A Alma Nova

Part 1

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GUILHERME D'AZEVEDO

A ALMA NOVA

LISBOA

TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO

Rua do Norte, 145

1874

A ANTHERO DE QUENTAL

A ANTHERO DE QUENTAL

_Meu amigo.

Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e generosa_.

Dezembro de 1873.

Guilherme d'Azevedo.

I

Eu poucas vezes canto os casos melancolicos, Os lethargos gentis, os extasis bucolicos E as desditas crueis do proprio coração; Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho Da muza sem pudor que mostra no caminho A liga á multidão.

A sagrada poesia, a peregrina eterna, Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna, Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes; Que ensaia, presumida, o gesto romanesco E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco, Põe crémes triviaes!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade! Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, Os falsos ouropeis das cortezãs gentis, E julgam já tocar-te as roçagantes vestes Ó deusa virginal das coleras celestes, Das graças juvenis!

Retine a cançoneta alegre das bachantes, Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, Visões d'olhar travesso e provocantes pés, E julgam já escutar a voz do paraiso, Amando o que ha de falso e torpe no sorriso Das musas dos cafés!

Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça Estiolada e gentil, que vem depois da missa Mostrar pela cidade o seu fino desdem, Nem a fada que sente um vaporoso tedio Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas A menina gentil que ás portas das egrejas Emquanto a multidão galante adora a cruz, A bem do pobre enfermo á turba pede esmola Nas pompas ideaes da moda, que a consola Das magoas do Jesus!

E nas horas de luta emquanto os povos choram E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram, Não posso dizer bem se acaso tu serás A senhora que espalha os languidos fastios Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios Á viva luz do gaz!

Tu és a apparição gentil, meia selvagem, D'olhar profundo e bom, de candida roupagem, De fronte immaculada e seios virginaes, Que desenha no espaço o limpido contorno E cinge na cabeça o virginal adorno De folhas naturaes.

Tens a linha ideal das candidas figuras; As curvas divinaes; as tintas sãs e puras Da austera virgindade; as bellas correcções; E segues magestosa em teu longo caminho Deixando fluctuar a tunica de linho Ás frescas virações!

Quando trava batalha a tua irmã Justiça Acodes ao combate e apontas sobre a liça Uma espada de luz ao Mal dominador: E pensas na belleza harmonica das cousas Sentindo que se move um mundo sob as louzas No germen d'uma flôr!

N'um sorriso cruel, pungente d'ironia, Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria, O latego febril das grandes punições; E vendo-te sorrir, a geração doente, Sentir cuida, talvez, a nota decadente, Das morbidas canções!

Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros O manto constellado, ó deusa dos assombros, Até chegar um dia ás regiões de luz, Aonde, na poeira aurifera dos astros, Contricto, Satanaz enxugará de rastos, As chagas de Jesus!

Logar á minha fada ó languidas senhoras! E vós que amaes do circo as noites tentadoras, Os fluctuantes véos, os gestos divinaes, Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico, Voando no corcel febril, nervoso, elastico, Dos novos ideaes!

II

Eu vi passar, além, vogando sobre os mares O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem E as algas naturaes, serviam de roupagem Á triste apparição das noites seculares!

Seguia tristemente ás regiões polares Nos limos das marés; e a rija cartilagem Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem, No peito carcomido, uns grandes nenuphares!

Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça

Dos astros, caminhando; apenas as ruinas Das tuas creações fantasticas, divinas, De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!

III

VELHA FARÇA

Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel! Vão ver passar na rua um velho saltimbanco E uma féra que dansa atada a um cordel.

Ó funambulos vis, comediantes rotos, O vosso riso alvar agrada á multidão! E quando vós passaes o archanjo dos esgotos Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas D'uns velhos animaes que já foram crueis E agora vão soffrendo os risos das creanças E os apupos da turba a troco de dez réis.

Conta um velho histrião, descabellado e pallido, Da féra sanguinaria o instincto vil e mau, E vae chicoteando um urso meio invalido Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije A fera legendaria olhada com pavor: E uma deosa gentil, vestida de bareje, Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis: E accresce á multidão a turba dos soldados, --Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

E o funambulo grita; impõe qual evangelho Á turba extasiada a grande narração. E sobre um cão enfermo um ourangotango velho Passeia nobremente os gestos de truão.

Correi de toda a parte, aligeirae o passo, Deixae a grande lida e vinde á rua vêr As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço, E um archanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens ó povo legendario No comico festim que mal podes pagar, Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

IV

GRAÇA POSTHUMA

Depois da tua morte eu heide ver se arranco, N'uma noite serena, ao teu berço final, Um producto mimoso;--um grande lyrio branco Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

Aquella flôr suave, ó minha visão estherica, Debruçada gentil, na taça em que a puzer, Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

E mesmo conterá, de certo, alguma cousa Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar: --Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!--

E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho, Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús, A fragrancia que exhala a candidez do linho Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

--Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose Depois do verme vil teu seio polluir, Mais pura no frescor de tal metamorphose Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos Da vida, são crueis mas passam como um som! Um dia quando em fim dos velhos sedimentos Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

Talvez que eu durma já tambem sob os matizes Das flôres, ao sorrir das mil germinações, Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes Depois de te sagrar as ultimas canções!

V

HISTORIA SIMPLES

Havia um rapaz são, robusto, bom, valente, De espadua larga e rija; um ceifador gentil. Cavava todo o dia, andou sempre contente E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

Elle amava a campina e os ceus largos, serenos. Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis. Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos, Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas: N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão. E tinha ainda mais não sei quantas creanças Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas: Era bebado e mau, batia na mulher; E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas, Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

Um dia uma senhora honesta da cidade, Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir, Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade E fez-lhe um certo gesto:--o moço não quiz ir.

Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia. Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,--irei! Despediu-se dos seus: devia obediencia Á senhora gentil que se chamava... a Lei!

Pegou no velho alforge e no bordão nodozo E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos Choravam á partida:--um quadro doloroso! A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!

Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram Primeiro foi medido e todos a final, Depois de bem revisto, á uma, concordaram Que ao serviço do rei convinha este animal!

Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna, --A ordem--jubilava em doces pulsações! Contava mais um servo, um filho, na cazerna, Gastando pouco mais:--uns cobres e uns feijões!...

Agora quando passa o batalhão luzente Na rua, podeis ver o pobre cavador Com modos imbecis, marchar pesadamente --Heroe por conta alheia--ao rufo do tambor!

Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes! Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei! Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes Que trazem no chicote a salvação do rei.

E na pobre cabana ainda se conserva O mesmo quadro triste:--a lacrimosa mãe; Alguns pequenos nús rolando sobre a herva, E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!--

Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella: Emquanto na campina alouram os trigaes, Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella: Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

Em breve elle virá de jubilo e d'assombro Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro, Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!! A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens! --Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!

VI

Á meza do festim, cercada de formosas, O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos Saudavam juntamente os bellos desalinhos Das galantes vizões das ceias luminozas!

Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas! E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos A gaze sobreposta á candidez dos linhos Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!

Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos! Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos Da menos trivial das fadas tentadoras,

Eu brindo aos mortos!--disse: á legião sagrada Que foi á solidão, á eternidade, ao nada! --Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.

VII

OS SONHOS MORTOS

Embora triste a noite, a vagabunda lua Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus, Igual a uma donzella ingenua e toda nua No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

O mar tinha talvez scintillações funestas. A praia estava fria, as vagas davam ais; Semelhavam, ao longe, as extensas florestas Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado, Immerso no fulgor diaphano da luz, Juncando tristemente o solo ensanguentado Sinistra multidão de corpos semi-nus!

Tinha a morte cruel, em sua orgia louca, Deposto em cada fronte um osculo brutal; E um ironico rizo ainda em muita boca Se abria, como a flôr fantastica do mal!

E eu vi corpos gentis de virgens delicadas Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar, Em sagrada nudez!... Cabeças decepadas!... Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!...

E sobre a corrupção das brancas epidermes Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus, Orgulhosos passando os triumphantes vermes, Da santa formosura os ultimos Romeus!

Se tu minha alma livre ainda hoje conservas Memoria das vizões que amaste com fervor Ahi as tens agora alimentando as ervas De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

São ellas! as vizões dos meus dias felizes, Meus sonhos virginaes, as minhas illusões, Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes, Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

São as sombras que amei, divinas, castas, bellas; As chymeras gentis, os vagos ideaes, Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas, E que não podem já da terra erguer-se mais!

VIII

FALA A ORDEM

Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa; Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?

Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes Começas a morder as purpuras reaes Ó filho trivial da livida canalha!... E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?! Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão? Intentas já limar as grades da prizão,

Fazendo scintillar um ferro contra o solio Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!... Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.

Bandido eu bem dizia!--a carta do A B C!...

IX

Ó lirios da cidade, ó corações doentes Das vagas affecções modernas e galantes; Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes Das orchestras febris,--nos sonhos dissolventes!

Sois os fructos gentis que balançaes pendentes Nas arvores da vida; e os pobres viajantes Famintos d'ideal, sorriem triumphantes Julgando-vos colher nas seivas innocentes!

E tragam com fervor o pomo apetecido Que deve ter um mel oculto no tecido, --Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;

Mas vós que sois da moda um luminozo aborto, Como os fructos crueis das margens do mar morto Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!

X

MISERIA SANTA

Entrando esta manhã n'um templo da cidade Aberto á multidão mas triste e quasi só, O ver ao desamparo a velha magestade N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.

Restavam tão somente alguns dourados velhos Do passado esplendor, e foi-me facil ver Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos Como cousa esquecida e impropria de se ler!

A virgem, sobretudo; a mãe predestinada Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel Que sempre hade chorar toda a mulher amada, Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;

Achei-a desolada e triste lá n'um canto, Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis Tão velhos como o roto e desbotado manto Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!

Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes Aonde o simples Christo e os martyres obscuros Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce, Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

E ao ver esta humildade,--eu tenho d'isto ás vezes,-- Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões Que não passam de ser as filhas dos burguezes Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!

XI

ASTRO DA RUA

Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso. --Que insonia em mim produz este humido vapor!-- Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso, Dos fumos do café, da luz e do rumor.

Um fantastico véo cobria as longas praças; E o gaz ria atravez da grande cerração Que em lagrimas descia ao longo das vidraças E em flocos d'alva neve humedecia o chão.

Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso. Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal: Do subito eis que passa um astro radioso Luzindo-me atravez do magico cendal!

Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro! Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer! Pelo sulco de luz julguei um meteóro, Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo A sua breve historia! o sonho é sempre assim! Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo: Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.

Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu! Nossa alma anda algemada á vossa tirannia Mas hade erguer-se a escrava...--Assim dizia eu

E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me! De novo a mesma aurora o espaço a illuminar! Agora pude vêl-a e posso recordar-me Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha: De resto era uma fada, eu mais não sei dizer. Deixava atraz de si um aroma de baunilha D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez! Feliz de quem poder beijar os teus cabellos E aos labios aquentar os teus pequenos pés!

--Dizendo caminheí. Porém novo prodigio! Ainda a perseguir-me a mesma aparição E eu ainda sentia o lucido vestigio Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!

Mas agora reparo, attento em sua chama! Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim! Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama, Na face macerada uns traços de carmim!

Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes! Prosegue no teu giro em volta d'essa praça E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.

XII

Quando Martha morrer, depois do extremo arranco, Não tratem d'orações; Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco Á moda das visões.

Desejo vel-a então passar d'esta maneira Depois de tal revêz, Por entre a chama azul e tenue da poncheira No fumo dos cafés.

Áquelle bom paiz das pallidas chymeras, Monotonia azul; Não temam que ella vá no fogo das espheras Queimar o véu de tulle.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos A nuvem triste e vã, E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos As nevoas da manhãa!

De noite ella virá com seus trajes singellos, Archanjo d'outros ceus, Nos suspiros febris dos meigos violoncellos Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos por que foge á doce transparencia Que o ceu formoso tem, Meiga filha gentil da mesma decadencia Que é nossa boa mãe.

Se as lagrimas de luz que chora o firmamento Em noites de luar, Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento, Cingir-se n'um collar;

De certo ella daria ao pallido comêta E á estrella trivial, A mesma adoração que dava á cançoneta Que amou até final!

E á saida do circo, ao astro romanesco, Á noite iria, então, Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco Do livido truão!

Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis Um hymno d'enfadar, Cantado por milhões d'archanjos insensiveis Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes Do que ella amava mais: --A vida illuminada á luz dos restaurantes N'um sonho de cristaes!

XIII

AS VICTIMAS

Eu vejo muita vez e raro já me assombro --Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!-- Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro No transito penozo as longas procissões,

De victimas da sorte e victimas do mundo! Umas boas, gentis, outras feias, crueis, Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo; Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas Da mente allucinada, ou vagos ideaes; São magros peitos nús, são faces cadavericas, São as tristes, as vís desolações carnaes.

São pequenos sem pão que vão pedindo esmola Nas lamas encharcando os regelados pés: Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla --Flôres que enfeitarão a noite das galés!

São aquellas gentis e pobres costureiras De peito comprimido; anemica expressão; Que passam a tossir, cansadas, com olheiras, Ganhando em todo o dia apenas um tostão,

Curvadas a cozer o languido velludo, O irritante setim dos grandes enxovaes, Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo; Depois indo morrer nos tristes hospitaes!

São os pobres heroes que os seus irmãos combatem; Que morrem sob o pezo enorme dos canhões, E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem E os reis fazendo rir das suas maldições!

São da lugubre noite umas flôres sem nome Batidas muito já dos grandes vendavaes, Que, por que sentem frio ou por que sentem fome, Derramam pelo seio aromas triviaes

E fingem depois ser apparições divinas, Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual, Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas, Aos apetites vís da multidão brutal!

São mineiros sem luz; são velhos britadores, Que o contacto da pedra um dia endureceu, Queimados pelo sol, gelados nos horrores Do tumulo cruel que em vida os recebeu!

São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos, Que sentiram na terra as vastas corrupções E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos Tentaram espedaçar os ultimos grilhões

E que passam tambem um tanto contristados, Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós, Os deixamos seguir ainda apedrejados Não raro desprezando a sua augusta voz!

E a grande multidão de martyres sublimes, De tristes semi-nús, constante a caminhar, Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!

A fila tenebroza, a procissão de victimas, Augmenta mais e mais; não deixa de crescer! E do estygma cruel das penas mais legitimas Em muita fronte bella um traço podeis ver!

Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis, Podia dividir a tunica cezarea Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!

XIV

EVOCAÇÃO

Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz! De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes E as noites do passado, oh, devem ser enormes Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido Os restos do teu manto:--assim, que bem que estás!

Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido Que busca desdenhoso o centro do ruido Nas horas vis do tedio e das insonias más.

O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez, E tu filho gentil do velho romantismo, Tu vens achar dormindo o rude prozaismo No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto pódes crer; faz muito menos frio Á luz do novo sol; do gaz provocador; E o seculo apezar de gasto e doentio, Não pode já escutar o cantico sombrio Que fala de edeaes e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos; E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta, Da muza alegre e vil da torpe cançoneta Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira Innunda-se na luz de mil constellacões! E os archanjos da rua assomam na poeira Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira O astro creador das grandes sensações!

E quando a cotovia á estrella matutina Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo, Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina, A trança da belleza anemica e franzina Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!

XV

Boas noites coveiro: a tua enxada Não cessa ha tanto tempo de cavar?! Cavalleiro da morte, ó fronte desolada Não sentes a mão tremula e cançada De tanto trabalhar!

Tu esperas hoje as legiões sombrias De mortos, que eu supponho ao longe ver? Os felizes caídos nas orgias E os tristes que além todos os dias O gelo vem colher?!

Que immensa valla aberta! são medonhos Os risos d'essa boca infame, alvar!... Descansa dos teus dias enfadonhos! --Eu cavo a sepultura dos teus sonhos Não posso descançar!

XVI

FLOR DA MODA

Alice, o turbilhão das salas elegantes, Começa a entristecer; ninguem sabe por quê! Aquella flôr doente amava muito d'antes As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes, Agora é desolada e penso que descrê.

Que tedio se abrigou na vaga transparencia D'um todo tão subtil, aerio, divinal. --Moderna creação da santa decadencia, Que alia gentilmente ás pompas da regencia Os indecisos tons d'um ar sentimental?!

Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio Das vagas oppressões da tua insomnia má, E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio, Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo Na conta d'uma cousa um tanto usada já!

No idylio pastoril das noites venturosas Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!

E quando a augusta voz do mar ou das florestas Abala o coração dos justos e dos bons, Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,

No amor das castelãs scismar entre as giestas Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes Abraza a geração de lyrios ideaes Que passam, como tu, galantes e doentes, D'um amor desordenado ás cousas dissolventes, Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!...