A architectura religiosa na Edade Média
Part 11
A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se formou no seculo XIII, deixára florescer, emfim, a cultura das artes e da sciencia. Grandes discussões philosophicas enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra ás Ordens Religiosas, é certo; mas nos sombrios claustros penetrára a luz de fóra. A Escholastica n'esse periodo tomou uma feição nova e caracteristica, que trazia em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia da Edade-Media offerece, com effeito, tres periodos differentes; no primeiro, a theologia subordina a sciencia; no segundo, estes dois principios caminham a par, depois dividem-se, seguindo rumos divergentes.
No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos mais elevados e cultos travam renhidas luctas de palavras e de escriptos, nem sempre incruentas; uns são pelo _realismo_ de Alberto, o grande doutor, e do seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros pelo _nominalismo_ de Duns Scott, o doutor subtil. O discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de Aquino foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas da egreja e preparou a constituição definitiva do Catholicismo, no concilio de Trento.
O _nominalismo_, fundado sobre as doutrinas de Aristoteles, desenvolvia as bases da sciencia; o methodo da observação e da experiencia recomeçava o seu caminho, interrompido por longos seculos. No seculo XIII viveu o franciscano Roger Bacon, que só por si define uma eschola e illustra um seculo. Philosopho, astrologo e alchimista, cujo saber immenso nas azas do genio chega a saír fóra dos limites do seu tempo, Bacon descobre, ou pelo menos prevê factos e verdades, que hão de manifestar-se nos seculos seguintes.
Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo, medico e alchimista, discute a metaphysica escholastica e combate-a á luz dos principios da sciencia ainda vacillante e incerta, mas procurando já firmar-se nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa critica não se atemorisa ante os perigos de atacar os erros da eschola philosophica triumphante nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas do tempo. «Que importa, escreve o grande luctador, que Alberto, o grande doutor, affirme que as folhas de salva lançadas n'uma fonte fazem sobrevir a tempestade? _Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos se a tempestade sobrevem_».
A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo da Escholastica orthodoxa, a essencia do methodo experimental está claramente definida n'esta ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova é um precursor, como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios nominalistas, d'esse methodo, que ha de produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o espantoso progresso do seculo XIX.
N'estes primeiros movimentos revolucionarios do _nominalismo_ sentem-se já energicas aspirações da liberdade do pensamento. As suas doutrinas são a semente, que, ao calor do estudo, das luctas, e pela acção do tempo, ha de produzir, por ininterrupta evolução, a reforma religiosa do seculo XVI e a philosophia do seculo seguinte. Os adeptos do _nominalismo_ são perseguidos e as doutrinas consideradas heterodoxas; mas, como correspondem a necessidades organicas do espirito humano, se os martyres ficam desconhecidos, as suas idéas preparam o futuro. Os primeiros luctadores contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia, discipulo de Abelard o _nominalista_, em Italia, Pedro de Vaux em França, Lollard e Wiclef em Inglaterra, são os precursores de João Huss e depois de Luthero, Melancton, Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores victoriosos da _reforma religiosa_ do seculo XVI.
No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem, uma acção profunda. Um dos maiores genios, de entre os que têem engrandecido a Humanidade, o florentino Dante Allighieri, cujas feições energicas e tragicas nos conservou o pincel de Giotto, aperfeiçoa, se não cria litterariamente a primeira e mais bella das linguas latinas, a italiana, em que teve como discipulos e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal, fortalecido por sciencia profunda e inspirado por grandes sentimentos, attingindo a febre da paixão, Dante revoluciona a poesia e quebra os velhos moldes dos poetas da decadencia.
A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde a sublime epopeia até ao delicado lyrismo, produz o mais gigantesco poema, creado pela intelligencia humana, a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio, theologo, historiador do seu tempo, ás vezes apaixonado e injusto, se quizerem, mas sempre supremo artista. Dante, talvez a figura principal do seculo XIII, a quem os seculos seguintes não fizeram perder ainda na poesia a posição culminante, é a mais pura e clara expressão d'esse espirito classico, sempre vivo no solo da grande Italia. A liberdade do pensamento, como nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido espirito, impellindo-o para fóra da esphera humana e levando-o a procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso, symbolos da metaphysica theologica, um campo infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e phantasia tão excepcionaes.
As outras bellas-artes, excepto a musica para a qual não chegára ainda o momento historico, bem mais tarde manifestado, principalmente em fins do seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico movimento correspondente.
Até ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino mantivera-se preponderante, sobretudo na pintura e na esculptura, aliás ainda subordinadas á architectura, de que constituiam artes auxiliares e complementares. Ora, as artes do oriente, como vimos, haviam ficado estacionarias, crystallisando em fórmas hieraticas e convencionaes. A inspiração e a liberdade dos pintores e dos esculptores foram esterilisadas por esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando amoldar a espontaneidade do proprio talento a antigas e consagradas formulas, a que as tradições religiosas contribuiam para dar quasi força de dogmas.
Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo essa lethargia; foi ainda o espirito classico, reanimado pela liberdade do pensamento, que despedaçou a rede dos formalismos tradicionaes e da ignorancia technica, que envolvia e suffocava a inspiração dos pintores e esculptores.
Esta reacção inicia-a Cimabué, libertando-se dos liames das escolas byzantinas. Giotto, seu discipulo, pintor, esculptor e architecto, segundo o uso e as necessidades do tempo, opéra a revolução. A correcção do desenho e o rigor do colorido, a expressão e a vida, isto é, a verdade na arte que só nasce do estudo da natureza, são o resultado d'essa outra victoria do espirito humano. Os dois primeiros mestres italianos do seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da grande arte da renascença, poderoso movimento que tambem a Italia quasi exclusivamente realisará nos fins do seculo XV e durante o seculo XVI, no grande periodo em que floresceram homens como Leonardo de Vinci, Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.
A architectura e as artes secundarias annexas saem dos conventos, vindo expor novos productos e novas creações á luz da liberdade nascente. Já não são as grandes communidades religiosas, que monopolisam as construcções, crystallisando-as um pouco e enviando de convento para convento os architectos mais famosos e os planos mais completos. A esthetica, como a sciencia, manifesta energica expansão. A arte revoluciona-se e liberta-se.
Nas communas constituem-se grandes corporações de artes e officios. As associações de architectos e de operarios de todas as ordens, que nos seculos precedentes trabalhavam sob a direcção monastica, esse resto dos gremios romanos, ou formados á sua imagem, emancipam-se, libertam-se do jugo ecclesiastico nas producções artisticas, tomando definitivo caracter civil, embora subordinadas e protegidas pelo espirito religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.
São, com effeito, as corporações _franco-maçonicas_ que vão construir muitos, se não todos os edificios ogivaes mais grandiosos e celebres. Houve-as em Inglaterra, tendo um dos centros principaes em York. Foram incontestavelmente os _free-stones-masons_, que elevaram um dos grandes monumentos ogivaes inglezes, a cathedral de York. Teve-as a Allemanha, com o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach construiu a grande e formosa cathedral, um dos primeiros monumentos do Estylo Ogival, que serviu de exemplo a tantos outros e cuja fama deu á loja-mestra a supremacia sobre quasi todos os centros principaes allemães e ao seu presidente o grão-mestrado supremo. Existiram em França, onde predominou a loja-mestra de Paris, construindo as grandes cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e a Saint-Chapelle em Paris. Encontravam-se, emfim, na propria Italia, onde aliás o Estylo Ogival experimentou energicas reacções classicas, principalmente ao sul. Foram os _magistri comacini_, que, sem a menor duvida, construiram o colosso ogival, a cathedral de Milão.
Como estas associações tiveram grande influencia sobre a formação e a dispersão do Estylo Ogival, parece-nos conveniente entrar em alguns pormenores ácerca da sua organisação no seculo XIII, visto que das respectivas origens provaveis e evolução constituinte já falámos em precedentes capitulos.
Não póde existir, a nosso ver, a menor duvida em que estas corporações _franco-maçonicas_, que se estendiam pela França, Allemanha e Inglaterra, chegando pelo menos ao norte da Italia, tinham entre si intimas relações, offerecendo um caracter internacional bem definido. Esta affirmação resulta não só da propria natureza das associações de mutuo auxilio e de defeza dos interesses dos respectivos associados; mas é, ainda, demonstrada pela essencia e tradição das associações _franco-maçonicas politicas_, em que as primeiras se transformaram, durante os seculos XVI e XVII.
A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida dispersão nas zonas, aliás extensas, em que floresceu, devem ser attribuidas em grande parte ás relações muito apertadas entre as corporações maçonicas do mesmo paiz e assás intimas entre as de nações differentes. Em 1459, por exemplo, a assembléa capitular de muitas lojas allemãs, reunida em Strasburgo, reconheceu como grão-mestre o presidente da loja-mestra d'esta cidade. Mais do que provavel nos parece que em França e em Inglaterra se procedesse por identica fórma; é a consequencia logica dos fins d'estas associações de trabalho e de soccorro mutuo.
Alem d'isso, as deslocações dos associados de uns para outros paizes, em procura de trabalho ou por outras quaesquer causas, só por si constituiriam, n'esse tempo de construcções muito activas, constantes relações internacionaes, quando não existissem outras officiaes e regulares, como é assás provavel. O operario associado em viagem encontrava, naturalmente, a protecção e o apoio das associações do mesmo genero, formadas em outros paizes. Este facto dava-se com as associações romanas e corresponde á tendencia internacional das poderosas associações operarias. Assim, na Edade-Media o trabalho teve uma organisação muita extensa e protectora, que a moderna Internacional tentou debalde realisar no ultimo quartel do seculo XIX.
A constituição interna d'estas sociedades _franco-maçonicas_ é, como a sua historia, assás obscura. Visto que fixavam os proprios salarios dos differentes trabalhadores, parece-nos logico que estas associações se ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura em muitos casos por contractos de empreitadas parciaes ou geraes, como se pratica nos modernos tempos. Evidentemente, estas presumpções fundam-se apenas na logica e no principio de que em todas as epocas a eguaes necessidades corresponderam, sempre, instituições e processos analogos ou equivalentes.
Deve notar-se que estas associações foram muito protegidas durante a Edade-Media. Altas personagens civis e ecclesiasticas faziam d'ellas parte como _socios honorarios_, no periodo da sua maior grandeza. Foi até a existencia numerosa d'estes elementos estranhos ao trabalho, que, depois da decadencia e transformação do Estylo Ogival, facilitou a conversão das associações primitivas em corporações politicas, conservando os symbolismos dos officios, os provaveis signaes de reconhecimento, as praticas secretas e o espirito internacional, protector e caridoso, da maçonaria moderna, que foi nos ultimos seculos um instrumento poderoso de movimentos sociaes.
É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito disciplinado e methodico, que constitue a melhor garantia de producções completas e perfeitas em obras collossaes.
Esta divisão do trabalho devia chegar ao ultimo extremo. Assim, sabe-se que as construcções eram dirigidas por um mestre ou architecto, escolhido provavelmente em harmonia com a grandeza da obra, sob cujas ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos a seu turno por um mestre pedreiro. Esta organisação explica a grandeza da concepção dos planos, a analogia, quasi similhança, que manifestam muitos dos seus elementos e, emfim, a extrema diversidade da ornamentação no mesmo edificio. Póde notar-se, por exemplo, que as altas agulhas de Zurich, Vienna, Colonia e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas das de Strasburgo.
A extrema variedade de ornamentação, a diversidade dos capiteis, no mesmo edificio numerosissimos e poucas vezes repetidos, esses symbolismos grotescos uns, pornographicos outros, espalhados nos capiteis e constituindo algumas gargulas, não podem ser explicados senão pela extrema liberdade de acção dos esculptores e lavrantes de pedra, mais numerosos e inferiores. Este uso caracteristico, já mencionado no Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes, como o nosso, onde a _franco-maçonaria_ teve, quando muito, residencia accidental.
Isto exposto, o perfil do seculo XIII póde desenhar-se em poucas palavras. O pensamento humano, activo e energico, procura conquistar a liberdade na esphera moral e politica. O feudalismo perde lentamente as forças e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride, accumula riquezas pelo commercio e pela industria, e trabalha. As communas multiplicam-se e florescem. N'este estado social, um poder predomina, o Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia e illustração, pelo prestigio da religião sobre as consciencias e pelo poderio de riquezas immensas. As futuras reacções da _reforma_ estão ainda embryonarias e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia e da metaphysica, approximando-se lentamente do methodo experimental, que ha de ser o poderoso instrumento da rapida e prodigiosa evolução social e scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte, conforme a propria essencia, _observa_ e _experimenta_, retemperando-se no estudo da Natureza.
Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda; mas os tenues raios de luz são sufficientes para dissipar as sombras medievaes, deixando ver o caminho do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos a synthese do brilhante seculo XIII.
CAPITULO QUINTO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO OGIVAL
A formação do Estylo Ogival resulta logicamente do _meio_ social do seculo XIII. A phase da evolução da arte corresponde-lhe com rigor. É o espirito do seculo que toma fórma nas pedras dos monumentos, descobrindo novas combinações de antigos elementos, empregando-os com mais arrojo e inspiração esthetica, mais sciencia e experiencia de construcção. Assim, na realidade o Estylo Ogival é a floração esplendida do romanico, aberta á luz e ao calor do sol nascente da liberdade do pensamento.
Onde se manifestou primeiro o Estylo Ogival? É impossivel fixal-o. Os seus productos, mais ou menos originaes, elevam-se por toda a parte, onde o _meio_ foi identico; como certas plantas nascem em sólos afastados, quando são de natureza similhante. É certo, todavia, que se desenvolve e progride com maior rapidez, principalmente entre as nações onde teve mais tarde maior preponderancia a _reforma religiosa_, vencedora na Allemanha e em Inglaterra, em França vencida após longas e tenazes luctas: mas deixando sempre um permanente fermento religioso. Na Hespanha, em Portugal e na Italia, onde a Inquisição e a Companhia de Jesus esmagaram a _reforma_ logo á nascença, o caminho do novo estylo manifesta-se, pelo contrario, mais penoso e lento.
N'aquelles paizes, que hão de ser o foco das futuras luctas da religião, entre o dogma e a disciplina de um lado e do outro a liberdade do pensamento e da interpretração da Biblia, a dispersão do ogival foi rapida e fecunda. Os reis, os pequenos senhores feudaes seculares e ecclesiasticos, as communas e as ordens religiosas, numerosas e ricas depois das Cruzadas, rivalisavam em construcções grandiosas, espalhavam-n'as por toda a parte com piedade religiosa, onde havia tambem muita emulação humana. Assim, por exemplo, resolvendo a construcção da grande Cathedral de Sevilha, o respectivo Cabido escrevia: «construamos obra tão grandiosa e magnifica que os vindouros possam dizer que estavamos loucos».
As associações _franco-maçonicas_, fornecendo um exercito de constructores desde os architectos até aos mais simples operarios, facilitavam este grande movimento, imprimindo-lhe a rapidez e a unidade de feições, que anteriormente notámos.
Recordando n'este ponto o que escrevemos ácerca da abobada e das consequencias logicas do respectivo emprego, bem como as doutrinas expostas no mesmo sentido sobre o arco ogival, procuremos agora definir os caracteres do Estylo Ogival, que aliás se ligam intimamente com os do romanico terciario. O arco em ogiva, diminuindo muito os impulsos horisontaes sobre os supportes, permittia dar-lhes menos espessura, fossem pilares ou paredes. A elevação dos edificios, dando-lhes incontestavelmente elegancia e nobreza, foi a consequencia necessaria do emprego d'este arco. Os architectos ogivaes aperfeiçoaram o systema, empregando as _abobadas artezonadas_, ou de nervuras, d'onde decorreram modificações importantes na arte da construcção dos edificios. É este, sem duvida, o caracter mais importante do Estylo Ogival.
Figuremos por um instante que da abobada da nave central da Egreja da Batalha, bem conhecida de todos, tiravamos a silharia encastrada entre os artezões, como o parenchyma das folhas vegetaes enche os meandros das nervuras salientes. Da folha ficaria uma fina renda de estreitas malhas, da abobada um grande arcabouço de arcos ogivaes parallelos sobre pilares correspondentes, formando successivos tramos quadrados eguaes. Outros arcos em ogiva, perpendiculares entre si e cortando-se nos fechos, ligariam de angulo para angulo os quatro pilares do tramo. Emfim, uma nervura recta ao longo do eixo da nave pareceria dar rigidez e estabilidade ao systema, encadeando os vertices dos arcos parallelos e perpendiculares.
Se a figura foi exposta com alguma clareza, comprehender-se-á com pequeno esforço de intelligencia o systema das abobadas ogivaes. Tudo consiste, em summa, no artificio de descarregar, o mais possivel, as pressões verticaes e os impulsos horisontaes da abobada sobre os pilares. Em theoria tambem a silharia entre os pilares poderia desapparecer, deixando um pavilhão aberto, uma especie de esqueleto formado pelos pilares, reforçados por arcobotantes, e pelos arcos, constituindo as nervuras ou artesões das abobadas.
As conclusões logicas d'este systema de construcção são de extrema evidencia. As pressões verticaes e os impulsos horisontaes dos arcos determinam certa espessura aos pilares. As primeiras não podéram ser supprimidas; mas os impulsos horisontaes foram diminuidos pela fórma ogival da curva e podem ainda, ser, contrariados pelo lado de fóra por botareos salientes, e pela ligação d'estes botareos a outros exteriores por meio de arcobotantes. Assim por este modo, um edificio ogival pode ser _theoricamente_ reduzido a um esqueleto de pedra, como as casas de Lisboa representam um esqueleto de madeira, antes de preenchidos os intervallos com a alvenaria das paredes e de fechada a cobertura dos tectos.
É evidente que este systema da construcção ogival permitte o facil rasgamento de grandes vãos abertos, portas, janelas e rosaceas, entre os intervallos dos botareos e dos arcobotantes; por isso, ao contrario do romanico, o Estylo Ogival abunda n'estes elementos, multiplicando as janelas e as rosaceas para illuminar as grandes naves e os transeptos, que attingem alturas muito elevadas em relação á respectiva largura, ás vezes, alturas relativas enormes, como succede na Egreja da Batalha. Pretender dar mais clareza a uma exposição d'esta ordem, sem desenhos ou modelos, seria caír em diffusão de palavras, que mais complicaria ainda o assumpto. É, pois, contraproducente tental-o. A imaginação do leitor, impellida por estes traços, preencherá as lacunas.
Expostas estas generalidades, inutil será entrar em divagações sobre o emprego da ogiva, o que aliás já fizemos succintamente no segundo periodo do Estylo Romanico. A ogiva foi conhecida e empregada muito antes do estylo a que deu o nome, é facto incontestavel. Não conhecido nem empregado era o systema das abobadas, tal como o havemos descripto. Eis qual foi a verdadeira creação dos architectos ogivaes.
Em verdade, este systema ainda póde considerar-se a conclusão logica e scientifica do emprego da ogiva e das suas respectivas qualidades estheticas e mechanicas. O arco de volta inteira podia, com effeito, ter sido applicado ao systema com alguns resultados, sómente implicando grande sacrificio da elegancia e da majestade do edificio. Parece-nos, pois, um verdadeiro circulo vicioso investigar, se o arco em ogiva deu origem ao novo systema de abobadas, se este systema exigiu a fórma quebrada do arco. Emquanto a nós, se houvesse vantagem em fixar opinião sobre este ponto, admittiriamos, como mais natural e logica, a primeira hypothese.
O Estylo Ogival manifesta uma duração de tres seculos. Vimol-o nascer com o feudalismo na decadencia, durará durante a agonia d'esta instituição e desapparecerá com ella, transformando-se em novo estylo. Está definitivamente formado a partir dos meiados do seculo XIII, constituindo o primeiro periodo. As construcções d'este periodo são harmonicas e regulares, mas a sua feição é ainda um pouco fria e severa.
No seculo XIV adquire feições mais elegantes e distinctas. N'este segundo periodo, que os architectos denominaram _radiante_, devido a disposições caracteristicas de certos elementos de construcção e ornamentação, os edificios são mais puros e alegres, mais elevados e finos, emfim mais ideaes, d'esse espirito que principiou a manifestar-se no seculo anterior.
No seculo XV e nos começos do XVI o Estylo Ogival attinge elevado grau de elegancia, ás vezes exagerada. N'este terceiro periodo, os elementos verticaes tendem a tomar grandes proporções, a ornamentação manifesta-se riquissima e caprichosa, os coroamentos enchem-se de agulhas e de pinaculos, uma floresta de corocheos elevados e ponteagudos dá aos edificios phantastico aspecto, causando a impressão caracteristica de chammas, principalmente quando illuminados pelos raios do sol poente. D'esta impressão proveiu, de certo, o ser conhecido este periodo pela designação de Estylo Ogival _flammejante_, ou _florido_.