# A Alma Nova

## Part 4

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Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade, que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões, uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se acabassem de fazer uma acção má.

E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas, das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?

Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente, d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo; que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.

E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal, não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos luminosos da rasão.

Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções, que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E, sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações, os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança n'um melhor futuro.

Anthero de Quental.

NOTA

Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63, devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.

INDICE

INDICE

I--Eu poucas vezes canto os casos melancolicos II--Eu vi passar além vogando sobre os mares III--Velha farça IV--Graça posthuma V--Historia simples VI--A meza do festim cercada de formosas VII--Os sonhos mortos VIII--Falta a ordem IX--Ó lyrios da cidade, ó corações doentes X--Miseria santa XI--Astro da rua XII--Quando Martha morrer, depois do extremo arranco XIII--As victimas XIV--Evocacas XV--Boas noites, coveiro, a tua enxada XVI--Flor da moda XVII--Ó machinas febris, eu sinto a cada passo XVIII--A Christo XIX--Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o XX--O grande templo XXI--A um certo homem XXII--Á hora do silencio XXIII--Eu quizera depois das lutas acabadas XXIV--O velho cão XXV--As velhitas XXVI--As vizões XXVII--Melancolias d'outono! eu quando além descubro XXVIII--O velho mundo XXIX--Eis a velha cidade, a cortezã devassa XXX--Á noite XXXI--A valla XXXII--Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos XXXIII--Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas XXXIV--Nos campos XXXV--O ultimo D. Juan XXXVI--Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas XXXVII--Antigo thema XXXVIII--A mãe XXXIX--Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas XL--Santa simplicidade XLI--O velho Olimpo dorme o bom somno profundo XLII--Os palhaços XLIII--A hydra XLIV--Os novos leviathãs XLV--Sua alteza real o pequenino infante XLVI--Versos a * XLVII--O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada Appendice

