Part 2
E tem de os consumir a grande nostalgia D'um mundo mais á moda e menos trivial, Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia E se possa esquecer a vil monotonia De tudo que nos cerca:--Alice eis o teu mal mal!
No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias A febre, mãe cruel d'estranhas sensações, Na fria placidez do gaz e das bigonias Construe na tua mente as grandes babylonias D'um mundo extraordinario e monstro de visões!
Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa: És boa e fazes gala em que te julguem má. E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa E os extasis crueis d'uma mulher nervosa: --Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!
E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha Aquella eterna luz, amor dos immortaes, Que tu amortalhada em rendas e escumilha Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha, O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!
XII
Ó machinas febris! eu sinto a cada passo, Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso, Que a nova geração nos labios traz suspenso Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!
Emquanto o velho mundo arfando de cansaço Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!
Vós sois as creações fulgentes, fabulosas, Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas, Mordeis o pedestal da velha Magestade!
E as grandes combustões que sempre vos consomem Começam, n'um cadinho, a refundir o homem Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!
XVIII
A CHRISTO
Precisamos Jesus, se não te sentes velho, Que cinjas novamente o resplendor de luz E venhas explicar a letra do evangelho A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!
Ainda não cessou, de todo, essa contenda Que um dia, ha muito já, tentaste debellar: E aquelles que são bons e adoram tua lenda Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.
Apenas resoasse o teu verbo indignado, O latego febril das grandes corrupções, Iria atraz de ti um mundo revoltado Que sente na consciencia a luz das redempções.
E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos, Havias d'encontrar essa alma de bohemia Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!
Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido Não póde supportar os gelos da manhã. Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido E a vida aqui é cara e longo o macadam!
Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos No mundo revolvido, e escuta-me Jesus: Se não fosses, em fim, comido pelos corvos Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!
Serias apontado a dêdo, muitas vezes, Como um simples bandido, um agitador feroz, E haviam de esconder seus ouros os burguezes Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!
Depois vinhas achar a par do proletario, Ao pé do que se innunda em bagas de suor, Aquelle velho Pedro, agora millionario, E triste por pensar que já esteve melhor!
E perto do ocio vil á sombra do qual medra O egoismo feroz que extingue o coração, Lutando todo o dia o britador de pedra A quem á noite espera, em casa, um negro pão;
E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome, Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús; Abrindo os olhos muito á codea que elle come E indo-se deitar sem roupas e sem luz!
Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste Recende uma fragrancia etherea e divinal, Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste Sem treguas combatendo as legiões do Mal!
Tu foste o paladino, o trovador sagrado, Que falaste do amor, da paz e do perdão, E o ferro que varou teu corpo lado a lado Comtudo inda reluz altivo em muita mão!
Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça O gladio vingador das oppressões crueis, Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça, E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!
Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas, N'esse velho sepulchro, o immenso vozear Dos mineiros sem luz, das legiões famintas, Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,
Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus, E tanto vae subindo a vaga da consciencia Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus
XIX
Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o. Era em praia dezerta, em frente a um longo mar: Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo, E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!
De subito surgiu, na praia, uma criança D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão, E o mar contemplou com tanta confiança Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!
Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco Levando ia comsigo aquella flôr dos céos! E em breve só boiava um tenue vulto branco No mar onde fluctua o espirito de Deus!
Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem Da mais casta mulher que em vida pude ver. Detinha-se distante:--a espuma da voragem Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!--
O immenso mar, porém, crescia a cada instante Mais turvo e mais veloz! depois... Não quiz vêr mais. Ergui-me e caminhei de val em val errante Pensando tristemente em coisas ideaes!--
Ao longe, muito além, na serra desviada De subito encontrei--ó estranha apparição--! Uma pobre velhita enferma e desolada Trazendo já no olhar a grande cerração!
Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora. Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa? Iria aonde vae o que hontem foi aurora E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?...
Dos meus instantes bons, ó lucida chimera, Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer! Que importa a grande noite em plena primavera, Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!
XX
O GRANDE TEMPLO
Eu não trajo o burel do magro cenobita Nem me posso infligir crueis macerações; Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita No seio casto e bom das grandes solidões.
Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes E certas vibrações que podem fazer mal; Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes Amal-o com fervor no templo universal!
Em quanto sobre o altar das serras azuladas Mil lampadas do céo derramam toda a luz, Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas, O Tempo,--o grande verme!--até devora a cruz!
Depois é facil vêr, por entre os arabescos Que a arte sensual traçou com tanto amor, Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos Pungindo cruelmente a face do Senhor.
Ou mais; podemos nós voar todos captivos Do sereno ideal, d'aquelle summo bem, Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos Olhando de revez a virgem nossa mãe?!
E ainda mil traições: as musicas, as flôres Os lindos seraphins voando todos nús; Da sêda que se arrasta os languidos rumores Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!
Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes, O vinho scintillante, a viva luz do gaz; Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes, Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!
O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta. Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar, Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta, As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!
Da casta natureza ó templo gigantesco, Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais! O meigo e doce olhar do Christo romanesco A multidão gentil não chama aos teus umbraes.
XXI
A UM CERTO HOMEM
Agora és todo nosso: a rude voz da historia Já póde hoje falar E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria Rei-sol de _boulevard_.
Que dias d'esplendor! Porém como começa A noite e a podridão! Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa Da eterna punição!
Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha Que vejam ámanhã, Que até lhe depennou as aguias de Bolonha O abutre de Sedan!
E visto que em redor nenhuma estrella brilha E a noite é longa e má, No caminho do opprobrio acende a cigarrilha E, cezar, ouve lá:
Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente Que de Valmy levou, Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente; Nossa alma até Moscow!
Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes Depois, caminham sós; E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides A alma dos Pharaós!
E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento, Na gleba das nações, Convictos semeando o novo pensamento No sulco dos canhões!
Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza E quando a tens aos pés, Celebras a victoria aos hymnos de Thereza, A musa dos cafés!
Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína Ainda a afrontam mais, Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina D'um circo de chacaes!
E sobre alguns montões de mortos ainda quentes, Emfim campeias, tu, Que déste á sagração das cousas dissolventes Um Petroneo-Sardou!
Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama Um dia avanças mais, Teu carro triumphal trambolha-te na lama E então como tu saes!...
Revolves-te no horror das vis, infectas ondas De lodo e podridão, E vaes de manto roto e vestes hediondas Buscar a escuridão!
Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente Da luta que sorri, Do fumo dos canhões fugiste, e de repente... Matou-te um bistori!...
Que entrada a tua, então, na funebre morada, Pizando, incerto, o pó, Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada, Sinistro, sujo e só!
Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos Dos bons e dos leaes, Apenas descobriste a marca dos _castigos_ Nas faces triviaes!
E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche E o gesto de Danton, Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche Meu cezar-Benoiton!
73--Janeiro.
XXII
Á HORA DO SILENCIO
Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico A doce embriaguez do pallido luar, Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!
A cidade dormia o somno dos devassos; Aquelle somno turvo, infecto e sensual: E a lua, antiga fada, erguia nos espaços Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!
E sobre a quietação das coisas vis e exoticas Sentiam-se as febrís, crueis respirações, Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas, Dos amantes fataes da febre e das paixões!
A noite era em silencio, a athmosphera doce E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus. De subito escutei, ao longe, o quer que fosse D'um canto que suppuz então baixar dos céos!
Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco Senti que era uma voz disforme e sensual, Soltando uma canção n'aquelle accento rouco Da triste inspiração alcoolica e brutal!...
Ó terna vagabunda, enamorada lua! Emquanto ias assim, diaphana e sem véo, Uma triste mulher passava, então, na rua Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!
XXIII
Eu quizera depois das lutas acabadas, Na paz dos vegetaes adormecer um dia E nunca mais volver da santa lethargia, Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!
Seria bello ouvir nas moutas perfumadas, Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria, As sãas vegetações, em intima harmonia, Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!
Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo: Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo, --Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;--
Tu, felina mulher com garras de veludo Havias de trazer meu espirito, comtudo, Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!
XXIV
O VELHO CÃO
Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo Uns doloridos ais, Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo, Cerrado aos vendavaes.
Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso Em seu triste chorar! Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso E um vago, um doce olhar!...
Eis a sorte cruel do pobre que não come, Dos miseros sem pão! Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome, A negra apparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente, Feroz, quasi voraz! E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa, Etherea, virginal, Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa E a quem fazia mal,
Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios Pender a fronte ao chão! Saíram pois á rua impavidos lacaios E foram dar no cão.
--Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado, --O povo soffredor, Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado Ás portas d'um senhor.
O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos O fim que ella ha de ter. A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos E manda-lhe bater!
XXV
AS VELHITAS
Eu não professo muito o culto das ruinas. Prefiro uma officina ás velhas barbacãs; Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas, No entanto nunca insulto as prateadas cãns.
Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas, Com seu bento rozario, os seus fofos beitões, A rirem-se de nós, crueis, maliciosas, Sagazes comentando as nossas illusões!
Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas, Vulcões de que só resta a cinza e nada mais: Já fostes as visões; talvez as brancas fadas; Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;
Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos Dos lagos ideaes cubertos de luar; As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos; As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!
Pendestes já scismando as frontes melancolicas Nas varandas á noite, amantes dos Titães Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas! E agora apenas sois as mães de nossas mães!
Segui vosso caminho: as graciosas fadas, As bellas da cidade, anémicas, gentis, Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas, Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!
Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas, Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões, Que fostes já, tambem, galantes e nervosas Mas destes isso tudo a varios corações!
Agora tendes pouco: apenas uns lamentos Sentidos contra nós; queixumes sem valor E ao mundo importam muito os vossos testamentos E importa muito pouco a vossa immensa dôr!
Batei á grande porta: os bellos dias vossos Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais! Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos O residuo fatal das cousas virginaes!
XXVI
ÁS VISÕES
Pois que visões! não cessa a rapida corrida E seja noite ou dia, Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida Na minha phantasia!
Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_, Parti, que o mando eu, Como um bando fatal de velhas amasonas Que o circo aborreceu!
Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava; O angelico sorriso; E as azas d'escumilha em que eu voava Á noite, ao paraiso!
Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas Sentindo-me feliz, No somno machinal dos velhos acrobatas Depois das farças vis!
Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi, Lembrando-me--ó verdade!-- Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze E uns traços d'alvaiade.
Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo, D'aquelle meigo azul, Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio, Na dôr, ao rei de Thule;
E quando vos apraz, nas azas transparentes, Mais alto ides por certo, Do que as deusas gentis, aerias, insolentes, Que vemos voar tão perto!
No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas Que o seculo, afinal, Occulta no esplendor não sei que vis miasmas Que fazem muito mal!
E quando vós passaes, nas horas do mysterio D'estrellas revestidas, Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio Das rosas corrompidas!
Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo Archanjos ideaes, Deixando-nos colher a flôr do realismo Nas coisas triviaes!
XXVII
Melancolias do outono! Eu quando além descubro, Nas tristezas do campo, as filas mugidoras Dos vagarosos bois que voltam das lavouras, Compungem-me as crueis desolações d'outubro!
Das orlas do poente, afogueado, rubro, Ó moribundo sol! com que poesia douras, As formas triviaes das cabecitas louras, Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!...
Solta o canto final a orchestra da folhagem: São horas de partir; apresta-se a viagem, E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!
Mas as vistas lançando ás regiões saudosas, Nos esforços crueis das tosses dolorosas, Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!
XXVIII
O VELHO MUNDO
Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio, A necrópole immensa, a campa dos colossos, Aonde em paz descansa o velho megatherio, Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!
E os grandes leviathaãs dos primitivos mares; Os tremendos reptis, crueis, descommunaes, Celebram no silencio as nupcias singulares Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!
E os esqueletos nús dos lividos gigantes Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova, Deixando um logar vago aos velhos elephantes Que vão fugindo á luz da natureza nova!
Tambem no mundo interno as almas vão seguindo. Na corrente da vida, em mil circulações; E da consciencia humana o largo abysmo infindo Occulta, ha muito já, disformes creações!
Ellas dormem na sombra immensa do passado Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos, A velha Realeza e o trémulo Papado Sem forças descançar os corpos corrompidos.
Depois virão mais tarde as gerações futuras E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar, Bem como a nossa voz, as grandes creaturas Do mundo primitivo, obriga a despertar.
E as crianças terão seus nomes de memoria, Como exemplo, na vida, a todos os momentos; E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia, Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;
Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo; Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu, Eguaes ao masthodonte armado para estudo E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!
XXIX
Eis a velha cidade! a cortesã devassa, A velha imperatriz da inercia e da cubiça, Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa! Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!
Ella estreita no seio a velha populaça, Nas vis dissoluções da lama e da preguiça, E nunca o santo impulso, o grito da Justiça, Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!
E póde receber o beijo e a bofetada Sem que sinta o rubor da colera sagrada Acender-lhe na face as duas rosas bellas!
Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto, Ás vezes, acompanha o provocante gesto Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!
XXX
Á NOITE
Eu gosto de velar a percorrer os mundos Ó noite dos bons canticos, Aos lividos clarões dos astros vagabundos Nos extasis romanticos,
Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa Dos falsos ouropeis, Com seus famintos cães, a sua lua baça E os seus negros bordeis,
Resona torpemente aos beijos deleterios D'alguns velhos amantes; --Os longos hospitaes e os tristes cemiterios Que a afagam delirantes!
Comtudo eu tambem sei que existe muito instante De gelos, em que tu, Feroz, cravas o dente agudo e penetrante No pobre seio nú!
Que ha horas em que vens, nas humidas cidades, Nas choças, nos esgotos, Cuspir cynicamente as frias tempestades No seio vil dos rotos,
Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa Um dia sem ter pão, Nem d'essa esfarrapada e velha populaça Que rosna como um cão!...
Mas em breve deixando as tenebrosas vestes, O manto dos horrores, E o gladio vingador das coleras celestes Ó noite dos amores,
Retomas o tom puro e santo do mysterio Da pallida mulher Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio E ao campo um malmequer!
Em horas de tormenta és a mulher colerica! Até cospes na cruz! E formam-te espiraes na coma athmospherica As viboras de luz!
Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme, Em doce e plena paz, É que a virtude sonha e que a desgraça dorme Depois das horas más,
E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos; Os casos mais galantes; As languidas canções; os bellos desalinhos E os gestos provocantes!...
Ó filha do silencio! Aos puros alabastros Dos hombros ideaes, Se Deus arremessasse a quantidade d'astros Que em ti brilham a mais,
As pallidas visões que passam doloridas, E um tanto contristadas, Haviam de surgir d'estrellas revestidas Em trajos d'alvoradas!
Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis De languidas canções, O pobre sonhador de coisas impossiveis Que adora as solidões!
E quando o resplendor de mundos luminosos Na tua fronte cinges, Os gatos sensuaes, electricos, nervosos Repouzam como esphinges;
Emquanto as combustões dos lividos comêtas, Errantes e fataes, Comsomem lentamente as grandes borboletas Dos nossos ideaes!
XXXI
A VALLA
Trazei mortos á valla; a hydra está com fome E deve ser-lhe longa a hora em que não come! Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver, Inerte, sem pudor, de fauce escancarada, A amargura cruel da bocca desdentada Que pede de comer!
Lançae ao monstro informe algum repasto novo! Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo. Tranzido pelo frio ou morto pelo sol! E visto haver na fera abysmos insondaveis Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis Que morrem sem lençol!
Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera, Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera A preza que lhe inveja a gula dos chacaes. Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa Da triste procissão cruel e dolorosa Que vem dos hospitaes.
Um velho esquife chega: em duas taboas toscas Um pobre semi-nú coberto já de moscas, N'um riso deixa ver não sei que tons crueis! Emquanto nos sorria a luz das noites bellas, Talvez que elle varresse a lama das viellas E o lixo dos bordeis!...
E poude, em fim, dormir no seio bom da morte! Apoz, como se fôra a livida consorte D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem, Trazendo por sudario os seus vestidos rotos, Uma triste mulher caída nos esgotos Sem bençãos de ninguem!
Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente: Reune-os em consorcio e dá-os de presente Á larva que partilha as ancias do teu ser! Aguça o teu desejo!--A garra infecta lança Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança Que a mãe te vem trazer!
Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado A fila tenebrosa! O espectro do soldado A par do que vergou cançado de cavar: E o mineiro sem luz, o martyr legendario; E amparando-se a custo ao velho proletario A flôr do lupanar!
Mastiga a turba vil e alonga essa guela! Bem vês que vem chegando um corpo de donzella Que pela candidez recorda uma vestal! Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco E traz viçoso ainda um grande lyrio branco No seio virginal!
Ó monstro sensual na sombra tripudia! Celebra no silencio a tenebrosa orgia, Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim! N'um beijo os labios colla á frigida epiderme E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme, Que viva e gose emfim!
Eu quero ver-te farta, em halitos profundos, Dormindo o somno vil dos animaes imundos, De ventre para o ar; serpente infecta e má! E ámanhã, na estação dos candidos amores, Veremos rebentar n'um tapete de flôres O lixo que em ti ha!
E a santa mocidade; as languidas mulheres; Virão depois colher os gratos malmequeres, Pizando-te sem medo e cheias de desdem, Em danças sensuaes; o fato em desalinho; Compondo-te canções; regando-te de vinho; Sem pena de ninguem!
E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha; Que não mostras pudor; que não sentes vergonha; Que és a campa-monturo e não pódes ser mais; Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas, Terás dado um perfume ás almas namoradas, E pasto aos animaes!
XXXII
Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos, Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes, N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes. Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;
Que bom que era sonhar nos pallidos castellos, Á noite, á beira mar, nas solidões distantes, Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes Á lua confiava os intimos anhelos!...
Agora sois gentis, despepticas, vistosas; Pagaes por alto preço as exquisitas rosas; Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;
Mas prostradas do baile, amarrotando a luva, Emquanto cae na rua a somnolenta chuva, Scismaes no Deus-Milhão,--no Creador da moda!
XXXIII
Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas D'uma rosa de fogo aonde vão libar, O mel das illusões, quaes timidas abelhas, Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.
Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo, Tocado pelo sol, em mim poude nascer Este bando cruel que dentro do meu craneo Não faz ha muito já senão roer, roer?!
Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas; Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos; E volta a demolir as trémulas ruinas Do templo onde crepita a luz dos dias meus!
Ó grande flôr suave! e n'isto se resume A constante batalha, o sempiterno afan! Aspira a minha essencia ao teu grato perfume; Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!