# A Alma Nova

## Part 3

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Oh, volvamos á terra; aos placidos logares, Aonde os hymeneus fecundos e reaes, Produzem, dia a dia, os fetos singulares E as sãs vegetações dos candidos rozaes!

E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos, Nas grandes expansões dos fugitivos gazes Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.

Forçoso é separar os dois rivaes antigos, Na batalha cruel que em nós se reproduz. Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos; Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!

XXXIV

NOS CAMPOS

A fragrancia do trevo o das flôres selvagens Da noite embalsamava as tepidas bafagens: Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos. O mundo era um altar; as serras grandes aras; E os canticos da paz corriam nas searas Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma Que sente germinar os frescos vegetaes. De subito uma voz deixou-me um pouco extatico: Detive-me um momento; olhei:--era o viatico! De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina, Trazido pela mão d'um padre sem batina Roubado ás sensações d'um longo resonar? Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa, Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre, Um pobre cavador, mordido pela febre, Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor; E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota Tentavam-se esconder na velha saia rota Da mãe louca de dôr!

A voz do sacerdote a custo resoava. A palavra d'amor que ali se precisava, Não posso dizer bem se acaso elle a soltou. Falava o Deus severo e forte dos castigos, Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos. Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos Latiam tristemente em volta do cazal: E o levita lançava áquella noite escura A benção derradeira, erguendo a mão segura, N'um gesto machinal!

Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana, Sahia sem deixar da sãa verdade humana O balsamo suave, o dom consolador! Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto Não era o que deixava ali, n'aquelle canto Sósinha a mesma dôr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza! Nas florestas, no val, nas serras, na deveza, Nas moitas dos rozaes, no movediço mar! O constellado azul dir-se-ía um sanctuario! Havia aquelle albergue apenas solitario, E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo Que em breve ía partir; abandonar o mundo; Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem, Talvez ao presentir o fim da insana lida Soltasse maldicções, ainda, contra a vida E contra nós tambem!

E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes Que lutam todo o dia e vão morrer contentes Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis; E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas Que pela causa santa, em pé, nas barricadas, Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros, Que sagram toda a vida aos ideaes severos Da justiça e do bem; caíndo com valor, Sem que a dextra cruel dos despotas os dome Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome, Varados pela dor!

Ó pobres multidões! as grandes noites frias Não cessam de morder, famintas e sombrias, N'um banquete nefando os vossos corpos nus! E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada, Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada, As petalas de luz!

Eu quando porem lanço as vistas ao futuro E vejo dia a dia a despontar mais puro O grande sol da idéa, em rubidos clarões, Recordo-me que sois a productiva leiva Aonde já circula uma opulenta seiva, De grandes creações!

XXXV

O ULTIMO D. JUAN

D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas Podiam-vos contar as violações brutaes! A gula com que morde as mais sagradas cousas D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

Não descanta á viola, á noite, os seus enleios: Elle vive na sombra e eu sei também que vós, Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios, Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

Mas sede muito embora as virgens sem desejos, As monjas virginaes, uns pudicos dragões; Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos, E ás noites de luar os vossos corações;

Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco, Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil; Nas grandes solidões irá dormir comvosco, Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

E o que elle adora muito ó virgens romanescas Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal: Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas; Deixando o resto a vós damnados do ideal!

Não vive como nós de candidas mentiras: Não communga do amor esse illuzorio pão: Devora com fervor as pallidas Elviras E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro Maior do que o dos reis; adora as solidões: Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro; Mas vive como os reis das grandes corrupções!

Flôres sentimentaes! tremei do paladino, Do velho D. Juan, feroz conquistador, A quem da vossa bocca um halito divino, Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

Mas que um dia virá, na candida epiderme, Na sagrada nudez dos collos virginaes, Em hymnos de triumpho--o grande Cezar-Verme!-- Colher o que ficou de tantos ideaes!

XXXVI

Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas A aérea multidão de fadas quebradiças, Gentis apparições dos bailes e das missas, Desliza no fulgor das pompas seductoras.

No arfar da cazimira ha frases tentadoras E maciezas taes nas languidas pelliças, Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças, Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

E muitos hão de ter uns extasis divinos Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos, A vaga introducção d'uma balada aerea;

Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada, Se escuta, a martellar na sua barricada, Sinistra rota e fria, a livida Miseria.

XXXVII

ANTIGO THEMA

Passae larvas gentis na rua da cidade Aonde se atropella a turba folgazã; A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade Mas o tedio mortal precisa a claridade Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas D'um corrompido mar as Deusas menos vis! Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas, E vindes pela rua enlamear as azas, Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

A pallida Miseria em seu triste cortejo Precisa as contracções de muitos hombros nús: E vós ides sorrindo ao lubrico desejo, Do carro da desgraça arremessando um beijo Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

Embora! caminhae deixando um grande rasto D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes: E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro; Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme, E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés! A grande multidão,--a vaga, a onda enorme, Que oscilla sem cessar, e gira multiforme Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina, Adore a immensa luz, em vós, constellações, Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina, Vagando no rumor da aérea musselina, Em plena bacchanal fingindo de vizões?

Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia De tedios se consome e sente febres más! Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia Que exhala aquella flôr que vem na decadencia E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

Do seculo a voz rude apenas diz--trabalha!-- Ao poste vil amarra o lubrico ideal Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!

XXXVIII

A MÃE

Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr, Que vem d'Eva a Maria--a doce mãe de Christo-- Formando a stalactite immensa d'uma dôr!

Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes, Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel, Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!

A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia, Rebolam-se na terra: ainda pedem pão! Com elles repartis a vossa parca ceia; E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

D'inverno quasi sempre as noites são mordentes. Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem: Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes, Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!

Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia A roupa que os abafa, aos pobres acudis; E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias Podeis então dormir um tanto mais feliz.

Mulher quanto é suave e longo esse poema Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel, Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo, A pallida mulher que rompe a multidão, Trazendo agasalhado, um filho no regaço, E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir: E a ella qualquer codea a farta e a consola Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!

E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira No fumo dos festins revoa em turbilhão, Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras; Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga: Do palacio á cabana o vosso doce olhar, Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga, D'um raio creador o berço a illuminar!

No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo, Da moda traja agora os novos ouropeis, E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo, Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias, Se aquella santa flôr das grandes commoções, Apenas tem logar nas vossas elegancias. Como um enfeite de mimo amado nos salões;

Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos, Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais, Sonhando a sagração dos heroismos novos, Resplendente de luz; vistosa de metaes:

Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem Por entre a saudação das alas cortezãs, Levando as seducções da vossa doce imagem Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

Surgi do canto obscuro aonde o casto seio Palpita ingenuo e bom na paz da solidão, E o vosso amor levae á opera e ao passeio A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro Maior do que nenhum podemos encontrar, Intenta seduzir pela medalha d'ouro Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

XXXIX

Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!... Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas; Dá saudades á lua.

Um beijo em cada estrella!... Espera que eu sou louco! Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos! Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco: Boas noites adeus!

XL

SANTA SIMPLICIDADE

Na serena missão de paz que tu cumpriste Ó suave Jesus, ó doce galileu, Que santa singeleza e que perfume triste Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

Havia no teu verbo aquella unção divina Que a velha harpa de Job soltou nas solidões, E o bello, o puro sol da antiga Palestina Suave contornou, de luz, tuas feições!

Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé, E sorrias falando aos rudes e aos pastores, Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

Da tua Galiléa os valles percorrias Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar, E o grande olhar suave e terno das judias Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

E mais simples na morte, apenas a tua alma Transpunha as regiões purissimas do sol, Tu que havias colhido a immorredoura palma Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!

Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis, Os que se dizem ser apostolos de Christo Não precisam trajar os infimos bureis.

Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos Envoltos na estamenha, apedrejados, sós, Nos desertos viver de mel e gafanhotos, Convertendo o gentio ao som da sua voz.

Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes Dos palacios reaes, nas grandes recepções, E formam-lhes cortejo os coches reluzentes Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas, Afim d'honrar melhor a primitiva fé, Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas; Polvilham-se melhor os homens da libré!

E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas, Fataes scintillações de vinhos e rubins, Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas, Lampejos de cristaes, insidias de setins!

Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias Façam peso de mais na barca do Senhor, Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias Mal podem segurar o leme salvador!

Por isso quando avisto o espaço que negreja E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã Do fendido baixel da tua velha Egreja Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

XLI

O velho Olimpo dorme o bom somno comprido Que prostra o lutador no fim d'uma batalha, E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha, Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

No puro céo christão, de estrellas revestido, No entanto ha muito já que chora e que trabalha, Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha, A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado E senta-te, mulher, no throno abandonado Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

Depois inda maior, mais pura e mais serena, No sangue de Jesus molhando a tua penna Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

XLII

OS PALHAÇOS

Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos, Eu gosto do vossês, Por que amo as expansões dos grandes rizos francos E os gestos d'entremez,

E prezo, sobretudo, as grandes ironias Das farças joviaes, Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias, Á turba arremeçaes!

Alegres histriões dos circos e das praças, Oh, sim, gosto de os ver Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças Do povo enlouquecer,

Ungidos para a luta heroica, descambada, De giz e de carmim, Nas mimicas sem par, heroes da bofetada, Titães do trampolim!

Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico Por entre as saudações Da turba que festeja o semi-deos elastico Nas grandes ascenções,

E no curso veloz, vertiginoso, aerio, Fazei por disparar Na face trivial do mundo egoista e serio A gargalhada alvar!

Depois mais perto ainda, a voltear no espaço, Pregae-lhe, se podeis, Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços Lusentes como reis!

Eu rio sempre ao ver aquella magestade, Os tragicos desdens, Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade, A troco d'uns vintens!

Mas rio ainda mais dos histriões burguezes Cobertos d'ouropeis Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes, A serio os seus papeis.

São elles, almas vãs, consciencias rebocadas, Que, em fim, merecem mais O comentario atroz das rijas gargalhadas Que ás vezes disparaes!

Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos, Nas comicas funcções, Até fazer morrer, em desmanchados gestos, De riso as multidões!

E eu que amo as expansões dos grandes risos francos E os gestos d'entremez, Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos, Eu gosto de vossês!

XLIII

A HYDRA

Ha muito que desceu das orientaes montanhas A hydra singular que espalha nas ardencias D'uma luta febril scintillações estranhas!

Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias, E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço E corre descrevendo em giros caprichosos Na leiva popular um indefinido traço.

Prefere aos antros vis os focos luminosos E em mil voltas crueis aperta dia a dia, N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

Passou pelo paiz da candida Utopia: Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

Mas hoje com valor em toda a parte assoma, E sem temer sequer a lugubre vizeira Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira Do seu longo triumpho, um tanto apavorados, Trataram d'acender a livida fogueira.

E ao galope lançando os esquadrões cerrados Começaram depois, na terra, a perseguil-a, A cumplice fatal dos lividos Pecados!

Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla, Derrama cada vez mais bellos e fecundos Os intensos clarões da lucida pupilla,

E emquanto a imprecação de tantos moribundos, Os despotas crueis, acolhem com desdem, A hydra immensa--a Idéa--a farejar nos mundos Ainda a garra adunca afia contra alguem!

XLIV

OS NOVOS LEVIATHÃS

Dos antigos Titães, o mar,--fera indomavel, Agora verga o dorso ao peso colossal Dos novos leviathãs que em bando formidavel, Nas grandes explosões da colera insondavel, Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

Elles seguem no mar, altivos no seu rumo, Em halitos de fogo, á nossa voz fieis, E como o combatente erguendo a lança a prumo, Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

Que sopro creador, que força omnipotente Os fez surgir do nada, os monstros colossaes? Ó novos leviathãs provindes tão somente Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

Correis de mar em mar, altivos, triumphantes, Levando a toda a parte a vida, a nova luz, E as sereias gentis não fazem como d'antes, Ao som da sua voz, perder os navegantes; O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

Ó alma antiga dorme inerte no regaço Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador Agora ri de ti, prostrada de cansaço, Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço Outra alma inda mais larga,--o novo Deus-Vapor!

XLV

Sua alteza real o pequenino infante Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira: Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira Que sua alteza vinha á diversão galante!

Ó vergontea gentil! quando um tropel distante De subito acordar os echos da clareira E uma preza cansada, em rolos de poeira, Varada, a vossos pés, caír agonisante,

Acercai-vos então da pobre fera exangue Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue Sem que um grito de dó nos corações acorde!

No entanto não fiqueis na doce gloria absorto: O velho javali parece ás vezes morto Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

XLVI

VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco, O triste sonhador que o teu olhar cantou, E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco, Fugir como o luar d'um astro que expirou!

Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido E tempo é já, talvez, da Morte desposar O sonho que em minha alma entrou como um bandido E só da vida sae depois de me roubar!

Eu devera amarral-o á braga do forçado, Como a Justiça faz aos despreziveis réos, E lançal-o depois á valla do passado Aonde o fulminasse a colera dos céos.

Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos Ao som d'uma canção das quadras juvenis, E amortalhar depois--em doces pensamentos-- No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando elle seguir ás regiões saudosas, Aonde todos nós iremos repousar, Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

Ninguem profanará seus restos adorados, Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo; E quando alguma vez já hirtos, regelados, Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta Que em breve has de sentir fechada sobre ti, Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta, E não te escutarei... porque também morri!

XLVII

Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada Agreste e pedregosa, aonde os companheiros Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros, Formando os batalhões da bellica avançada!

E o trajo em desalinho, a face illuminada, Transponde, sem demora, os fossos derradeiros Que separam de nós os braços justiceiros Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa. Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta, Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos; Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos Como fios de luz, ao manto da Justiça!

FIM.

APPENDICE

Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se, tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_ poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae seguindo a arte contemporanea.

Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á individualidade litteraria do autor das _Radiações_.

Guilherme d'Azevedo

TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

a preposito das

RADIAÇÕES DA NOITE

do sr.

Guilherme d'Azevedo

O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado. No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um deslustre aos olhos da historia?

Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia, cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva, social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado, individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente. Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem, historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é já como então, um convencimento violento dos direitos da propria loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se criam os verdadeiros poetas.

