A architectura religiosa na Edade Média

Part 10

Chapter 103,594 wordsPublic domain

Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento da torre, que para cima offerecia no exterior duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em cada ordem e em cada face. Segundo a nossa opinião, esta torre não tinha senão um andar, a que fazia pavimento a abobada da cupula. Não nos parece que a espessura dos muros, ainda existentes na base, permittisse a sobreposição de tres abobadas, sendo possivel até que a cobertura da torre fosse de madeira revestida de telhado.

Voltando ao interior da egreja, observaremos que esta disposição particular da cupula octogonal devia ser de excellente effeito architectonico. As naves lateraes tinham as abobadas muito menos elevadas do que a da nave central; mas esta disposição não permittiu o rasgamento de janelas, que directamente illuminassem esta nave, porque por cima das segundas naves foram construidas galerias de egual largura, cujas abobadas em pouco ficavam inferiores á da nave central, não deixando espaço para rasgamento de janelas do _clerestory_.

Nas paredes da nave central, por cima dos arcos que dividiam as naves, e nas do transepto, corria ao longo da egreja, com excepção da capella mór, um estreito triforio, em communicação directa com as galerias, que acabamos de apontar.

[Figura: SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA--Restauração da fachada principal]

Todas estas disposições foram depois mais ou menos alteradas; assim, por exemplo, no triforio a restauração não só modificou as dimensões como empregou columnas com galba e capiteis classicos! As paredes cobertas por estuques horriveis, fingindo marmore de varias côres, subsistem na actual egreja.

Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam os arcos de volta inteira, que dividem as tres naves; mas toda esta parte do edificio está _excellentemente_ mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis de madeira, fustes de gêsso e bases de marmore verdadeiro combinado com madeira, tudo, excepto os marmores, imitando tambem marmore! Assim, é impossivel fazer hoje clara idéa d'estes elementos, que o maior idiotismo imaginavel de restauradores em cidade civilisada conseguiu estragar, com grande perda de tempo e dispendio de dinheiro!

A primitiva capella-mór era mais pequena do que a actual de construcção mais moderna, como o indica o tom mais leve da planta; devia ser formada de grandes arcos de volta inteira, repousando sobre fortes columnas romanicas e abrindo na charola.

Apesar da tradição corrente e escripta, que affirma haver na Sé de Lisboa grandes subterraneos, não deparámos ainda com elles nas sondagens e investigações realisadas. Até podemos quasi concluir que, pelo menos, nem existe uma crypta importante; reduzindo-se tudo a pequenas capellas sepulcraes subterraneas, ou carneiros escavados muito depois da data da construcção do edificio[2].

A illuminação do primitivo templo foi assás perfeita. A nave central recebia luz da rosacea da fachada principal; as segundas naves de janelas e portas abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever; o transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos, não existindo, é claro, as feias janelas rectangulares, que actualmente por baixo d'estas rosaceas abrem para o triforio; finalmente, a capella-mór era illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente por outras superiores ao terraço da mesma charola. Alem d'isso, a cupula central com as suas oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar bastante claridade no interior do templo.

Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes coloridos?

Não nos parece. Na epoca da construcção, os verdadeiros vitraes coloridos eram muito raros, nem ella foi rica e cuidada. Vê-se que D. Affonso Henriques tinha mais fé religiosa do que dinheiro. No periodo do maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV, não é muito provavel que o gosto artistico nacional exigisse este complemento esthetico. Haja vista os martyrios, que inflingiram ao pobre edificio romanico!

As fachadas lateraes eram muito simples. A partir das torres, acima descriptas, a muralha, tendo a altura das naves lateraes e das galerias sobrepostas a estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas todas de volta inteira; as mais baixas e proximas do solo eram grandes, alargando para dentro; por cima d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi em estreita fresta.

Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em terceira linha superior seis janelas abriam para as galerias, sobrepostas ás naves lateraes. No terceiro vão entre os botareos, a contar da torre, pelo menos na fachada-norte, a janela inferior era substituida por uma porta, que foi nos primitivos tempos resguardada por um vasto alpendre, coberto por telhado. Esta porta foi ultimamente restaurada. É muito provavel que na fachada lateral-sul se désse egual disposição; mas essa porta, se existiu, foi inutilisada pela construcção da nova sacristia. Nos lados do transepto viam-se apenas as janelas superiores.

Em face da fachada principal, e terminando em frente das portas lateraes, devia existir um adro, cujos tijolos podémos ainda ver em escavações praticadas junto do monumento.

Eis a descripção summaria da antiga Sé de D. Affonso Henriques. Não era de certo nem grande nem rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia manifestar os caracteres do Estylo Romanico, a força e a severidade, sem excluir certa elegancia, que ainda hoje se póde notar nos elementos primitivos, embora suffocados e esmagados por estuques, construcções absurdas, umas já desapparecidas, outras que será impossivel eliminar.

Oxalá os restauradores de todos os tempos tivessem procurado conservar ao edificio as feições primitivas, porque n'esse caso Lisboa teria um monumento de Estylo Romanico secundario de certo valor. Assim, nós, as gerações actuaes, temos obrigação de fazer desapparecer pelo menos as vergonhosas excrescencias, restaurando a parte restauravel do edificio, como adeante explicaremos.

Bem cedo começaram as construcções annexas a prejudicar a esthetica do primitivo templo. Vamos seguir as principaes por ordem de relativa antiguidade.

Logo pouco depois da egreja ter sido terminada, foi _no rigor da palavra_ encostada no angulo formado pela fachada lateral-norte e pelo transepto a primeira d'estas construcções, consistindo n'um recinto coberto por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas inferiores da nave. Este recinto, cujo terraço ficava inferior ás mais elevadas janelas da fachada, abria para o exterior em toda a dimensão da sua secção; não tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas observações podem ser ainda verificadas em elementos existentes.

Qual seria o fim d'este annexo?

Difficil será descobril-o. É possivel que fosse um _narthex_, ou galilé lateral, aberto mais tarde, talvez um logar de refugio para peregrinos ou viandantes. Sobre este ponto poderá, apenas, fazer-se alguma luz, quando a eliminação dos estuques, que revestem interiormente este recinto e a parte correspondente da egreja, deixar ver se existem alguns vestigios de antigas portas para o transepto ou para a nave lateral-norte.

Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente descripto, levantou-se uma grande sala abobadada, em que a ogiva se accentua ja bem claramente. Esta sala, não tendo egualmente janelas na sua frente-norte, era illuminada por uma grande janela ogival, em parte cega, rasgada na parede, que repousa sobre o grande arco do supposto _narthex_. As duas janelas mais elevadas do edificio principal, que ficaram inutilisadas por esta construcção, acham-se tapadas por tal fórma que, segundo pensamos, não póde existir a menor duvida em não haverem jámais dado communicação da primitiva Sé para a referida sala; apenas se póde admittir, embora a achassemos tambem murada, que esta communicação se fazia por uma janela do transepto, transformada em porta para o triforio. Estas disposições, tanto a do recinto inferior como a da sala sobreposta, comprehender-se-ão claramente, notando na planta a segunda intensidade do tom escuro.

Assim, temos uma sala de importantes dimensões apenas ligada com o interior da egreja pela acanhada galeria do triforio, que a seu turno é servido por uma pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada no botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?

O problema, porém, complica-se ainda mais. Uma terceira construcção, tendo dois andares correspondentes aos dois pavimentos existentes, veiu encostar-se ás duas precedentes. Devemos observar que propositadamente temos escripto a palavra _encostar_, porque na realidade os successivos constructores nem se deram ao trabalho de travar reciprocamente os edificios; encostando-os, apenas, uns aos outros, o que permitte que em determinados casos seja possivel ver claridade atravez das separações.

O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de certo ligação com a egreja, havendo sido transformada a janela da nave em porta, que ainda actualmente existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se por fórma differente. A janela ogival da sala anteriormente descripta foi transformada em porta, que serve os dois compartimentos; porém, a janela da Sé, inutilisada pela nova construcção, essa, encontramo-la nós murada como as duas outras precedentes; e quando a abrimos, por necessidades de serviço e aproveitamento de local, ficámos convencidos, pela perfeição do espesso massiço de silharia e de alvenaria, de que o tapamento era, sem duvida, antiquissimo, se não contemporaneo d'esta inexplicavel construcção.

Assim, como ainda se póde ver, existem duas salas, illuminadas por duas altas frestas, que apenas communicavam com o interior da egreja por duas estreitas escadas de caracol: a primeira, já indicada, a do triforio, a segunda encastrada n'uma especie de botareo, que faz parte da ultima construcção.

Que fins podia ter esta disposição mysteriosa dos dois importantes recintos?

Debalde temos pensado no problema e investigado as pedras, a fim de ver se nos revelam o segredo; em vão temos consultado os eruditos. Apenas, alguem suggeriu a idéa de que, tendo as antigas cathedraes o _direito de asylo_, isto é, de tornar inviolaveis os perseguidos pelas justiças ordinarias, talvez as salas, tão bem defendidas e mysteriosas, se podessem relacionar com esse direito de protecção. Ahi deixamos posto o problema, que talvez investigações e sondagens mais completas possam mais tarde resolver.

Das tres construcções, que acabamos de descrever e apreciar, a primeira deve datar dos fins do seculo XII e a ultima dos fins do seculo XIII. Eis tudo quanto nos parece ser licito affirmar ácerca da edade d'estes edificios, annexados á primitiva Sé.

Como se deprehende da planta, estas construcções approximaram-se successivamente da porta lateral-norte, que ainda nos fins do seculo XIII abria directamente para a rua, ou terrado d'este lado da Sé. Que esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de telhado, provam-n'o os vestigios, ainda existentes na fachada do ultimo dos mencionados annexos.

No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu Joannes, rico mercador de fidalga linhagem franceza, como parece demonstrarem-n'o os brazões e as flores de liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial para ser erecta na Sé de Lisboa uma capella, onde jazessem os seus restos mortaes e os das pessoas, que por elle fossem indicadas. Esta disposição testamentaria originou uma quarta construcção, a de uma elegante capella do Estylo Ogival francez, que foi encostada á fachada lateral-norte, occupando o espaço de duas janelas a partir da torre.

N'estas condições, a porta lateral ficaria encravada, entre as construcções primitivas e a da nova capella; por isso, substituindo o antigo alpendre, o espaço da porta foi coberto por uma abobada. Esta especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande arco ogival.

Taes são os edificios, que em successivos seculos foram encostados á fachada lateral-norte da primitiva Sé, mascarando-a por completo.

É claro que em qualquer projecto de restauração ninguem poderá pensar sequer em repôr o edificio nas condições primitivas; muito embora todos estejamos de accordo em que teria sido muito preferivel ter evitado estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram a unidade do estylo. Além d'isso, a capella de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez, é um excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no projecto de restauração d'esta fachada, attendemos a todos os edificios, aproveitando-os o melhor possivel.

Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto destruiu ou pelo menos arruinou a primitiva capella-mór romanica. A reconstrucção realisou-se, alterando as dimensões d'esta parte da egreja e empregando o Estylo Ogival. As capellas, que guarnecem a nova charola, e o claustro, que não existiam anteriormente, datam da mesma reconstrucção.

Depois, entre esta grande restauração e a que resultou do terremoto de 1755, devem ter-se realisado muitas outras de secundaria importancia e principalmente as obras, que estragaram o edificio. Assim, por exemplo, as janelas quadradas das torres, substituindo as lindas janelas geminadas primitivas, a rosacea, as sacadas e o arco do frontispicio, bem como o edificio da sacristia e da sala capitular, que mascarou grande parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos começos do seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo, portanto, anteriores ao terremoto de 1755, como o prova a gravura das ruinas, a que já nos referimos.

Devem pertencer tambem a este periodo as construcções dos vergonhosos pardieiros de todas as ordens, especies e fins, que mascaravam completamente a fachada lateral-norte, subindo até elevada altura entre os botareos da respectiva torre, e a inutilisação da bella porta lateral e do respectivo vestibulo, substituidos por uma horrivel porta, rasgada na capella de Bartholomeu Joannes.

O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente, produziu profundas ruinas na egreja e no claustro da Sé. Metade da torre do sul desabou, bem como a torre sineira que veiu esmagar a abobada da nave central e a da capella-mór. A memoria da parte principal d'estas ruinas foi conservada n'uma gravura franceza do tempo, que nos pareceu interessante reproduzir. Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no meio da cidade, até que em 1767 começaram as grandes obras de reconstrucção.

Teria sido esta a occasião azada para a restauração completa da Sé, não na sua fórma primitiva, que já não seria possivel renovar; ao menos, porém, nos Estylos Romanico e Ogival que se ligaram intimamente em varios pontos do edificio. As tendencias da epoca, que já começavam a condemnar estes bellos estylos como _barbaros_ e _gothicos_, a insciencia dos restauradores, a pressa e talvez a carencia de dinheiro deram os resultados, que ainda podemos ver.

A abobada da nave central foi simulada em madeira e estuque, abrindo se-lhe medonhos oculos para melhor illuminar a egreja. Na capella-mór procedeu-se por fórma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta de espessas camadas de estuque pintado, mascarando os velhos elementos romanicos e ogivaes com elementos classicos absurdos e desordenados. Assim, se o edificio da Sé, olhado exteriormente, causava a impressão, principalmente na fachada lateral-norte, de uma sobreposição de casebres, visto no interior, produz a desagradavel surpreza de uma miseria, que pretende ostentar riqueza, e de um cahos de fórmas disparatadas e deselegantes, que resultam da desharmonica combinação das linhas principaes dos estylos christãos mais perfeitos com elementos classicos, exigindo linhas geraes differentes[3].

Depois de termos dado succinta idéa, porque outra não comportam os quadros d'este livro, do primitivo estylo da Sé Patriarchal de Lisboa e das modificações mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos as nossas opiniões ácerca da respectiva restauração, de que ultimamente fomos incumbidos e tentamos executar com os melhores criterios estheticos.

Embora a Sé de Lisboa, nem pelas suas dimensões nem pela grandeza do estylo, possa ser considerada importante monumento romanico, no estado primitivo, como acabamos de observar, não deixava de manifestar algum valor architectonico.

Restaurações successivas e barbaridades de construcção em seculos differentes reduziram-n'o ao estado lastimoso, em que se conservou por longos annos e em parte se encontra ainda n'este momento. A reconstrucção e restauração mais ou menos radical do antigo monumento é, portanto, quasi um dever de patriotismo.

Pensar em lhe dar a feição primitiva, apurando o Estylo Romanico secundario em que foi construido, seria uma verdadeira loucura; no conjunto do edificio os elementos ogivaes são mais importantes do que os romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de conservação.

A restauração, a nosso ver, deve começar pelas fachadas. A principal póde, sem duvida, assumir novamente a sua expressão romanica, manifestando certa grandeza, se as suas torres forem convenientemente coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre as duas torres. Esta obra é indispensavel e uma das primeiras que deve ser realisada.

[Figura: SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA--Restauração da fachada lateral-norte]

A fachada lateral-norte ficará sempre uma juxtaposição de edificios; mas a indiscutivel belleza da Capella de Bartholomeu Joannes desculpará até certo ponto esta agglomeração de estylos. Pelo que respeita á fachada-sul, não haverá remedio senão conservar o annexo onde estão a sacristia e a sala capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da Renascença.

O claustro e as respectivas capellas são obras de restauração facil, embora dispendiosa, attendendo ao estado de profunda ruina em que se encontram. O claustro não tem, na realidade, grande valor architectonico; mas para elle abre uma vasta sala de elevada abobada artezonada, que primitivamente devia ser muito bella. Diz-se que n'esta sala foi instituida a primeira Misericordia nacional. Mais tarde, talvez em principios do seculo XVIII, foi transformada em capella no Estylo da Renascença, onde abundavam os mosaicos florentinos no arco, nas paredes da abside e no altar. Suppomos que esta capella foi primitivamente a _sala capitular_.

Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não supportariam o peso de verdadeiras abobadas. Além d'isso, as abobadas das naves lateraes são de tijolo e provavelmente substituiram as primitivas de silharia.

É natural que a restauração exterior do templo leve, mais cedo ou mais tarde, a esta importante obra de reedificação interna da egreja, porque outra não se deve tentar, por improficua e dispendiosissima.

Em todo o caso já seria um adeantado passo acabar a restauração externa da velha egreja de D. Affonso Henriques, que deve considerar-se um verdadeiro monumento da epoca, recordando a constituição e a independencia da Nação Portuguesa.

CAPITULO QUARTO

SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII

Traçar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira expressão social, scientifica e esthetica, é materia difficil, principalmente nos limites estreitos d'este livro; todavia, por nos parecer indispensavel, conforme o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas proporções.

O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante da Edade-Media; concentra e dá unidade, por assim dizer, aos trabalhos do pensamento humano, realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros de sciencia e de philosophia, que produziram a renascença artistica e litteraria do seculo XVI, a philosophica do seculo XVII e, emfim, os grandes movimentos sociaes e politicos dos seculos seguintes.

A organisação das monarchias feudaes, como a tentámos descrever n'outros capitulos, estava completa no começo do seculo XIII; em verdade, até começava a resvalar para a dissolução, que se operou no fim do seculo XV e de que foram principaes agentes em França Luiz XI, em Inglaterra Henrique VII, o fundador da dynastia dos Tudors.

As grandes guerras religiosas para libertação do solo sagrado de Jerusalem, que aliás nunca foi perfeitamente livre e christão, foram a grande obra das monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do seculo XIII. Este grande esforço do feudalismo accumulou as causas da propria decadencia; como as organisações vigorosas se enfraquecem pelo excesso de trabalho.

Prégadas pelos proprios Papas ou animadas por elles, as Cruzadas tinham levado ao oriente, durante dois seculos, milhões de homens das nações occidentaes. A melhor cavallaria feudal, durante este longo periodo, havia deixado no caminho de Jerusalem parte das riquezas, e as vidas nos campos das batalhas ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo de homens ligara intimamente as relações entre os dois extremos da Europa, trazendo para o occidente novos elementos de uma civilisação mais adeantada, novas idéas e processos; activando, emfim, as reciprocas transacções commerciaes, de que foram poderosos centros Genova, Marselha e Veneza.

Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando longinquo e dispendioso estado de guerra, emquanto a burguezia se enriquecia no commercio pacifico e as classes populares repousavam e trabalhavam, livres de grande numero dos pequenos tyrannos. A exaltação do espirito religioso, excitado pelas santas Cruzadas, approximara as nações e dentro d'ellas as respectivas classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava vigor na vida local das communas, cujas revoltas eram mais faceis e mais baratas as compras de direitos civicos a senhores, que careciam de dinheiro para as enormes despezas da guerra e satisfação de um luxo exagerado, que traziam sempre inveterado nos costumes, quantos tocavam sequer de leve as civilisações orientaes. Assim, no seculo XIII baixava o sol do feudalismo e começava a raiar a aurora d'essa energica vida communal, que nas mãos de suzeranos habeis devia servir mais tarde de poderoso instrumento para reduzir os barões feudaes, livres e turbulentos, a vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco a simples cortezãos, servis e lisonjeiros, que apenas ostentavam nas antecamaras reaes honorificos titulos de antigos apanagios e nomes de gloriosos antecessores.

No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia sobre o orbe christão, a Europa. Pela religião e pelo respeito tradicional, o Papado impozera-se aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo entre os principes, perseguia-os como revoltosos e criminosos sobre os proprios thronos e, sendo preciso, separava-os do povo pela interdicção dos Estados, ou pela excommunhão dos rebeldes.

Desde os fins do seculo XI, o poder temporal do Papa tornara-se um facto consummado. O antigo bispo de Roma já usava em volta da tiára a primeira corôa da soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis christãos, cuja consciencia elle dominava pelo espirito da religião. Senhor quasi absoluto, depois da _querela das investiduras_, d'essa machina immensa que se chama hierarchia ecclesiastica, levando a acção poderosa até ás consciencias mais humildes e obscuras, no seculo XIII, o Papa era o primeiro poder da Europa. Assim, o Papado fôra o espirito das Cruzadas e o feudalismo o seu braço armado, que na lucta gastou as forças e perdeu quasi os bens, herdados em grande parte pela egreja, cujas enormes riquezas não satisfizeram nunca as suas ambições colossaes.