A architectura religiosa na Edade Média

Part 15

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A construcção do Mosteiro da Batalha começou, pois, quando no continente o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo, erguiam-se em Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo bem menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da Batalha com a da arte ingleza parece-nos assás caracteristica; outras rasões ha, porém, que ainda mais apertam estas relações.

Em assumpto tão delicado procuremos a opinião de um mestre inglez, bem conhecido historiador da arte. «Nós não encontramos, tambem, em Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e encimados de grande rosaceas, que se vêem nas Cathedraes de Strasburgo, Reims, París, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de Exester. Por toda a parte--em Inglaterra--o portal e a rosacea são substituidos por uma porta e uma janela sem proporção alguma entre si, a porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»

Não multiplicamos as citações para evitar longa exposição e porque esta nos parece caracteristica.

Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja está orientada, como era costume, voltando a capella-mór para o oriente, encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na ultima. Outras similhanças se manifestam nos caracteres do coroamento e da ornamentação, que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de maineis; só duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e essas talvez não sejam primitivas.

Uma observação fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpções e pelos factos historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a feição, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenças nas respectivas linhas geraes.

Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou, depois, a seguinte opinião de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em Portugal é bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio, a soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal analogia com a Cathedral de York, que não me restou duvida sobre a origem commum d'estes edificios».

Ora, deve notar-se que este grande critico da arte não podia ter presumpções fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos portuguezes, que o levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.

É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem já falámos e a quem Raczynski se refere, no seu livro _Viagens em Portugal_, diz que Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspiração de architectos, ou pedreiros livres--_franco-maçons_. Havendo, tambem, acrescenta Murphy, recebido informações de empregados dos archivos de Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.

«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior acção na escolha do architecto. É fóra de duvida que Stephen Stephenson fazia parte dos _free and accepted masons_, cujo centro em Inglaterra era York--_grand-loge of free masons at York_.» Esta observação valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente para lhe formar a opinião das parecenças, visto que lhe faltavam outros elementos.

A affirmação de Murphy póde ser contestada; d'ella se conclue, porém, embora implicitamente, que o architecto inglez encontrára os caracteres do Estylo Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha, aliás não acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.

Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro é do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta conclusão.

Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de York, levada a effeito pelos _franco-maçons_ da loja-mestra d'aquella cidade, começou cêrca do anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves, transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha, havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas não só a influencia directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam até esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos _franco-maçons_ d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. João I para o executarem.

Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta presumpção. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos ogivaes são perfeitas adulterações das palavras correspondentes inglezas, por exemplo: o _maynel_, ou pinazio das janelas, traduzido por _mainel_, o _butress_ transformado em _botareos_, a _gargoil_ em _gargula_. Estes termos, pelo menos, são de origem ingleza.

Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre outros termos especiaes, os _rails_, carris, traduzidos pelo portuguez popular em _ralhes_ e as _sleepers_, travessas, transformadas em _chulipas_. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso ver, que na primitiva construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que deviam ser de York, pertencentes á grande corporação _franco-maçonica_, que levantou a grande cathedral d'esta cidade.

Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada presumpção. É impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente interessam o presente assumpto.

As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação diplomatica permanente, Portugal tinha n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a historia conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Lourenço Annes Fogaça.

Eduardo III, o pae do celebre _Principe Negro_, acabava de crear condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi independente: o de Leicester, para João de Gaunt, e o de York, para Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo approximava-se do fim a construcção da grande cathedral, que passa por ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.

Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em começos de 1386 chegaram a Portugal emissarios de João de Gaunt, duque de Leicester, annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o casamento de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.

A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as communicações eram difficeis, demonstra as relações intimas e constantes das duas côrtes. É, pois, natural que D. João I, informado pelo duque de Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria já por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses _celebres architectos e officiaes de cantaria de longes terras_, de que fala Frei Luiz de Sousa.

Esta presumpção é logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor que D. João I não falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor não se referisse á Cathedral de York. É muito provavel, portanto, haverem sido encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construcção. A proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta resolução.

De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar simples coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, já desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel valor.

Ora, não existe duvida alguma em que architectos e operarios da loja-mestra _franco-maçonica_ de York foram os constructores da grande cathedral; portanto, é rigorosamente logico e muito natural que a essa corporação se fossem buscar os elementos para a construcção do Mosteiro da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra não houvesse, daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.

É, além d'isso, muito provavel que as associações _franco-maconicas_ fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituições similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim não aconteceu, manifesta-se ainda provavel que estas associações _franco-maçonicas_, creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens, se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do _védor_, ou fiscal das obras, Fernão Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte. Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro _védor_ real das obras do Mosteiro da Batalha.

De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta, segundo pensamos, a plena convicção de que o Mosteiro da Batalha, sendo do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e operarios inglezes, que faziam parte da associação _franco-maçonica_ da grande-loja de York.

[Figura: CONVENTO DA BATALHA--Planta geral.

LEGENDA

PRIMEIRA EPOCHA

1 EGREJA.

2 CAPELLA DO FUNDADOR.

3 SACRISTIA.

4 THESOURO.

5 CLAUSTRO PRINCIPAL.

6 CASA DO CAPITULO.

7 PONTE OU LAVABO.

8 REFEITORIO.

9 COZINHA.

10 ADEGA E DISPENSA.

11 PORTARIA.

SEGUNDA EPOCHA

12 CLAUSTRO DE D. AFFONSO V.

TERCEIRA EPOCHA

13 VESTIBULO.

14 CAPELLAS IMPERFEITAS.]

CAPITULO TERCEIRO

AS EPOCHAS DA CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO

Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em epochas differentes. Depois da extincção das ordens religiosas, esteve o Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta á acção do tempo e ás grosseiras depredações, praticadas pela ignorancia popular.

Mais tarde, quando começaram com algum methodo e continuidade as obras de conservação e restauração dos edificios, uns foram arrasados como inuteis, porque formavam as arruinadas pertenças do convento, e outros para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.

Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles construidos. Na planta procurámos distinguir estas epochas, dando tons diversos ás construcções respectivas existentes. Assim, temos:

1.^a Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligações, a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o refeitorio.

2.^a Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns dos antigos annexos.

3.^a Epocha. Abrange, apenas, as chamadas _capellas imperfeitas_, que mais rigorosamente se deveriam denominar _incompletas_, porque o nome lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo vestibulo.

Da historia dos edificios da primeira epocha já nos occupámos nos anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo Ogival. Não será, todavia, longa e escusada digressão, determo-nos um pouco na apreciação dos edificios das outras epochas.

Os edificios da segunda epocha eram assás vulgares; apenas o claustro chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece algum valor architectonico. É do Estylo Ogival, muito espaçoso e simples, não manifestando ornamentação alguma, nem até nos proprios capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas linhas geraes são agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de centro ás pertenças do convento, que principalmente para elle abriam.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construcção d'este claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Fernão de Evora. O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de 1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenças conventuaes, a respectiva construcção deve ter acompanhado de perto a dos edificios da primeira epocha.

Os edificios da terceira epocha reduzem-se ás _capellas imperfeitas_ e ao respectivo vestibulo, que são peças de elevado valor architectonico, onde a primeira physionomia do Estylo da Renascença se desenha com excessiva nitidez e se accentua, á medida que a ornamentação se manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios e successivos periodos de construcção.

Julgamos indiscutivel que este conjunto é obra do reinado de D. Manuel, que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul, vê-se em logar superior o caracteristico _E_, letra do nome d'este rei, Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal têem dado tratos á imaginação dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas em caracteres romanos: _perfectum fuit anno domini 1509_. Ora, é mais do que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e parallelamente com a elevação das paredes das capellas.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, não sabemos com que criterio, que esta data corresponde á suspensão das obras. Julgamos infundado este asserto. Não é natural nem logico suppor que a suspensão se désse n'esse anno, quando D. Manuel no seu testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu successor que as mande acabar.

N'este documento, com effeito, lêem-se textualmente os seguintes periodos: «item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme á outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias: El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D. Affonso meu thio, e El-Rey D. João, que Deus aja, e o Principe D. Affonso, meu sobrinho».

As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D. Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois adoptou, quer lhe lançasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e muito mais tarde, começaram a crescer os edificios. Em nossa opinião só a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, não só porque o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte, principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.

N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a evolução da arte não manifestára ainda os primeiros symptomas da renascença. Além d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a Fernão Rodrigues, védor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta presumpção. O principe não teria deixado de referir-se ás obras das capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria iniciativa. A construcção devia, pois, estar parada e ter ainda pequena importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou de simples plano.

Todas estas presumpções são fortalecidas por outras rasões, que seguidamente vamos adduzir, muito embora não pretendamos alongar esta exposição e fazer detida descripção d'esta parte do Mosteiro.

A grande porta das _capellas imperfeitas_ é uma das melhores, das mais ricas e bellas, se não a melhor que temos visto até hoje, fóra e dentro do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia, de ornamentação e de execução; mas um architecto ogival não a poderia ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente concepção do artista, fosse elle quem fosse, já estava fortemente aquecida pela renascença e enthusiasmada pelas glorias das viagens portuguezas ao Oriente. Sente-se, vê-se isto n'aquellas pedras, quasi cinzeladas.

Sem a pretensão de descrever, o que é indescriptivel sem o auxilio de planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para o vestibulo, a de ornamentação mais sobria e pura, as molduras da porta estão, de cima até abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis encadeados, em cujos espaços circulares se lêem caracteristicas legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lêem-se em caracteres gothicos as palavras gregas: _pante taray_. Nos anneis mais pequenos repete-se sempre outra legenda, tambem em grego: _tanyas erey_.

Sem falarmos nos erros orthographicos, que provêem de se empregar muitas vezes n'esse tempo o _y_ por _i_, estas legendas completam-se na symbolica e imperativa phrase: _depressa por toda a parte descobre regiões_. É o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!

Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de physionomia. Os rendilhados assumem proporções phantasticas. A pedra parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em sandalo e marfim!

Se é licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta ornamentação, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da primeira epocha para os das _capellas imperfeitas_. Que nos perdoe o poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!

Ora, se é possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem simultaneamente com as do recinto das _capellas imperfeitas_, duvida que aliás para nós não existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual supposição ácerca da porta monumental, que dá entrada _unica_ para este recinto.

Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em começos do seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta monumental de accentuada renascença, com indiscutiveis influencias orientaes na ornamentação e nas legendas, excepcionalmente escriptas em lingua grega!

No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda sensivelmente. Até á altura das janelas em começo, a influencia ogival ainda é profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres da renascença. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma bella janela accusa já fortemente a renascença italiana, que aliás se manifesta na ornamentação geral d'esta parte superior do edificio. Aos espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construcções sobrepostas, realisadas por architectos differentes[9].

De facto, parece que depois da interrupção da construcção das _capellas imperfeitas_, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento. Assim, D. Sebastião, para continuação dos trabalhos, mandou dar em 1574, pela Casa da India, 400$000 réis annuaes, impostos sobre o contrato da pimenta. Já n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este imposto pouco ou nada produziu; mas isto não prova que o mesmo rei não concedesse outros fundos para esta construcção, que lhe mereceu as attenções. Depois, em 1591, Filippe I--o celebre _demonio do meio dia_--mandou fazer o orçamento, como se diria hoje, para terminação das _capellas imperfeitas_; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde mal dava para a grandiosa obra da construcção do Mosteiro de S. Lourenço, no Escurial.

Seja como for, a parte superior das _capellas imperfeitas_ pela feição especial do seu estylo parece-nos de construcção posterior á outra parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.

Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevação d'este edificio, na situação onde se encontra, foi um grave e irremediavel erro, que se tornaria monstruoso se a construcção tivesse sido finalisada e posto em directa communicação o pantheon dynastico com a egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta fórma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as communicações directas só podiam ser rasgadas, ou na abside central, a capella-mór, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando completamente a bella egreja ogival.

Ainda no estado actual as _capellas imperfeitas_ prejudicam muito a luz das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, tão procurados pelos architectos da edade media.

Pensar em demolir as _capellas imperfeitas_, dado o seu grande valor historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que devem ser respeitadas.

Eis em rapidos traços a summaria enumeração das construcções da terceira epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripção do Mosteiro, que não ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno nos houvessemos poupado.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja]

CAPITULO QUARTO

DESCRIPÇÃO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA

--Estylo Ogival--

Por ordem logica, deveriamos, talvez, começar pela descripção exterior das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro á nossa observação; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel bem avaliar e estudar uma construcção, sem previamente haver formado clara idéa das disposições geraes da respectiva planta.

I

Plano geral dos edificios ogivaes

_Egreja_. Está orientada, como era costume, na direcção leste-oeste, correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes polychromicos. A absurda escolha do local para a construcção das _capellas imperfeitas_ inutilisa, em grande parte e sem remedio, este effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e ogivaes.