A architectura religiosa na Edade Média
Part 12
Taes são os periodos, que offerece a evolução do novo estylo; devendo, porém, notar-se n'este ponto o que dissemos ácerca da classificação um pouco empirica por seculos. A passagem dos estylos faz-se sempre evolutivamente, sendo impossivel marcar-lhes limites rigorosos e bem definidos.
No interior as egrejas ogivaes manifestam excepcional grandeza e elegancia, provindo da elevação dos pilares polystilos e da profundidade das abobadas, ricamente artezonadas, com fechos ornados de bocetes. Numerosas janelas e rosaceas, tendo vitraes polychromicos, inundam o templo de luz doce e poetica. O mysticismo sombrio e severo das egrejas romanicas, a profunda melancholia que produzem no espirito, transforma-se nas ogivaes em alegre e suave sentimento religioso.
A egreja romanica traduz a profunda tristeza e o desalento da Edade-Media, principalmente nos primeiros seculos; a sua expressão é lugubre, quasi sinistra, como a do espirito monastico que lhe deu origem. Ha n'ella a impressão desoladora de uma vida rude e cruel, d'onde a alma procura fugir para o socego eterno. A egreja ogival produz sensações differentes. Respira-se ali a vida livre e activa, supremo bem sobre a terra, seguida depois pela felicidade eterna, cuja esperança irisada illumina o espirito, como os raios do sol, atravessando as grandes vidraças coloridas, inudam de luz suave e avelludada as naves do templo.
Nas disposições internas a egreja ogival soffreu algumas modificações importantes. A cruz latina já havia sido por vezes abandonada ou alterada no Estylo Romanico, muito embora, tanto n'este estylo como no ogival, deva ser considerada fórma fundamental e preferida. Pelas necessidades do culto, sempre crescente em riqueza, os coros ogivaes tomaram proporções maiores em relação ás naves. A _charola_, quando existe, é ornada de capellas, a correspondente ao eixo central da egreja mais elevada e comprida, dedicada ao culto da Virgem. As capellas ao longo das naves lateraes não se encontram ainda no primeiro periodo ogival; mas apparecem no fim do segundo, no seculo XIV. Em algumas egrejas observa-se a inclinação do eixo do côro em relação ao da nave principal, desvio que citámos e apreciámos no Estylo Romanico de transição.
A planta circular e a polygonal manifestam-se, tambem, como no estylo precedente. Em certas egrejas as absides são prismaticas ou desappareccm, sendo substituidas por paredes planas em que se abrem grandes janelas. É evidente ser impossivel abranger em curta synthese as disposições, variaveis em muitos elementos, das plantas das egrejas ogivaes, que se contam por centenas, se não por milhares em todo o orbe christão. Uma idéa geral, embora, pouco caracteristica, é o mais a que se póde chegar n'este momento; todavia, não devemos deixar de especificar a elegante planta da egreja da Batalha, que descreveremos n'outra parte d'este livro.
Uma disposição particular muito constante das egrejas ogivaes parece-nos ser a maior elevação da nave central sobre as colateraes. Nas paredes d'esta nave, exteriormente fortalecidas por arcobotantes, abrem-se as grandes janelas do _clerestory_. Ás vezes, desapparecendo o _triforio_, estas janelas assumem enormes proporções, prestando-se então admiravelmente aos magnificos quadros dos vitraes polychromicos. Esta disposição, que dá extrema belleza ás naves centraes, é a da Egreja da Batalha.
N'algumas egrejas, os ambons primitivos--as tribunas onde era lido o Evangelho--foram substituidos por galerias elevadas, lançadas entre a nave central e o côro, com accesso pelos dois lados. Estas galerias, profusa e ricamente ornamentadas, repousam sobre grandes arcos, por baixo dos quaes fica livre e desembaraçada a ligação do corpo da egreja com o côro. D'esta construcção, aliás pouco vulgar e não existente entre nós, ha exemplos elegantissimos e muito ricos.
Pelo que respeita ás fachadas, a diversidade é maravilhosa; todavia, de um grande numero de edificios póde deduzir-se um schema de certa importancia e clareza. Tomaremos, para exemplo, um monumento bem conhecido, a Cathedral de Notre Dame de Paris. A fachada é dividida em trez partes verticaes--em geral ha tantas partes definidas, quantas são as naves interiores da egreja--a do centro comprehende a porta principal, sobrepujada pela rosacea; as lateraes, correspondendo ás torres, conteem as portas secundarias e por cima as respectivas janelas ou rosaceas, que illuminam as naves correspondentes. A fachada offerece, tambem, tres divisões horisontaes bem distinctas, a primeira envolve as tres portas, a segunda a rosacea e as janelas ou rosaceas lateraes, a terceira começa na nascença das torres.
Nas fachadas sem torres, como as das Cathedraes de Milão e de Sevilha, de cinco grandes naves, e na da Egreja da Batalha de tres, as divisões verticaes são muito evidentes, accusando, sempre por fórma bem marcada, o numero e a disposição decrescente das naves interiores.
Este schema parece-nos apenas interessante; porque seria impossivel abranger a variedade infinita das fachadas ogivaes em curtas regras e poucos principios. Diremos mais: é quasi impossivel descrever a mais modesta só com simples palavras oraes ou escriptas.
As torres ogivaes são caracteristicas, de extrema elegancia, principalmente quando coroadas de elevadas, finas e rendilhadas agulhas. Offerecem a impressão de força e grandeza, sem duvida; mas a profusa ornamentação e as grandes janelas, onde reina a ogiva, dão-lhes um aspecto especial de leveza e elegancia, que não possuem as romanicas. Algumas vezes as torres da fachada apresentam-se deseguaes; accusando, assim, a secundaria importancia da egreja na hierarchia ecclesiastica.
Estes e outros caracteres dos templos ogivaes manifestam-se tão salientes, impressionam tão profundamente a intelligencia e a memoria, que os menos entendidos e versados na architectura podem distinguil-os, classificando com relativa facilidade edificios bem definidos.
A ornamentação ogival é em extremo complexa; mas tão harmonica e bem combinada, que produz a sensação de grande simplicidade. Para bem a apreciar seria indispensavel estudar elemento a elemento as differentes partes de um edificio, o que não podemos fazer.
Na ornamentação mural do seculo XIII predomina o reino vegetal; na Cathedral de Reims, por exemplo, contaram-se mais de trinta especies vegetaes differentes, espalhadas pelos varios pontos do edificio. Os ornamentos mais usados são os trifolios, os quadrifolios, as violetas, as crossas ou arpões, orlando os angulos das pyramides e as linhas dos frontões e das cornijas, os pinaculos, rematando as cabeças dos botareos, os nichos com doceis mais ou menos pyramidaes e rendilhados, zig-zags, cabeças de pregos e algumas outras molduras romanicas. A antiga ornamentação byzantina, que floresceu ainda no Estylo Romanico, tende a desapparecer. O trabalho é fino e perfeito; procura-se imitar a natureza, sem a copiar, com extrema liberdade de concepção e firmeza de execução.
No seculo XIV esta ornamentação subsiste. Os doceis dos nichos tomam fórmas mais elevadas e pyramidaes. Os triforios obscuros tornam-se transparentes, illuminados por janelas. As arcaturas teem n'este periodo uso mais geral.
No seculo XV, domina nas molduras a secção prismatica. Os doceis dos nichos accentuam-se em elevação e em caprichosos e ricos ornamentos. Os caixilhos, ou almofadas, constituem decorações muito vulgares, que mascaram a nudez das paredes. A ornamentação do seculo XV acompanha, como é natural, a evolução do estylo, é grandiosa e complexa, approximando-se das fórmas da renascença.
A esculptura no seculo XIII começa a perder as fórmas tradicionaes e byzantinas dos seculos anteriores. Tem mais grandeza e naturalidade, sem prejudicar a uncção religiosa. A architectura emancipou-se da influencia monastica, a esculptura seguiu-lhe o exemplo. É o elemento profano que vae preparando successivamente o movimento artistico da renascença, pelo estudo da natureza e da antiguidade classica.
No seculo XIV apparecem as creações grotescas, algumas assás livres, e as satyras da vida monastica, de que entre nós existem exemplos. Na Egreja da Batalha, alguns capiteis mais elevados, segundo nos disseram operarios que os restauraram, descrevem scenas equivocas, ou pelo menos pouco edificantes. Não pudémos verifical-o, attendendo a enorme altura dos capiteis e á pouca claridade do templo. Algumas gárgulas offerecem disposições parecidas; uma parece symbolisar accentuadamente o classico deus Priappo.
No antigo Convento da Conceição em Evora, mosteiro de freiras, uma gárgula representa uma freira, dando á luz uma creança. Na egreja matriz de Caminha, outra gárgula figura um homem, voltando as costas para Hespanha em posição assás equivoca. Estas e outras anomalias, aliás vulgares e caracteristicas n'este estylo, procurámos explical-as, tratando da organisação das associações _franco-maçonicas_. Em qualquer caso, são o producto do trabalho independente da acção monastica, talvez uma manifestação deploravel da liberdade de pensamento, que foi a aspiração do segundo periodo da Edade-Media.
No seculo XV a esculptura e a pintura libertam-se. A verdade da natureza traduz-se nas posições e nos actos. Sente-se bem que a Renascença está á distancia de um seculo. Os esculptores e os pintores teem individualidade propria, as suas escolas e os seus discipulos; não se apresentam simples decoradores, manifestando já a dignidade de artistas, que professam artes independentes.
A pintura mural foi muito usada no Estylo Ogival. No interior, as abobadas eram, ás vezes, pintadas de azul e constelladas de ouro e prata. A côr verde applicava-se aos capiteis, a encarnada aos fustes das columnas. Nas paredes desenhavam-se varios ornamentos, em alguns casos simulando elementos architectonicos que melhor pertencem á esculptura. No exterior, a pintura cobria tambem os portaes, as arcaturas e os pontos principaes do edificio. As folhagens offereciam a côr verde e as figuras dos porticos eram recamadas de ouro.
A pintura mural rivalisava com a dos grandes vitraes. O tempo fel-a, porém, desapparecer quasi por completo, habituando a esthetica moderna a não comprehender nem admirar a polychromia dos edificios, aliás tambem muito empregada nos Estylos Classicos. A Sainte Chapelle de Paris, modernamente restaurada, offerece no interior um excellente exemplo da pintura mural. É, todavia, mais do que provavel que este uso não fosse geral, pelo menos nas egrejas de menor importancia. Segundo a nossa opinião, devemos confessal-o, as velhas cathedraes devem aos seculos o grande beneficio de lhes haverem substituido o effeito garrido da pintura exterior pela côr sombria e solemne, que provém da acção do tempo.
Um dos mais bellos ornamentos do Estylo Ogival consiste, sem a menor duvida, nos vitraes. As vidraças multicolores, rutilantes á luz do sol, como se fossem de pedrarias, coando serena claridade pelas grandes superficies irisadas, onde se desenham, envoltos em caprichosa ornamentação, complexas scenas, paisagens, episodios guerreiros ou religiosos, nichos rendilhados com grandes figuras asceticas, produzem effeitos de luz surprehendentes e de extrema belleza esthetica. Estes vitraes polychromicos causam uma impressão profunda e indelevel, em que se mistura a poesia da alma com a musica das côres. Sem elles as mais bellas cathedraes perderiam grande parte do espirito mystico e do seu finissimo caracter artistico.
Vimos apparecer estes vitraes no ultimo periodo romanico, pelo menos com mais importante applicação; vamos agora esboçar as transformações, que soffreram nos seculos seguintes.
No seculo XIII, as vidraças coloridas attingem grande perfeição. A arte do vidreiro e a pintura aperfeiçoaram-se. Como se chegou a obter na mesma chapa de vidro côres differentes e esbatidas, as malhas do tecido de chumbo são maiores, não recortam tanto o desenho, e os tons dos vitraes manifestam mais harmonia e doçura. As figuras são mais elevadas, o que provém logicamente dos grandes vãos das janelas. Os ornamentos, mais cuidados e ricos, harmonisam-se com os do interior do templo.
São variadissimos os motivos; scenas do Novo e Antigo Testamento, lendas do Christianismo, o florilegio dos martyres, combinam-se com episodios do tempo e representações de industrias coévas, verdadeiros subsidios de estudo. Retratos de personagens da epocha, ecclesiasticas e civis, guerreiros com armaduras e bispos paramentados, constituem recordações historicas de piedade christã e de votos dos que offereceram estes despendiosos ornamentos, que embellezam as antigas cathedraes.
No seculo XIV o desenho dos vitraes é mais correcto e as figuras vão sempre perdendo o caracter byzantino. Os pintores começam a estudar mais a antiguidade e a natureza, abandonando as fórmas tradicionaes dos seculos anteriores. A esthetica consegue em bellos effeitos o que perde em originalidade e espirito de tradição, que aliás encerra sempre manifestações de belleza mais de accordo com a architectura dos templos. As côres tornam-se menos vivas, prevalecem as neutras pouco carregadas. As egrejas precisam de luz, a fim de que os fieis possam ler nos breviarios os exercicios divinos; as vidraças tornam-se, pois, mais claras. A Imprensa, inventada no seculo XIV, se esclareceu o mundo, sacrificou um pouco as velhas cathedraes, desfazendo essa penumbra doce e encantadora que era a expressão mais adequada ao mysticismo religioso.
Uma ornamentação, embora accessoria, que embelleza as cathedraes ogivaes, é a rica obra da talha ou a esculptura em madeira, principalmente nas cadeiras dos córos, que nos estylos mais primitivos eram de pedra. A perfeição d'este trabalho attinge proporções admiraveis no seculo XIV. N'este genero de coros, em que a nossa pobreza é extrema, deve citar-se o da Sé da Guarda. Em Hespanha, pelo contrario, ha riquezas immensas nos coros e nas respectivas obras de talha. O mais rico, que temos visto é o da Cathedral de Sevilha, collocado segundo o uso n'aquelle paiz na nave principal, como no Estylo Latino. Este côro, admiravel e riquissimo em todo o sentido, parece-nos que deve datar dos meiados, se não dos fins do seculo XVI.
Antes de finalisar este capitulo, são indispensaveis algumas considerações geraes de ordem mais ou menos technica, que somos forçados a desenvolver. Em nenhuma das phases da evolução da arte se manifesta mais accentuada a influencia do _meio_, do que no Estylo Ogival. Provam esta asserção a unidade dos seus caracteres geraes e tambem a sua rapida dispersão nas zonas, onde esse _meio_, como o definimos na introducção d'este livro, era mais ou menos identico; todavia, a existencia de elementos e de condições particulares nos differentes paizes tinha de influir necessariamente nos caracteres da arte.
As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do _meio_ particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomou feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente as physionomias, do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade.
A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos: por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não experimentando quasi o periodo de decadencia. A Italia, principalmente ao sul, offereceu sempre tenaz resistencia a todas as innovações artisticas, que mais se distanciavam do profundo espirito classico, herdado no sangue das gerações successivas e conservado em numerosos restos dos antigos monumentos. Ao Estylo Ogival aconteceu facto analogo: as suas construcções appareceram primeiro nos pontos, onde menos abundavam as romanicas. Não falaremos na Grecia e no Oriente, porque n'esses paizes o _meio_ social conservou-se sempre differente.
A estas indicações se deve attender na historia de um estylo, sem perder, tambem, de vista que a unidade e a harmonia dos edificios são sempre prejudicadas pela demorada construcção. É sabido, com effeito, que alguns dos maiores monumentos ogivaes levaram seculos a terminar, não falando, ainda, nas successivas restaurações, que chegam a alterar a unidade e o caracter de um edificio.
Um facto, que parece caracteristico tanto no Estylo Romanico como no Ogival, consiste no pequeno numero de nomes dos grandes architectos, que nos conservou a historia, emquanto são conhecidos muitos dos classicos. Tem-se procurado, com excesso de paciencia archeologica, explicar este facto pela humildade christã dos frades architectos do Estylo Romanico e pela organisação especial das associações _franco-maçonicas_, principaes constructoras dos edificios ogivaes.
Talvez em parte fossem estas causas a origem do silencio; não comparemos, porém, a illustração e o gosto artistico dos cidadãos livres da Grecia e de Roma com a ignorancia dos barões feudaes e dos cavalleiros medievaes, que timbravam em não saber ler e escrever, sellando os documentos com os copos das proprias espadas. Nem confundamos a plebe d'aquellas florescentes republicas com a multidão desgraçada e quasi selvagem da Edade-Media. Nos paizes classicos a arte foi sempre considerada nobre e elevada funcção; na Edade-Media deve ter sido apenas olhada como simples profissão. Assim, conservaram-se os nomes dos fundadores dos templos e dos grandes e poderosos da terra, para quem foi inventada a Historia; os dos pequenos e humildes, embora geniaes e creadores, mergulharam nas trevas do esquecimento e da ignorancia medieval.
Alem d'isso, os architectos não punham em evidencia os seus nomes. Aqui e além dão-se pequenas excepções a esta regra. Quando muito, empregavam signaes caracteristicos e proprios em qualquer ponto evidente da construcção. Assim, já o dissemos, na pequena e elegante capella do Estylo Ogival secundario, agora em via de restauração na Sé de Lisboa, a flor de lyz, gravada na face de uma columna prismatica, póde bem indicar a origem franceza do architecto.
Os signaes gravados nos silhares dos monumentos ogivaes tambem são muito vulgares. Teem sido attribuidos a simples marcas dos canteiros, que indicavam, talvez para pagamento, as pedras feitas por cada um. O facto de serem os signaes gravados na pedra e alguns difficeis e complicados, como se póde verificar no Mosteiro da Batalha, prejudica no nosso espirito esta hypothese. Mais provavel nos parece que sejam signaes particulares das differentes lojas maçonicas, ou secções d'ellas, a que pertenciam os differentes trabalhadores, mestres e architectos. O assumpto não offerece, aliás, senão o simples valor de curiosidade.
Temos exposto, segundo nos parece, os caracteres principaes do Estylo Ogival. O trabalho é incompleto, nem podia deixar de o ser em assumpto tão vasto e complexo, sobre o qual muito se tem escripto e muito ha ainda para escrever. N'este estylo temos, felizmente, um riquissimo exemplar no Mosteiro da Batalha, cuja historia e descripção reservamos para uma parte especial d'este livro. Esta rapida monographia completará a exposição feita, melhor talvez do que outros desenvolvimentos mais ou menos didacticos.
Na nossa opinião, o Estylo Ogival é a mais elevada expressão esthetica, até hoje revelada na evolução da architectura. Para o comprehender não é necessario ser artista, sabio ou crente; bastará, apenas, possuir algum sentimento, firmado em instrucção vulgar, e comparar os movimentos do nosso espirito em face das creações dos melhores estylos.
Nós vimos grandes templos, restos da antiguidade classica, sumptuosas basilicas, magnificos exemplares byzantinos e romanicos; encontrámol-os por muita parte. Em longas horas de contemplação e de estudo, procurámos o espirito d'esses monumentos, transportando-nos aos seculos, que lhes imprimiram physionomia. As impressões mais perfeitas e harmonicas foram-n'os dadas, sempre, pelas grandes cathedraes do Estylo Ogival.
CAPITULO SEXTO
O ESTYLO OGIVAL ENTRE NÓS
Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal é, infelizmente, pobre em monumentos, a sua penuria manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival. O Estylo Romanico deixou entre nós algumas construcções, mais ou menos importantes, embora, em geral, estragadas depois por inscientes restaurações, que o cuidado e o gosto moderno vão a pouco e pouco substituindo, a fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva. A Sé de Coimbra, egreja romanica do segundo periodo, é bom exemplo d'este gosto e cuidado.
Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por nós percorrida, encontram-se de quando em quando trechos do Estylo Romanico de soffrivel valor, escondidos no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da renascença. Assim, um dos nossos primeiros monumentos, o Convento de Christo em Thomar, offerece construcções differentes. A subida importancia que outr'ora teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do paiz, a extrema e curiosa diversidade de estylos, que elle manifesta, aconselha-nos mais detida descripção, embora exceda em parte os quadros d'este livro.
[Figura:
1 Terreiro e escadorio. | 6 Sacristia. 2 Adro. | 7 Portaria. 3 Charola, egreja primitiva. | 8 Côro e corpo da egreja. 4 Antiga porta da egreja primitiva. | 9 Claustro de João III--Filippes. 5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. | 10 Refeitorio. 11 Claustro de Santa Barbara. ]
Na anterior planta estão descriptos os elementos do grande edificio, que nós suppomos deverem ser considerados verdadeiramente monumentaes; o que não quer dizer que n'outros pontos, já na parte pertencente ao Estado, já n'aquella que infelizmente foi vendida, não existam trechos de verdadadeiro valor artistico e historico, dignos de cuidadosa defeza e conservação.
[Figura: CONVENTO DE THOMAR--Fachada da Egreja]
A egreja actual é formada por dois corpos, construidos em seculos differentes. O circular, que parece hoje constituir a charola da egreja, foi o templo primitivo. Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario, visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha sob as camadas de estuque, que revestem os oito arcos do recinto octogonal, cuja abobada forma uma especie de zimborio sobre o altar.
Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre central, elevando-se a respectiva abobada bastante acima da abobada anelar da nave envolvente. A antiga porta de entrada, virada ao nascente, foi transformada em janela, quando á egreja romanica se annexou o corpo rectangular. N'esta fórma do primitivo templo sente-se a indiscutivel influencia de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.
Nos começos do seculo XV foi construido ao norte da primitiva egreja o Claustro de D. Henrique ou do Cemiterio, que, embora muito simples e pequeno, é de assás puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis das columnas, unicos elementos que poderão servir para rigorosa classificação architectonica d'este claustro.
Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI elevou-se a construcção do actual corpo da egreja, que abre para o primitivo templo circular, transformado em capella-mór, por grande arco, rasgado na respectiva parede. A nova entrada, olhando o sul, é formada por um magnifico e elegante portal. Assim, antes da construcção do Claustro de D. João III, vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada sul da egreja, comprehendendo este portal e duas grandes janelas de volta inteira, bem como a fachada Occidental, ficavam livres e visiveis.