A architectura religiosa na Edade Média

Part 14

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Assim, por exemplo, o Alhambra de Granada com o seu lindo pateo dos Leões, um primor da arte arabe, visto em gravuras causa grande impressão, que é modificada depois de visitado, por effeito da pequenez do recinto. O aspecto é encantador, de certo; mas falta-lhe a solemnidade das dimensões. Os porticos do pateo dos Leões, formados de pequenas columnas cujos capiteis mal excedem a altura elevada de um homem, offerecem mesquinho aspecto. O nosso espirito procura augmentar tudo aquillo, alargar-lhe as dimensões, dar-lhe, emfim, grandeza e com ella a solemnidade.

Já o mesmo não succede na antiga mesquita de Cordova, transformada em Cathedral. Se o edificio é baixo, como em regra o eram os do Estylo Arabe, as vastas alamedas de columnas, ligadas por dois arcos sobrepostos e cortando-se perpendicularmente em enorme superficie, dão-lhe um aspecto original e grandioso. Outro tanto não poderemos dizer da Sainte Chapelle de Paris, riquissimo exemplar do Estylo Ogival, mas tão pequeno e rendilhado que faz nascer a idéa de estarmos dentro de um riquissimo e gigantesco cofre cinzelado. Taes são as impressões, que produzem, pelo menos no nosso espirito, estes dois pequenos monumentos: o arabe e o christão.

Assim, as condições excepcionaes do Mosteiro da Batalha, quer em relação á nossa riqueza artistica, quer pela sua elevada classificação entre os monumentos do Estylo Ogival, obrigam-nos a estudal-o mais detidamente, procurando, se for possivel, fixar a seu respeito doutrinas e opiniões, que ainda nos parecem pelo menos incertas e confusas.

_Origem e data da construcção._--No momento critico, em que a batalha de Aljubarrota, dada em 14 de agosto de 1385, esteve perdida para os portuguezes, D. João I e o seu grande condestavel Nuno Alvares Pereira faziam, talvez ao mesmo tempo, o voto de edificar um templo ao Deus dos Exercitos, porque só elle os podia salvar n'esse terrivel transe. A victoria dos castelhanos teria sido, com effeito, a perda irremediavel do pequeno reino de Portugal, visto que as condições politicas do tempo eram differentes das de 1640.

Os votos dos dois poderosos senhores foram entre nós origem de duas construcções ogivaes. O espirito religioso da Edade Media produziu estes resultados em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas da grande dispersão do Estylo Ogival por todo o orbe christão no periodo do feudalismo, que aliás em rigor não existiu entre nós.

O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos de Aljubarrota o Mosteiro de Santa Maria da Victoria, o condestavel elevando em Lisboa o templo do convento, onde em vida mystica passou os ultimos annos da sua existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto de 1755, é conhecida pelo nome de Ruinas do Carmo.

A data do começo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha não é facil de fixar. Os archivos do convento, como aconteceu com os de muitos outros, foram dispersos e roubados, principalmente depois da revolução constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos quaes se póde definir com muita probabilidade esta data e o periodo da construcção.

Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei D. João I fez doação do convento á Ordem de S. Domingos. É, pois, natural que n'esta data os trabalhos estivessem começados e parte do convento, pelo menos, em estado de receber os frades. O cardeal patriarcha de Lisboa, D. Francisco de S. Luiz, auctor de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da Batalha, homem instruido que viveu durante alguns annos no convento e pôde ainda consultar os archivos mais ou menos completos, manifesta a opinião de que o edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais cedo no anno precedente.

A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres e operarios habeis, principalmente para obra de estylo grandioso e rico pouco cultivado entre nós, exclue, a nosso ver, o curto espaço de um anno entre o voto e o começo da construcção. Além d'isso, frei Luiz de Sousa, o chronista do Mosteiro, cuja descripção constitue um primor de estylo e linguagem do tempo, frade no proprio convento, na sua _Historia da Ordem de S. Domingos_ escreve estas phrases: «com as armas ás costas--D. João I--revia traças, consultava architectos, buscava officiaes e, ganhando por uma parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra edificando paredes sagradas. E foi assim que já havia tres annos que a obra do Mosteiro corria, quando, estando de cerco sobre o castello de Melgaço, assentou de o dar á ordem de S. Domingos».

Esta citação demonstra a vida agitada do monarcha e o seu cuidado em buscar architectos e artifices para a realisação do voto, mas em parte está evidentemente incorrecta, porque, datando a doação do convento de 1388, não podia a respectiva construcção ter já n'essa epocha tres annos, visto que tambem tres annos antes se ferira a batalha de Aljubarrota.

Por estas rasões, corroboradas por outras que exporemos em logar competente, somos levados a fixar o começo dos trabalhos em 1387 e com grande probabilidade a suppor, em harmonia com o espirito peculiar dos votos, que foi escolhido para este acto o dia do anniversario da victoria sobre os castelhanos, 14 de agosto.

_Periodo da construcção._--O conjunto do Mosteiro, como existiu outr'ora porque depois parte do convento foi arrasada para desaffrontar o monumento, deve ter sido construido em tres epochas differentes.

A primeira epocha abrange os edificios principaes, como a egreja, a capella do fundador, o claustro, a sacristia, o refeitorio e a casa do capitulo. Estes elementos, os de maior valor, constituem uma parte monumental do Mosteiro e são do melhor e mais puro Estylo Ogival, embora em pontos muito secundarios offereçam vestigios da renascença manuelina.

A segunda epocha comprehende um outro claustro, denominado de D. Affonso V e os antigos annexos do convento.

A terceira epocha envolve as _capellas imperfeitas_ e o respectivo vestibulo.

Occupar-nos-emos, agora, só dos edificios da primeira epocha, porque os da segunda e os da terceira serão succintamente apreciados em um dos seguintes capitulos.

Uma das impressões profundas, que á simples vista produzem logo os edificios ogivaes da primeira epocha, é a sua perfeita harmonia e unidade, tão completas que no nosso espirito se radica a opinião de que o conjunto teve planos estudados e realisados por um só architecto. Esta impressão é manifestada por todos os homens versados no assumpto. Citaremos dois.

Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou em Portugal e visitou o Mosteiro da Batalha, onde fez estudos desenvolvidos, publicou dois livros conhecidos, um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro, acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto escreve ácerca dos edificios, agora considerados: «no todo vêem-se tal correcção e regularidade que apparentemente parece ter sido o resultado de bem concebido plano original e, ao mesmo tempo, é evidente que este plano foi seguido e executado em progressão regular, sem as alterações e as interrupções a que estão, em geral, sujeitas estas grandes construcções».

Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho de Albuquerque, que durante longo tempo dirigiu as primeiras obras de restauração do Mosteiro, distinguindo-se nas dos vitraes, observa, em memoria que corre impressa, terem todos os edificios da primeira epocha paredes communs e directas communicações. Esta observação indica que a construcção não podia deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano geral definitivo, organisado sob as vistas harmonicas em concepção e estylo de um architecto, ou pelo menos de poucos animados do mesmo espirito.

Além d'isso, demonstra que os edificios deviam ter sido construidos em curto praso. Com effeito, vimos que nas grandes cathedraes do periodo ogival faltam em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos periodos de construcção, ás vezes abrangendo seculos, muitos architectos se seguiram na direcção das obras e, durante tão largos espaços, o _meio_ social e o gosto artistico tiveram tempo de se transformar sensivelmente, influindo sobre a unidade e a harmonia dos monumentos. Nos edificios considerados do Mosteiro da Batalha não se deve ter dado este facto. Eis o que resulta da simples observação; ora, os documentos e as presumpções positivas demonstram esta verdade, por fórma irrefutavel.

No testamento de D. João I, feito em 1426, lêem-se em relação ao estado do edificio as seguintes phrases: «que o Mosteiro se acabe de Crasta, casarias, e de todolos outros edificios, que a bom comprimento do dito Mosteiro forem necessarios». Anteriormente, no mesmo documento, El-rei designa para sua sepultura a _capella-mór_, onde jazia a rainha D. Filippa, sua mulher, ou _na outra que Nós ora mandamos fazer, depois que for acabada_. Cotejando estas duas citações devemos concluir que a egreja estava quasi acabada em 1415, anno da morte de D. Filippa, porque o respectivo epitaphio refere a trasladação do corpo da rainha para o Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.

Assim, comparadas estas datas, é ponto incontroverso que em 1416 a egreja se achava terminada e estavam em adeantada construcção o claustro principal e a capella do fundador; portanto, tambem o deviam estar a casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia, como corpos annexos e por necessidade do proprio desenvolvimento das obras.

D. João I morreu em agosto de 1433. Seu filho, D. Duarte, continuou os edificios, já muito proximos do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz transcreve uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal, em 10 de maio de 1436, a Fernão Rodrigues, _védor_ das obras--sublinhamos propositadamente o cargo--dizendo-lhe: «vimos a carta que nos escreveste pelo Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que dizeis que eram ordenadas por El-Rei, nosso Senhor que Deus haja, que se fizessem logo n'esse Mosteiro e que quereis saber o que n'este caso havemos por bem que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da fonte dos valles, ou da jardoeira, ou da calvaria para o lavatorio do dito Mosteiro».

As expressões d'esta carta provam que em 1436 a construcção tocava o fim, porque o lavatorio, a que evidentemente se refere D. Duarte, é a bella fonte de excellente estylo, abrigada no pequeno pavilhão, construido n'um dos angulos do claustro principal e fazendo parte integrante da respectiva construcção.

A exposição das opiniões de ordem technica e a comparação dos documentos historicos, que acabamos de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese de que todos os edificios da primeira epocha foram construidos e terminados, pelo menos nos seus elementos principaes, de 1387 a 1433, isto é, no periodo de quarenta e seis annos.

Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se duvidas de caracter muito secundario e facilmente explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a esphera armillar, emblemas manuelinos, existentes nos tecidos rendilhados dos tympanos de alguns arcos do claustro principal. É evidente que estes elementos podem ter sido feitos posteriormente, porque não eram indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso, é muito possivel que provenham de restaurações, visto que a pedra empregada nos edificios é branda em excesso e, nas peças finas e rendilhadas principalmente, mostra-se muito sensivel á acção corrosiva do tempo.

CAPITULO SEGUNDO

O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO

Quando tratámos dos Estylos Romanico e Ogival, expozemos as rasões pelas quaes os nomes dos architectos d'esses periodos eram pouco conhecidos. Tambem o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi geral; todavia, é assumpto muito interessante esta investigação, que, ao mesmo tempo, nos esclarecerá, sobre varios pontos historicos e technicos do nosso primeiro monumento ogival. Ouçamos os documentos; depois virão as deducções geraes e os argumentos de ordem technica. Veremos se é possivel lançar alguma luz n'estas densas trevas.

«D. João I chamou de _longes terras_, escreve frei Luiz de Sousa, os mais celebres architectos que se sabiam, convocou de todos os pontos officiaes de cantaria destros e sabios; convidou uns com honras, a outros com grandes partidos, obrigou a outros com tudo junto. Á voz da grandeza da obra acudiu de _todo o mundo_ numero infinito de peonagem a servir e trabalhar e ganhar jornaes--que este bem têem as grandes obras, manter muitos pobres».--E n'outro ponto faz notar que os religiosos não eram chamados a dar voto, nem traça, nem ordem nas obras, «unicamente dirigidas por officiaes reaes».

Estas affirmações na bocca de um escriptor grave, eminentemente nacional, que devia ter ao seu alcance os archivos e conhecer as tradições oraes monasticas do Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva auctoridade. Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento; attesta-o a magnifica descripção que d'elle fez na sua grande obra, escripta no principio do seculo XVII, isto é, cerca de duzentos annos apenas depois da construção do Mosteiro. Se os archivos do convento já não existiam, havia a tradição oral, admissivel em tão curto espaço de tempo, principalmente n'uma associação monastica. Frei Luiz de Sousa não cita o nome do architecto; mas escreve expressamente que foram chamados de _longes terras_ os mais celebres architectos; ora, n'este caso, a expressão designa nações estrangeiras. Esta interpretação não póde soffrer duvida, porque o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal acudiu de _todo o mundo_. A declaração é expressa.

Por outro lado, José Soares da Silva, nas _Memorias de D. João I_, affirma que n'outra memoria do dominicano Antonio de Madureira se dizia ter sido o primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez chamado David Aquete, que então vivia em Vianna do Castello. Debalde procurámos encontrar esta ultima memoria, ou determinar a data em que existiu este frade dominicano, o que poderia constituir valioso subsidio para a resolução do problema; todavia, parece-nos dever concluir d'estas citações que, entre os frades dominicanos, passava por averiguado ter sido estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.

O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por vezes exagerado, não teria por certo deixado escapar a occasião de enaltecer o nome nacional com a gloria da creação de monumento, que em todos os tempos foi profunda e geralmente admirado.

Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo. Murphy, fundando-se na asserção de Soares da Silva, anteriormente citada, traduziu Aquete--fórma portugueza--pelo nome inglez, que sonicamente lhe corresponde, escrevendo Hakett, appellido irlandez por signal. D. Francisco de S. Luiz critica este procedimento do architecto inglez, que aliás teve tambem outros motivos technicos importantes para acceitar a origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o exagerado. E como se não bastasse este triste argumento, accrescenta, com incrivel arrojo, que n'esse tempo da construcção do Mosteiro eramos a nação mais adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando apenas a Italia!

Ora, n'este ponto, o Cardeal, aliás erudito e grave, demonstrou pequenos conhecimentos, porque não só no ogival a Italia nunca teve a primazia, mas n'essa epoca já a França, a Allemanha, a Inglaterra e os Paizes Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais puros estylos, não falando nas outras artes.

Em contraposição a estes indicios, cujo valor é incontestavel, temos a opinião de frei Manuel dos Santos, que diz chamar-se o mestre da obra Affonso Domingues, natural de Lisboa, morador na freguezia da Magdalena, homem digno de eterna memoria pela capacissima idéa, com que delineou a fabrica. Devemos observar que este chronista do seculo XVIII, pela sua posição official, não nos deve infundir grande confiança em questões patrioticas. Além d'isso, estudou tão mal a questão que, linhas abaixo, escreve haver-se executado a construcção do Mosteiro de 1385 a 1388, o que era em absoluto impossivel no curto espaço de tres annos, confundindo assim a data da doação do convento, feita por D. João I, com a do fim dos trabalhos.

D. Francisco de S. Luiz, como é logico, acceita esta versão e dá-lhe certa plausibilidade. O futuro Cardeal Patriarcha de Lisboa estivera por muito tempo no Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e consultou os archivos, existentes no principio do seculo passado, colhendo preciosas informações sobre os seus successivos architectos, pintores e vidraceiros, nomes que hoje estariam perdidos, se não fossem o zêlo e a curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos do archivo, este escriptor viu um de 1402, que se referia a Affonso Domingues e já o dava por fallecido n'esta data. Como os trabalhos haviam começado em 1387, segundo a nossa opinião, este architecto, se o foi, podia bem ter sido o primeiro, ou um dos primeiros do Mosteiro da Batalha; não se devendo concluir d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor do plano primitivo, que bem poderia ter vindo de _longes terras_. Em todo o caso a observação tem valor.

Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida. Um grande architecto não se forma isoladamente. No gabinete estuda-se a arte, que se pratica depois. A imaginação, a sciencia da construcção, a firmeza do estylo, emfim, as grandes qualidades de um architecto, se dependem do proprio genio, desenvolvem-se pela pratica e, sobretudo, pela influencia do _meio_.

O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro valor architectonico, a não ser do Estylo Romanico e d'esse bem pobre e pouco? O que estava em construcção, onde se aquecesse e formasse o seu genio?

Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem a experiencia e a influencia de grandes obras existentes ou em construcção, plano como o do Mosteiro da Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforço do proprio genio deduziu os trinta e seis primeiros theoremas de Euclides. Mas entre a mathematica e a architectura, as differenças são profundas: na primeira, as verdades absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na segunda, a intelligencia não póde supprir os factos numerosos, que constituem a arte e a sciencia do constructor.

É verdade que no seu tempo, em meiados do seculo XIV, acabára a construcção em Lisboa de uma pequena capella do Estylo Ogival, n'este momento em via de restauração, encostada á velha Sé; mas o exemplar, simples e modesto, é do ogival francez do segundo periodo, como o attestam os seus caracteres architectonicos e a assignatura do seu auctor n'uma pilastra principal, conforme era de uso ás vezes, segundo já dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se occulta o nome, define a nacionalidade.

Finalmente, para citarmos uma opinião inesperada e singular, o auctor da collecção de memorias relativas aos pintores, esculptores, architectos e gravadores estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome de Benjamin Comte. Esta citação não envolve valor algum, porque estas memorias, impressas em 1827, manifestam grosseiras inadvertencias. O nome parece francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista dos normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos nomes de origem franceza. Esta supposição podia tomar vulto, se o segundo mestre, ou architecto do Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado de 1402, como testemunha e já era fallecido em 1450, Mestre Ouguet, Huet, ou Huguet, não fosse, como é provavel, a fórma sonica portuguesa do nome bem inglez Hewett.

D. Francisco de S. Luiz, para reforçar a hypothese de que Affonso Domingues foi o architecto do Mosteiro, diz que bem póde ser este mestre Ouguet o Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria do dominicano Antonio de Madureira.

Bem avaliados os documentos e as citações apresentadas, o nosso espirito fica perplexo. Sem duvida, Affonso Domingues existiu e teve importante ingerencia nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto não significa que, se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano primitivo do Mosteiro. Em primeiro logar, poderia apenas tel-o executado; depois--parece-nos esta observação importante--a situação de Affonso Domingues tambem podia ser a de simples fiscal da obra, contractada com uma corporação _franco-maçonica_, que a teria projectado e realisado, como tudo nos leva a crer e explicaremos mais adeante.

Esta ultima asserção nossa é corroborada pela carta de El-Rei D. Duarte, anteriormente citada e escripta de Setubal a Fernão Rodrigues, _védor_ das obras, do Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda o architecto Hewett, que se suppõe ter sido o segundo mestre das respectivas obras, porque D. Duarte lhe fez doação em 1436 de umas casas, que elle Hewett habitava junto das obras; ora, este principe morreu em 1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de tres annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte d'elle, o architecto inglez teve, como _védor_ ou fiscal, Fernão Rodrigues, delegado regio.

Se este devia ser logicamente o systema, como o é na actualidade nas grandes empreitadas do Estado, nada repugna ao espirito que o mesmo facto se desse em epocha anterior com o architecto David Hacket e o _védor_ Affonso Domingues. Assim, ficaria explicado o apparecimento do nome do segundo no documento de 1402, que infelizmente, ainda visto por D. Francisco de S. Luiz, já hoje não existe.

Esta investigação é assás difficil e uma conclusão, mais ou menos segura, carece de ser fundada em argumentos e provas de outras ordens, que em seguida procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a mais provavel supposição reduz-se a estas proposições: que o plano do Mosteiro da Batalha é de origem estrangeira, ingleza provavelmente, e que o primeiro architecto, que delineou e começou a realisar este plano, não era nacional, mas tambem, segundo as maiores probabilidades, de nação ingleza.

Se os argumentos de ordem historica nos levam a estas conclusões, vejamos agora onde nos conduzem outros argumentos e outras inducções de natureza architectonica.

As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do _meio_ particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomaram feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade. A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos; por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não offerecendo quasi o periodo de decadencia. Eis o que escrevemos a proposito do Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.

No fim do seculo XIV, quando começou a construcção do Mosteiro da Batalha, manifestava-se já certa decadencia na arte ogival do continente, emquanto a ingleza era, ainda, pura e florescente. É certo que, pelas suas condições geographicas e particulares, Portugal recebia o influxo das artes um pouco em atrazo; devemos, pois, entrar em linha de conta com este facto.

O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha é de um ogival purissimo, de perfeita unidade e harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio na ornamentação aliás fina e distincta; em summa, traduz os melhores caracteres da arte na mais florescente edade. Esta impressão resalta do conjunto do monumento e do estudo das suas differentes partes.

Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa visão architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro principal, no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte. Jámais outros grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram tão profunda sensação e sempre repetida; a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral de Milão.