A agua profunda

Chapter 9

Chapter 93,821 wordsPublic domain

--«Vens da rua Lacépède... Foste lá depois de me deixares, tendo-te fallado da maneira porque te fallei! Foste lá...»

--«Sim,» respondeu em voz baixa e com a firmeza oppressa mas decidida d'alguem que, querendo reclamar um direito, se força a cumprir primeiro o mais doloroso dever. «Fui num momento de desvario... A carta anonyma, a indicação tão precisa do numero da porta, a tua perturbação quanto te fallei... Perdi a cabeça: apoderou-se de mim o ciume; quiz saber e fui...»

--«Ah!» disse ella com um modo que Norberto lhe não conhecia ainda.

«Podeste fazer-me uma cousa semelhante!... Não, não foi a carta anonyma que te fez ir lá, não foi a denuncia, nem a minha perturbação, foi... Meu Deus!» e levantou as mãos n'um movimento desesperado.

«E eu que estava tão enternecida com a tua delicadeza, esta manhã, e que dizia commigo: calumniaram-no!... O que te obrigou a ir lá,» continuou Valentina, approximando-se do marido, com o seu bello e nobre rosto congestionado pela indignação: «foi a entrevista que tiveste com Joanna. Veio aqui, fallou-te; o que te disse não sei... Ouvi as vossas vozes atravez da porta, não quiz porém, escutar o que diziam... Mas depois que partiu, sem procurar ver-me, comprehendi logo que algum facto extraordinario se passou entre vós... Adivinhei tudo immediatamente. Tudo vi... Foi ella que escreveu a carta anonyma, que me seguiu, que me denunciou, que te indicou a pista que devias seguir tambem para me surprehenderes!... Ah! a infame! A infame!... Tinham n'esse caso razão. Ha entre ti e ella uma intriga. Porque lhe consentiste que falasse assim de tua esposa--da mãe de teus filhos--é que ella é tua...» Deteve-se deante da palavra amante, que lhe abrazava o coração, e, n'um grito de legitima revolta da esposa muito ultrajada, protestou dolorosamente:

«Não, não foste lá por teres ciumes de mim, mas sim porque me atraiçoas...

«Querias apenas ter uma prova para te tornares livre, para só te dedicares a ella.

«Mas que mulher julgas então que eu sou? Dei-te, por ventura, o direito d'assim me julgares? E ella!... Oh! É triste, profundamente triste! E eu não merecia tanta ingratidão!...»

--«É naturalissimo que assim penses», respondeu Chalinhy, em voz ainda mais baixa. Sentia-se incapaz, n'este momento, de discutir factos evidentes que não eram nada moraes, incapaz de protestar a sua innocencia com respeito á ligação com Joanna de Node. Necessitava muito saber a verdade para poder mentir. E depois, como negar a conversa com a amante, junto da porta do quarto da esposa, e de que esta ouviu algumas palavras? Como justificar a mudança subita do seu procedimento, depois da visita de Joanna, precipitando-se na investigação, que se via obrigado a confessar, visto que entrára em casa sómente com o fim de a concluir? Accrescentou, solemnemente: «As apparencias são contra mim; e comtudo...» Hesitou um momento, e depois, em voz mais elevada como para confirmar a solemnidade do juramento, accrescentou:

«Juro-o sobre a cabeça dos nossos filhos! Não, o meu procedimento não foi dictado pelo desejo de me tornar livre, não teve uma tão abominavel intensão. Não obedeceu a um plano anteriormente concebido. Fui um louco, assevero-te... As tuas visitas a essa rua escusa, as precauções de que te rodeavas, este segredo da tua vida... Quando cheguei em frente d'essa casa não consegui dominar a duvida cruel que me torturava... Interroguei os lojistas da visinhança, e soube quem vivia ali... Não me interrompas. Era a espionagem, a infame espionagem, sinto-me aviltado pela ter exercido! Emfim, bati á porta: dei o teu nome para entrar, recebeu-me e vi o sr. Dumont. Quem é. Valentina dize quem é?...»

Á medida que o marido fallava, contando tudo, com as faces ruborisadas e com os olhos incendidos pela febre de saber a verdade, o rosto da joven marqueza mudava de expressão.

Á colera indignada dos primeiros momentos, seguiu-se uma anciedade que se approximava do terror, quando ouviu a phrase irreparavel. «Recebeu-me...»

Soffreu uma emoção tão violenta que todo o seu corpo tremia convulsivamente. Depois, condensando a vontade n'um supremo esforço, teve a coragem de defender ainda o segredo, que não era seu, contra o apaixonado inquerito de Chalinhy.

--«Desde que viste o sr. Dumont, sabes já quem é... Um doente a quem fiz a esmola d'algumas visitas, em cumprimento d'uma promessa solicitada por pessoa que já morreu... Deixa-me cumprir este dever de caridade até ao fim. Não o cumprirei durante muito tempo; por isso tem tu tambem a caridade de mais nada me perguntares...»

--«Obedecer-te-hei», respondeu Chalinhy, «se me jurares tambem sobre a cabeça de nossos filhos, como eu fiz, que essa pessoa de quem fallas, essa morta que te exigiu o cumprimento de um tal voto não era...»

Hesitou um segundo, depois, muito baixo, murmurante:« não era minha mãe? Mas não jures, não pódes jurar... Sei que era ella... Não foi só o sr. Dumont que vi na casa da rua Lacépède. Vi tambem minha mãe... Está lá o seu retrato, um retrato que não conhecia, em casa d'esse homem que ainda conhecia menos! Não é só o seu retrato que lá se encontra, mas tambem o teu e o meu...»

E, de repente, illuminando-lhe a memoria um d'esses clarões de reminiscencia que nos fazem recordar n'um instante promenores d'um facto esquecido ha annos. «Mas eu conheço muito bem esse homem: Recordo-me perfeitamente d'elle. É Raynevilhe.» E repetiu. «Raynevilhe. Raynevilhe vinha a nossa casa n'outro tempo e depois desapareceu... Sim, espera. Recordo-me agora... Um processo... uma condemnação... Desde que sei o nome reconstituirei tudo... Não era porem nosso parente» continuou elle seguindo o seu pensamento, «e minha mãe continuou a vel-o secretamente até fallecer?... Pediu-te depois que o visitasses tu, quando não podesse lá ir já?... A questão Raynevilhe?... Sim, foi condemnado... Mas qual o motivo? Qual o motivo? Não me recordo. Sabel-o-hei, vou já a casa do meu advogado. Elle consultará a collecção da _Gazeta dos Tribunaes_. Quero saber...»

--«Supplico-te, meu amigo» disse a marqueza de Chalinhy, detendo-o. «Tranquilisa-te.» E com uma expressão de terror, sempre crescente, accrescentou ainda: «Não vás a casa do advogado. Não pronuncies o nome de Raynevilhe a ninguem. Reconheceste-o sim, pois é verdade ser esse o seu appellido. Emquanto ao processo de que fallaste, existiu tambem e elle foi condemnado... Mas, que vaes fazer? Queres obrigar os mortos a fallar?

«Sim. É um amigo d'infancia de tua mãe. Teve piedade d'elle depois que praticou uma enorme falta pela qual foi horrivelmente punido.

«Quando se viu proxima da morte, teve ainda pena do desgraçado. Era um doente e vivia inteiramente só, por isso pediu-me para a substituir... Ah! meu amigo, não ultrages a memoria de tua mãe, depois de me teres ultrajado a mim! Respeita a sua ultima vontade, como eu fiz...»A marquesa esquecera por completo as recriminações do principio da conversa, esquecera Joanna de Node, não se lembrava mais de ciumes; n'aquelle momento sómente via que era forçoso obstar, por todos os meios, a que o marido proseguisse no inquerito, por isso concluiu por dizer: «Promette-me que tudo acabou, que ficarás por ahi! Que queres tu descobrir mais?»

--«O que quero descobrir mais? Quero saber porque motivo minha mãe me occultou esse acto de caridade, e porque motivo te pediu que m'o occultasses tambem.»

--«Valentina,» continuou Chalinhy, supplicante, «começaste a dizer-me a verdade; vae até ao fim... Como queres tu que acredite? Como queres que simples visitas de caridade para com um homem condemnado, expliquem a offerta d'um retrato como o que lá vi, feito tambem a occultas. Nunca ouvi fallar d'esse retrato, nem eu nem ninguem. Foi feito propositadamente para esse homem, percebes, _para esse homem_!... E a minha photographia! Porque a tem tambem sobre o buffete? Não me digas que é signal de reconhecimento para com a sua bemfeitora. Não, não e não. Ha outro motivo, forçosamente... Falaste de caridade e não a tens para commigo ajudando-me a expulsar do espirito uma ideia que se começou a apoderar de mim, que me tortura, que não quer abandonar-me,--a repellil-a,» accrescentou com um modo sombrio, «ou a acceital-a.»

--«Qual ideia?» balbuciou Valentina.

--«Teria esse homem, a quem minha mãe proporcionou tantos cuidados até ao fim da vida, e ao qual tu os proporcionas tambem, depois d'ella, na sua mão meio de a perder, de nos perder a todos... Não queres que vá a casa do meu advogado, porque? Porque receias que o seu nome e o nosso sejam pronunciados juntamente. Figuram, por acaso, juntos ao processo, e occultavam-m'o sempre?... Não me impedirás de o saber...»

--«Fica sabendo que esse triste acontecimento nada tem de commum comnosco, respondeu a marqueza de Chalinhy. É sinistro, mas bem simples: O senhor de Raynevilhe tinha um tio, muito rico, e, achando-se um pouco embaraçado por falta de dinheiro, arrastado por esse meio parisiense, como tantos rapazes de boas familias, sendo os restantes herdeiros d'esse tio todos muito abastados tambem, concebeu a ideia de assegurar só para elle a herança, que tantos intrigantes invejavam, imitou a letra do tio e fez um testamento falso. Eis o seu crime. É grande, mas expiou-o com tantos annos de martyrio... Foi condemnado, e depois que cumpriu a pena, não viveu, n'esse bairro humilde, senão para os pobres e para Deus... Podes, em querendo, verificar se o que te digo é ou não verdade...»

--«Esse homem é, pois, um falsificador, um ladrão,» respondeu Chalinhy, duramente, asperamente. «E pedes-me que não procure conhecer os motivos porque minha mãe o tornou a ver, quando sahiu da prisão--para que tu os conheças tambem? Pode-se ter consideração por um assassino, por não merecer o desprezo, mas por um falsario, um ignobil falsario!...»

--«Cala-te, meu amigo, cala-te, supplicou Valentina. Não quero ouvir-te pronunciar taes palavras a respeito d'elle!...» Deteve-se como que petreficada pela phrase que ousára proferir. Olharam-se mutuamente, sem que nenhum d'elles tivesse força para continuar uma tão tragica conversação, que a entrada d'um creado que vinha trazer uma carta tornou mais tragica ainda. Entregando-a, o creado disse:

--«É do doutor Salvan, para o sr. marquez. A sua carruagem espera lá em baixo pela resposta.»

--«Diz que fica entregue e que não tem resposta. A carruagem do doutor Salvan pode partir» accrescentou Chalinhy, depois de ter deitado um rapido olhar para o bilhete que entregou á esposa, logo que ficaram sós. Continha apenas dez linhas traçadas, rapidamente, a lapis, pelo medico, mas que linhas para ella que as lia, debaixo do olhar do infeliz a quem em vão tentara dissuadir: «_Encontrei o sr. Dumont muito mal. Não pode fallar. Julgo, comtudo comprehender que deseja vel-o. A sua agitação é tal que tomo sobre mim a responsabilidade de lhe pedir que conclua a sua boa acção d'esta manhã, voltando á rua Lacépède, tambem. A minha carruagem o condusirá. Não abandonarei o doente. Venha, se pode. Á noite talvez já seja tarde_.»

--«Ah! Norberto,» implorou Valentina, como n'um gemido, «não é possivel que o deixes morrer assim, que lhe recuses o que pede... Ainda é tempo. Vem. A carruagem de Salvan ainda não partiu. Vamos n'ella, mas vem! vem! Corramos!...»

--«Não,» respondeu Chalinhy deixando-se cahir n'uma cadeira, e apertando a cabeça com as mãos, «não vou. Nada comprehendo, nada sei senão que esse homem e tudo quanto lhe diz respeito me causa horror.»

--«Cala-te» gritou ella de novo, n'um accesso selvagem; e estreitando-o nos braços com uma especie de ardôr desesperado, arrastava-o dizendo: «Mas vem; vem de pressa. Vem. Ah! Queira Deus que não seja já tarde. Elle é teu pae. É teu pae!...»

IX

A morte

Valentina não accrescentou uma unica palavra á confissão que lhe escapou, contra sua vontade, e que não fez mais do que antecipar a inevitavel conclusão a que a convergencia de tantos indicios reveladores, arrastariam Chalinhy, mais tarde ou mais cedo. Elle, por sua parte, não fez nenhuma pergunta mais. Seguiu, quasi automaticamente, a mulher desvairada, descendo com ella a grande escadaria e atravessando tambem com ella o perystilo. Quando chegaram á porta do palacio o «coupé» do medico tinha partido já.

--«Meu Deus!» exclamou Valentina. «Deu-se o que eu temia. É muito tarde! Ah! E pensar que talvez morra n'este instante!...» Foram-lhe necessarios alguns minutos para arranjar uma carruagem de praça que levou proximamente meia hora, apezar das reiteradas instancias, em fazer esse longo trajecto, quasi metade de Paris, que a encantadora mulher tinha andado tantas vezes, occultando-se. E, comtudo, agora fazia o mesmo trajecto apertando nas suas as mãos d'aquelle a quem tanto tinha querido encobrir estas visitas. Norberto continuava calado; mas, de tempos a tempos, correspondia á pressão d'esses dedos fieis, e, na dor intima em que se debatia sob o imperio da mais dolorosa das revelações, a presença da mulher que por tanto tempo desconheceu e que via tão carinhosa, tão dedicada, enternecia-lhe o coração. Não ignorava actualmente, nada com respeito ás suas traições. Tinha-o ouvido gemer de dor ao comprehender que suspeitava d'ella, de maneira tão injuriosa, sugestionado por uma amante--e que amante!...

Traições, injurias, humilhações, nada tinha a perdoar-lhe porque tudo havia esquecido na sua piedade pelo marido que soffria, e que ella via soffrer. Porque se não teria evidenciado mais cedo esta alma tão retrahida e tão nobre? Porque não revelou tambem Valentina, para com o homem que amava dedicamente, mais vehemencia n'esse amor, mais expansões, porque lhe não patenteou toda a intensidade do seu affecto?

Ai de mim! A prophetica formula, do poeta antigo será sempre verdadeiro tanto no dominio dos modestos destinos particulares como nos das evoluções sociaes:

«A sciencia em relação á dôr...» a que ás vezes se deve accrescentar e em relação á falta de cumprimento dos deveres! Sem que a generosa Valentina desse per isso, a chamma que brilhava nos seus olhos, n'aquelle momento, provinha da febre que o ciume lhe despertára desde que sabia da infidelidade do marido.

Perante o vivo pesar que a traição lhe produzia sentia bem quanto o amava, de maneira que a tenebrosa intriga da invejosa Joanna produziu um resultado diametralmente opposto ao que ella desejava! E o marido desleal não estabeleceria tambem n'aquella mesma occasião uma comparação esmagadora para os seus indignos amores? Valentina e Chalinhy viviam ha muito tempo já uma vida recondita a par da vida apparente. Havia porém uma differença é que a reserva do marido servia para atraiçoar a mulher e a d'ella para cumprir uma missão de piedade filial da qual quiz, a todo o custo, evitar-lhe a amargura... Experimentariam elles todos estes sentimentos dentro da carruagem que os conduzia áquella scena suprema de tristeza e agonia? Liga-se aos nomes, pae e mãe, um respeito augusto que torna muito penoso termos de associar a elles idéas como as que deviam de futuro e para sempre, levar ao espirito de Norberto a recordação dos dois entes que lhe haviam dado o ser. O adulterio de sua mãe--a condemnação infamante do verdadeiro pae--o seu nome que não era verdadeiramente o que lhe pertencia. Que vergonhas! Que miserias! Como se lesse no pensamento do desventurado, Valentina disse-lhe, rompendo pela primeira vez um tão cruel silencio em frente da pequena casa aonde o antigo amante da mãe de Norberto acabava de morrer:

--«Fiz a tua mãe a promessa de não te dizer a verdade a não ser que _elle_ te chamasse para junto de si nos ultimos momentos da vida. Ameniza-lh'os. É ella que t'o pede, pois é o unico caso em que desejava que tudo te fosse revelado... Tem a certeza que te está vendo n'este momento... É talvez a sua ultima expiação...»

--«Não me peças nada em seu nome,» replicou Chalinhy em voz quasi imperceptivel! «Incutir-me-has menos coragem. Conheço a minha vergonha e que uso um nome roubado.»

--«Soffreram muito,» respondeu ella. «Expiaram bem as suas faltas! Tu o saberás!... Tu o saberás!...» repetiu estas palavras por tres vezes com uma convicção que mesmo n'aquelle momento de angustia fez aflorar aos labios do filho uma pergunta irritada:

--«Que mais devo ainda saber?»

--«Tudo,» replicou ella em tom grave. «Não são os actos que devemos julgar na vida são os corações. Ah! Cede aos impulsos do teu n'este momento solemne, meu Norberto, arrepender-te-hias mais tarde de não teres perdoado.»

Chegaram á porta da casa defronte da qual se achava o coupé do doutor Salvan. O cocheiro, que tinha descido da almofada achava-se junto da porta e ao reconhecer a marqueza de Chalinhy dirigiu-se para ella assim que desceu da carruagem.

--«O que ha?» perguntou-lhe Valentina percebendo na sua physionomia que se passava alguma cousa muito grave.

--«Morreu», respondeu o homem, muito baixo, indicando com a mão as janellas do primeiro andar da pequena casa, com a voz tão indifferente na sua gravidade fingida que toma a gente do povo para annunciar um acontecimento tragico e de cuja importancia parece participarem tambem, só pelo desempenho d'uma tal missão.

--«Morreu!...» repetiu Valentina e apertou a mão do marido para lhe dizer:

«Não teve tempo de saber a tua resposta e a tua primeira recusa, juro-te....»

«Não é verdade» accrescentou em seguida, dirigindo-se ao cocheiro: «foi emquanto se dirigiu á rua Barbet-de-Jouy que falleceu?»

--«Justamente, na occasião em que parti. Não sei como isso foi, comprehendeis, como cheguei n'este instante, o creado que entrava de chamar o padre é que me contou o accidente». A marqueza de Chalinhy sentiu que o marido ao receber a triste nova, se apoiava ao seu braço para não cahir. Conheceu que a commoção produzida pela noticia da morte, recebida d'aquella fórma, lhe augmentaria os remorsos, por ter perdido a occasião suprema e unica de mostrar alguma piedade por aquelle que sabia era seu pae.

Por esse motivo, e ainda para lhe evitar logo uma tal dôr, é que forçou o cocheiro a precisar um detalhe que devia, era sua convicção, attenuar, pelo menos n'um ponto, a impressão experimentada por Norberto. Viu, porem, que a segunda resposta o deixára mais perturbado ainda. Impallideceu tão horrorosamente que julgou que ia desfallecer. Valentina ignorava ainda que o ataque que victimou o doente se tinha declarado na occasião em que deparou inesperadamente com Norberto, julgando receber a visita do negociante enviado pela marqueza, por isso ella, muito afflicta, impelliu-o para dentro do carro, dizendo:

--«Estás muito commovido. É conveniente não entrarmos... Se queres dizer-lhe adeus, voltaremos cá ámanhã...»

--«Não,» respondeu elle. «Quero vel-o, immediatamente.»

--«Ah! meu amigo, perdoaste-lhe. Ah! Ainda bem!»

--«Perdoar-lhe!...» repetia Chalinhy, concentrando n'esta especie de suspiro todos os sentimentos tão contradictorios que o agitavam: o horror de ter sido a causa, muito involuntaria, mas a causa, em todo o caso, d'esta crise ultima a que o moribundo tinha succumbido,--a revolta sempre fremente da sua honra contra a revelação que lhe fizeram a respeito da mãe;--uma emoção violenta, á idéa de que, ali, dentro d'aquelle pavilhão solitario acabava de morrer aquelle que sua mãe amou e que lhe deu o ser,--um reconhecimento augmentado constantemente pela esposa mal apreciada e trahida, sim, que elle trahiu como sua mãe tinha trahido o velho Chalinhy.

Tinha, porventura, o direito de se indignar, de «perdoar», como dissera Valentina?

Para perdoar não era necessario ter auctoridade para condemnar?

Sentia tambem uma imperiosa necessidade de tornar a vêr, antes da completa desapparição que ia seguir essa morte, o scenario onde se desenrolou essa longa tragedia ultima na qual foi iniciado tão funestamente;--de tornar a vêr as feições do que n'ella foi o heroe, do homem que tão apaixonadamente se apoderou do coração de sua mãe para que ella o não tivesse renegado depois do crime:--de procurar sobre esse rosto immovel o traço d'uma similhança com o seu proprio rosto, a prova da filiação que lhe tornava de futuro tão cruel o ouvir pronunciar o nome que continuaria a usar. Batera a essa pequena porta, algumas horas antes, com uma pungente commoção quando julgava possuir a prova do adulterio da esposa. O que era isso comparado com o confrangimento da alma que sentia agora e que quasi o suffocava? A porta abriu-se como da outra vez. Como da outra vez subiu a estreita escadaria com o seu tapete, os quadros e a graciosa ornamentação á qual certamente presidira sua mãe. Como d'aquella vez entrou na ante-camara e depois na bibliotheca aonde se achava o doutor Salvan, ao qual na perturbação produzida pela catastrophe, não transmittiram a primeira resposta, por isso que acolheu os recemchegados, dizendo-lhes:

--«Esperava-os... Deixou já de soffrer e exhalou o ultimo suspiro, n'uma commoção suave e por sua causa,» accrescentou, dirigindo-se a Norberto. «Recuperou os sentidos, e pude comprehender que desejava tornal-o a vêr. Nas paralysias medullares progressivas está-se sempre á mercê d'uma syncope, e esta deu-se precisamente na occasião em que a minha carruagem partia. Ouvi o ruido produzido pelas rodas e elle tambem e lançou-me um manifesto olhar de reconhecimento!... Cinco minutos depois deixou de existir.... Havia muito já que morrera para o mundo e que entregára a alma a Deus. Não tendo mais nada a fazer aqui, vou presencear outras miserias. Ha-as bem peores e que não teem uma santa para as consolar....»

O medico retirou-se e o rodar da sua carruagem--o ultimo ruido da vida percebido uma hora antes pelo morto--annunciava que esse grande homem de bem ia, como tinha dito, presencear outras miserias; e aquella a cuja dedicação rendeu merecido preito em termos d'uma veneração tão enternecida continuaria na sua missão de caridade cumprida, ha annos, na velha casa do modesto quarteirão, asylo, n'outro tempo, de tantas vocações religiosas.

As tilias do jardim, na epocha em que guarneciam a cerca d'um convento, viram passar por sob a sua sombra no verão e as folhas douradas no outomno, muitas mensageiras da consolação, mas nenhuma d'ellas tinha o coração inundado d'uma piedade mais profunda e mais ardente do que essa mulher quando se ajoelhou na camara mortuaria. Tomou de novo entre a sua a mão do marido que, em pé, olhava seu pae, immovel na cadeira. A celeridade dos ataques repetidos não permittiu que transportassem Raynevilhe--demos-lhe o seu verdadeiro nome--para a cama.

Apenas, para prevenir qualquer choque nas convulsões do ataque, foi introduzido um travesseiro por detraz da cabeça, sobre o qual se destacava o seu rosto hirto e cuja extrema magreza attestava o marasmo d'uma physiologia gasta por muitos annos de doença.

Os labios não cobriam completamente os dentes, que brilhavam na bocca livida. As palpebras, mal cerradas, deixavam ver o globo vitreo dos olhos. Mas o doutor Salvan dissera a verdade: apesar dos signaes do soffrimento que deviam tornar o seu aspecto sinistro, denunciava o socego, a tranquilidade de redempção emfim alcançada. O padre, chamado á ultima hora, e que resava a um canto do quarto, tinha já collocado no peito do morto um crucifixo sobre o qual se cruzavam as suas mãos que pareciam de cera, e cujos dedos os espasmos do ultimo ataque tinham como que torcido.

Os cabellos raros e a barba toda branca foram penteados. O jaquetão de cachemira preta estava abotoado até ao pescoço, e tinham-lho deitado sobre as pernas, sem duvida para encobrir a deformação dos pés que as contracções deviam ter produzido. Valentina percebeu, pela violenta pressão dos dedos do marido sobre a sua mão, que os pensamentos que o triste espectaculo lhe suggeria eram muito dolorosos. Levantou-se e conduziu-o á bibliotheca, onde a senhora de Chalinhy, de 1875, sorria na sua moldura oval, e, chegados ali, disse-lhe grave, acariciadora e persuasiva.