva, que entendem logo os simples e as mulheres.

Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christão é riquissimo em martyres femininos. A mulher morre pela religião de Christo com a fé e a resignação, diremos mais, com a vontade e a energia do homem. É um facto singular d'este bello e grandioso movimento do espirito humano.

O polytheismo era a religião da forma e da belleza, cheia de mythos absurdos e incomprehensiveis, religião de culto externo, secca philosophia encarnada em symbolos obscuros. O Christianismo era a religião do espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos adoraveis, religião de culto interno, moral clara e divina que Jesus Christo expozera com phrases singelas no bello sermão da montanha.

Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual a religião do futuro e constituiria o patrimonio da humanidade; que a piedade valia mais do que o sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos. Nós vemos hoje realisada a grande obra de Christo. Os prophetas viram o futuro a quarenta seculos de distancia!

Assim, se explica como o Christianismo teve uma expansão enorme, apenas começou a ser evangelisado entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do Imperio. O _meio_ estava preparado, a doutrina era excellente.

Os que soffriam os males de espirito, os que padeciam as doenças da carne, os pobres, os enfermos, as victimas da sociedade classica, affluiam ás catecheses, bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual do Verbo Eterno.

A diffusão da religião christã em Roma, logo nos primeiros annos, constitue um facto assombroso na historia do proselytismo. Já no anno 64 de Christo, o grande incendio, que devorou parte importante de Roma, pôde ser attribuido á malevolencia dos adeptos das novas idéas, considerados conspiradores contra o Imperio e gente de costumes suspeitos e mysteriosos. Nero iniciou as perseguições, o que demonstra o espirito que reinava em Roma e o numero avultado de christãos, que impelliam os poderes constituidos a extinguil-os pela força e pela violencia.

Os melhores imperadores romanos, assim considerados ainda hoje pelo genio politico e pelo caracter pessoal, foram os maiores perseguidores dos christãos. Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram as perseguições pelas vastas provincias do Imperio. O sangue correu em jorros, sem distincção de edade e sexo. A lucta foi terrivel e desegual entre as idéas classicas, que então representavam a ordem, e as idéas christãs, innovações perigosas e immoraes, segundo a critica do tempo. Os primeiros tres seculos do Christianismo constituem o periodo brilhante dos martyres, cujo sangue cimentou a _pedra_, sobre a qual Jesus Christo fundára a sua Egreja.

As perseguições não foram simples actos de crueldade, como o suppozeram os christãos, que depois imfamaram os imperadores, fazendo a historia a seu modo. Eram actos politicos; ora, a politica de força e de violencia confunde-se com facilidade com a violencia de odios e de crimes. Eis o que explica a furia singular e ardente dos bons imperadores romanos contra o Christianismo.

O poder em exercicio é sempre conservador por natureza e essencia; deve sel-o até, entre certos limites, por deveres de responsabilidade. O Christianismo apresentava-se como uma revolução nos espiritos, a transformação radical da religião pagã em que se fundavam as sociedades classicas. A consciencia da egualdade e da liberdade humanas atacava a intima essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe a politica e feria de morte os principios da sua organisação economica.

O despotismo repousa sobre a passividade dos cidadãos, precisa d'elles inertes de vontade, movendo-se como automatos sob rigida disciplina, ás ordens respeitadas e não discutidas do poder supremo. É a lei da constituição do despotismo, que seguiu mais tarde Santo Ignacio de Loyolla, quando pretendeu oppor a terrivel machina de guerra, a Companhia de Jesus, aos progressos da Reforma.

O Christianismo creava homens livres e conscientes; embora o seu espirito mystico tendesse infelizmente a destruir as qualidades civicas, o _civismo_ a virtude das sociedades classicas. Além d'isso, o Cesar-Imperador era o _pontifice-maximo_, poderiamos dizer o papa da religião pagã. O Christianismo atacava-o nas duas principaes origens do poder despotico, fazendo sair do marasmo e da podridão o espirito humano e matando-lhe a influencia religiosa sobre milhões de individuos. É verdade que Jesus Christo dissera: _dae a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus_; mas... dissera-o sorrindo...

Estavam, pois, gravemente ameaçadas as grandes forças do Imperio; a segunda, a organisação religiosa, condemnada sem remedio e talvez fosse a principal. Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros tempos do seu reinado; mas só se baptisou alguns dias antes de morrer. O grande estrategico-politico, usando da força do Christianismo, apoiando-se n'elle, não abdicou o cargo e a importancia de _pontifice-maximo_, isto é, a influencia sobre o paganismo, senão nos ultimos momentos da sua vida.

Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas doutrinas, uma representando o mundo antigo, outra que trazia em si o germen das futuras sociedades. Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!

O Imperio Romano, o maior poder que até hoje viu a terra, e o paganismo, que formára tantas civilisações e creara a philosophia, a sciencia e a grande arte classicas, esses dois colossos, dispondo de tudo que tem força e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto terrivel para esmagar o verbo simples e verdadeiro de um judeu desconhecido da Gallilea. E a força e o poder cairam vencidos pela Idéa!

Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado de poucos discipulos, pronunciára a sentença da destruição do paganismo, quando do alto da montanha, com voz doce e suave, annunciou á Humanidade o bello preceito: _Amae a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a vós mesmo_.

A revolução estava feita. Christo foi a encarnação da Idéa, que então correspondia ás necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e preparava os seus futuros destinos.

Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!

CAPITULO SEGUNDO

OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO

Pelas razões expostas no precedente capitulo, era muito difficil e perigosa a situação do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes perseguições repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar a força e a sympathia da opinião publica pagã, exigindo d'elles as violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No intervallo d'estas exacerbações de odios, a desconfiança e a vigilancia insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christãos, que, aliás, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos pobres e obscuros, sem força alguma na politica e na administração do Imperio.

Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestações visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, até ao reinado de Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres seculos. A ultima e mais formidavel perseguição foi ordenada por Diocleciano no anno 303 da éra christã. A tetrarchia, que então governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguição, estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor que manifestam sempre as medidas extremas de salvação publica.

Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos ignorantes, que constituia a associação christã, não tinha qualidades, nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem decadentes n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre perigos e miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.

O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia depender tanto a felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos dos crentes. O mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no Christianismo nascente.

Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados inimigos da sociedade pagã, não podiam construir templos, nem ter formas publicas de culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da Arte, que nos seculos futuros produzirão phases artisticas de grande valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o ardor da propaganda e o espirito da religião lhes consentissem o culto pagão da forma.

A religião precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem a fé e incitarem a esperança. Sem a communidade dos fieis, a religião toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem vigor de propaganda, porque as multidões, ligadas pela mesma idéa, teem em si o condão singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma que a leva até ao sacrificio.

Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas essas reuniões eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos. Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente, não devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a communicação dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e simples.

A estas necessidades correspondiam as _catacumbas_, vastos subterraneos que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religião christã em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a acção da Idéa Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas sociedades pagãs.

O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas _catacumbas_, a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma lampada, sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a fé e a esperança, doces e profundas, que os seus _irmãos_ em Christo, de ha dois mil annos quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admissão de neophytos e para as praticas religiosas.

N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo. Enthusiasmou-se com a fé simples e primitiva, nutriu a esperança firme e serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado d'esses primeiros seculos do Christianismo.

Galerias sinuosas e extensas de secção regular, um metro por dois metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.

Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados por lapides; mas hoje, abertos e negros á luz vacillante da lampada, essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se vêem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e morreram ha quasi dois mil annos.

De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se, ou convergem umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada natural. São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S. Calixto, existe n'estas condições uma grande sala de forma rectangular, que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fóra por longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto é, da liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices do terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra de esculptura archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros beatificados ou santificados pela Egreja.

Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepõem-se ás vezes em dois e tres andares e, se é verdadeira a affirmação, estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.

O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou ás catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de veneranda tradição, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns christãos mais afamados, as catacumbas soffreram modificações na anterior disposição. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados _luminarios_, que deixam passar luz de fóra, tenue e duvidosa, e _arcocelios_ que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras parecem de caracter posterior á emancipação do Christianismo e a logica leva a crel-o.

Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes sombrios subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos cada vez mais numerosos _de homens de boa vontade_ construiam os alicerces das modernas sociedades.

É evidente que até ao seculo IV os christãos, sob a acção da vigilancia pagã, não podiam construir templos. A architectura christã, pelo menos, nasceu depois d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peças difficeis de trabalhar dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fóra, por longos corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguições, que o eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.

A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é de crer, em esculpturas grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as desfeito o tempo. Além d'isso, não nos parece facil distinguir hoje o que foi feito no tempo das perseguições, ou depois da liberdade do Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares santos e concorridos pela veneração dos fieis.

Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a acção dos artistas christãos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros, verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religião, outros creados, como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo, é um emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas: _Jesus Christo, Filho de Deus, Salvador_.

Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e ás vezes Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperança; o ramo de oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se encontram nos costumes da Egreja e na tradição dos povos christãos.

Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira arte; muito embora nas primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados; a tradição santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo da evolução da Arte.

Taes eram as condições sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões gaulezas.

O grande periodo da Edade-Media vae começar em breve. O poderoso Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christão coroado, parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evolução e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de Arte.

Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na unidade e na organisação do Imperio, que elle creou com admiravel energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus demonstram-lhe o valor: a protecção concedida ao Christianismo e a escolha da situação de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois factos, além de influencia enorme sobre a conservação do Imperio, tiveram acção profunda e decisiva na evolução social da religião e das artes christãs.

É evidente que esta evolução tinha de existir, porque, já antes do reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, não podia ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de caracteres secundarios differentes. Os grandes homens não conseguem crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em determinado caminho, de entre os variados de que dispõe a natureza e o espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do bem, do bello e da justiça.