Chapter 8
O tempo que o creado demorou a ir e voltar--alguns minutos apenas--pareceu a Chalinhy tão longo que os mais desorientados projectos atravessaram o seu pensamento. Lembrou-lhe subir elle mesmo ao primeiro andar e forçar a porta do aposento d'esse tal Dumont que evidentemente o ia despedir, o que não era justo. Esta maneira de se apresentar pareceu-lhe impropria. Comprar o creado quando voltasse e obter sobre os frequentadores e frequentadoras da casa as informações que o ferro velho não tinha sabido dar; recusar-se a sahir quando lhe viessem dizer que o senhor Dumont não estava em casa, tudo lhe passou pela imaginação.
Em breve o criado veio tiral-o de difficuldades, convidando-o a entrar n'um gabinete do primeiro andar, que servia de ante-camara. Depois retirou-se, dizendo:
--«O senhor Dumont pede desculpa de o fazer esperar algum tempo. Esteve muito incommodado esta manhã mas virá o mais breve possivel...»
Posto que a certeza d'uma explicação, que tinha para elle uma importancia tão tragica, concentrasse o espirito de Chalinhy n'uma unica e fixa idéa: «como forçar aquelle homem, quando entrasse, a confessar a verdade?» não poude furtar-se á tentação de olhar em volta de si. A sala em que se achava tinha uma janella para a rua. Na frente abria-se uma porta, que o criado com a precipitação, não fechou completamente. Chalinhy empurrou-a, com um gesto quasi machinal, e viu um segundo compartimento cujo aspecto causou a sua admiração: era uma especie de salão bibliotheca, illuminado por tres janellas que davam sobre o jardim, para o lado do qual o pavilhão tinha a fachada principal. Esta especie de galeria era vasta e estava mobilada com uma elegancia pessoal e sobria. Grandes cadeiras de espaldar, estofadas, ao estylo do seculo 17.º, mas que se via serem de construcção moderna. Os livros todos encadernados, estavam dispostos com ordem em estantes baixas, nas ultimas divisorias das quaes se viam fragmentos de marmore e de tijolo. Um buffete collocado proximo d'uma das janellas do jardim tinha ao pé uma poltrona com rodas o que justificava a informação dada pelo auvernhez com respeito á doença do dono da casa, o qual devia permanecer de preferencia n'este salão, a julgar pela alcatifa já bastante usada. As paredes estavam completamente cheias de varios objectos; quadros a oleo, aguarellas, quadros em cobre, armas cinzeladas etc., etc. Deante da secretaria, um cavalete guarnecido d'um estofo antigo de côr rosa palida, com grandes flores de prata, sustentava um quadro oval.
Chalinhy approximou-se do quadro para o observar, e ao vel-o, teve que sentar-se, tal foi o seu espanto pelo inesperado, ao reconhecer a pessoa cujo retrato estava reproduzido na tela. Era sua mãe.
Sua mãe?... Sim, era ella, e pintada por um artista de que bem depressa conheceu a obra e a assignatura: Miraut. Existia um retrato della, de corpo inteiro, pintado pelo mesmo artista, no salão do palacio Chalinhy. Esse grande retrato tinha sido feito no mesmo anno--indicado n'um dos cantos da tela: 1875. Foi na epocha em que aquelle pintor, hoje velho, estava em plena voga. Os filhos não tinham nunca visto esta reproducção, que continha sómente a cabeça e o busto. Sim, era sua mãe, não tal como a havia contemplado no leito da morte, quatro annos antes, envelhecida prematuramente, pela terrivel doença que a victimou, um cancro no figado, com o rosto emmagrecido, amarellecido, e torturado pela dôr--mas a «mamã» da sua infancia, com os seus bellos olhos avelludados d'então, tão negros e tão doces no seu olhar d'uma idealidade digna de Prudhon; com o seu sorriso feliz nos labios finos e flexiveis; com as madeixas escuras dos seus cabellos que apartava na frente em dois bandós ondulados, á moda d'então, com a linha correcta e cheia dos seus encantos, e com a dôr do seu rosto, que tinha a delicadeza da petala da rosa.
Porque estranho acaso este retrato se encontrava ali, deante d'esse «bufete», n'uma sala d'esta casa onde vinha, elle, o filho d'essa mulher, procurar a explicação d'um segredo que affectava a sua honra de marido? Um acaso? Não. Sobre o mesmo «bufete» existia tambem uma moldura de couro, com tres divisorias, onde se viam tres photographias de sua mãe, em epochas differentes,--uma mais nova do que o retrato, outra da edade de quarenta annos, e a terceira da edade de cincoenta; e, ao lado, n'uma moldura oval, escura, a reproducção d'uma outra photographia que elle, Chalinhy, lhe mandou tirar depois de morta.
Uma madeixa de cabellos se divisava através o vidro, e a data do anniversario para elle sagrado: «5 de setembro de 1897» lia-se a um canto do cartão. Estaria sonhando? Ainda mais, n'uma terceira moldura, que fazia «pendant» com a primeira, appareciam-lhe agora photographias suas: uma que o representava ainda creança, outra aos dezeseis annos, e ainda outra recente! ... Vendo, como em certos casos de allucinação, a reproducção da sua propria pessoa, não teria experimentado uma impressão mais violenta, tão violenta, que chegava ao terror...
Onde estava?... Em casa de quem? Que occulta ligação, e de que nunca sequer suspeitára, o unia á pessoa que ali vivia entre esses objectos, e que o conhecia desde a infancia, que conhecia sua mãe desde muitos annos, que conhecia sua esposa--sem elle o saber?
Um novo indicio, que mais fez desvairar a sua razão, confirmava a denuncia que o conduzira áquella casa: n'um biombo de seda, collocado defronte da janella, e no qual se achavam suspensas varias miniaturas de familia, viu tambem pequenas photographias de Valentina e dos filhos.
A estranheza d'uma descoberta, tão completamente imprevista, que chegava a ser phantastica, o silencio d'esta sala tão reservada, que o ruido da rua já de si silencioso difficilmente ali chegava, o contraste entre o que procurava e o que vinha encontrar--tudo contribuiu para mergulhar Chalinhy n'uma especie de hypnose, de que o despertou de repente, a approximação d'um homem, ao qual dez minutos antes se preparava para exigir uma explicação, ainda mesmo pela ameaça.
Uma porta de dois batentes, que um reposteiro disfarçava entre duas estantes, se abriu repentinamente. O ruido d'uma pesada cadeira de rodas annunciou a chegada do doente. O senhor Dumont--porque era elle--estava immovel na sua cadeira mechanica, que um enfermeiro empurrava. O paralytico era um homem de sessenta annos, pouco mais ou menos, todo branco, e que devia ter sido muito bello, porque o seu rosto, emaciado pelos longos soffrimentos, conservava as largas e nobres linhas que revelam a raça.
Ligeiras deformações: a bocca um pouco torta e o olho direito algum tanto elevado, marcavam na sua cara, de uma infinita melancholia, o stygma da inexoravel nevrose. O braço direito, que não podia mover, repousava, inerte, sobre a perna, emquanto que com a mão esquerda movia um punho de cobre ligado á cadeira e com o qual lhe dava a direcção desejada. O fato, muito apurado, revelava as minucias dos seus cuidados pessoaes, tão raros n'estes condemnados á morte, e que são como que um ultimo e pathetico protesto contra a sua inevitavel perda. O brilho dos olhos, tão notavel n'estas longas agonias, denunciava a lucta desesperada da energia animal contra a morte proxima.
Não exprimiam esses olhos, brilhantes e muito negros, emquanto as rodas da cadeira giravam deante da porta, nenhum presentimento da impressão que n'elles ia apparecer em breve. É necessario dizer--e é a explicação da facilidade com que o visitante foi recebido--que, na sua ultima visita á rua Lacépède, n'essa funesta segunda-feira a marqueza de Chalinhy falou ao doente d'um negociante que tinha lindas estatuetas do seculo XVIII.
A acquisição d'algum d'esses objectos raros, capazes de figurar n'uma das suas estantes ou na grande vitrine ao fundo da galeria, era a unica alegria do paralitico. Por um mal entendido, quiz a fatalidade que o negociante que Valentina mandou a casa do sr. Dumont, se esqueceu de lá ir. Quando a sua cadeira rolante transpoz o limiar da porta e que viu, em logar do bric-a-braquista, a figura de Norberto de Chalinhy, a sua mão esquerda crispou-se no braço do movel, n'um movimento quasi convulsivo. Endireitou o busto e uma emoção d'uma intensidade extraordinaria lhe descompoz as feições. Da sua bocca offegante escapou-se um intenso grito e bradou aos creados que o acompanhavam, n'uma ancia angustiada: «parem, parem...». Pararam com effeito, a tempo de Chalinhy, immovel de surpresa deante d'esta tragica apparição, ver duas grossas lagrimas a saltarem dos seus olhos fixos e deslisarem pelas faces macilentas e cavadas. Em seguida o velho disse, como n'um gemido: «entre, mas entre, entre...». A angustia que se traduziu nas suas palavras causou, sem duvida, admiração aos creados, habituados aos signaes da approximação da crise. Fizeram recuar rapidamente a cadeira e fecharam a porta. Ainda Chalinhy estava sob a impressão do grande abalo que lhe produzira esta scena, tão terrivel como rapida, quando um dos creados, precisamente o que o recebeu, tornando a apparecer, a tremer todo e n'uma grande afflicção, lhe disse:
--«O patrão está com um ataque, e não ha ninguem em casa senão eu e o enfermeiro...»
--«Onde mora o seu medico?», perguntou Chalinhy. «Eu me encarrego de o ir chamar».
--«Oh! senhor», respondeu o creado, «não ousava fazer-vos esse pedido!... Mas depressa, depressa. Ao meio dia e meia hora ainda o encontra em casa. É o doutor Salvan, e mora no _boulevard_ de Saint-Germain, n.º 30.»
VIII
O enygma
Da rua Lacépède á casa do extremo sul do interminavel _boulevard_ de Saint-Germain, onde vivia o celebre especialista de doenças nervosas, para ficar mais proximo da Salpêtriére, seu hospital, a distancia não era grande. Durante os dez minutos que demorou em a percorrer, Chalinhy não tentou mesmo raciocinar a respeito da série de factos, para elle absolutamente incompreensiveis, que acabavam de dar-se. Na confusão de todo o seu pensamento em face do enygma a cuja decifração se entregou apaixonadamente, um ponto luminoso apparecia muito ao longe: recordava-se de ter visto já o rosto do paralytico surgido deante d'elle, no fundo d'essa bibliotheca estranha, onde com espanto encontrou o retrato de sua mãe, o seu, o da esposa e dos filhos... Mas quando? Aonde? Procurava, no mais recondito da sua memoria, a physionomia d'um homem ainda novo, no qual a mascara do velho e moribundo, se justapunha. Era uma d'estas recordações longiquas, tão cheia de incertezas, em que a realidade se confundia com o sonho... «Dumont... Dumont...?» Chalinhy, repetia este nome mentalmente. Não conseguia associal-o ás imagens tão vagas e portanto indistinctas já, que se agitavam na sua reminiscencia.
Em scenas mal definidas, cujos detalhes inconscientes e incompletos se esfumavam na sua intelligencia, figuravam conjunctamente sua mãe e o marido de sua mãe--aquelle que sempre acreditára e que ainda hoje acreditava, ser seu pae. Mas como se chamava então esse homem que tinha os mesmos traços de nobresa e o mesmo olhar profundo do doente? E eis que, de repente, acudiam a essa reminiscencia syllabas indistinctas: «_Magneville_?... _Raneville_?... _Layneville_?...» Ao mesmo tempo--porque mysterioso trabalho do seu espirito angustiado?--via a figura de seu pae, do defunto marquez de Chalinhy, fallecido ha tanto tempo já. A que proposito se recordava, e por que sentia de novo, depois de muitos annos o indefinivel incommodo que sempre sentira na presença d'esse homem do qual nunca tivera a minima razão de queixa, a não ser talvez a preferencia que manifestava pelo seu irmão mais velho? Mas, apesar d'isso, elle e o irmão não tinham tido a mesma educação, e vivido, na casa paterna nas mesmissimas condições? Sem duvida, se seu irmão não tivesse morrido pouco tempo antes do pae, teria sido bem mais contemplado do que elle na herança paterna. Um documento encontrado entre os papeis do marquez, provava bem que havia querido legar ao filho primogenito toda a parte dos seus haveres de que, em face da lei, podia livremente dispor. Mas Norberto conhecia muito bem as idéas do fallecido gentil-homem para se admirar d'esta tentativa de reconstituição do direito de primogenitura.
Que ligação estabelecia então, de repente, entre as manifestações de friesa por parte de seu pae e os acontecimentos em que a denuncia da esposa, feita pela amante, o tinha envolvido? Não saberia dizel-o, nem tambem que hypothese se esboçava dolorosamente, obscuramente, na sua imaginação, hypothese logo posta de parte, por ser tão sacrilega como insensata?... Absurdo pesadelo, que a paragem do trem em frente da casa do professor Salvan, fez dissipar!
--«Saberei alguma coisa por elle», disse comsigo. «Contanto que lá esteja!...»
O medico estava effectivamente em casa. Logo que Chalinhy lhe fez apresentar o seu cartão, no qual escreveu: _Da parte do sr. Dumont, que está muito mal_, foi immediatamente recebido. Ao primeiro golpe de vista, o marido de Valentina viu logo que o homem de 45 annos que a baroneza de Node vira chegar n'uma carruagem de aluguer ao pavilhão da rua Lacépède era o medico. O professor Salvan tinha na realidade mais dez annos; mas, perfeitamente conservado por uma existencia continuamente activa e quasi ascetica, não indicava tanta edade. Era magro e robusto, com uma cabeça pequena, e cujo rosto attrahente e imberbe recordava a physionomia napoleonica do seu mestre Charcôt.
No mundo das grandes celebridades medicas e parisienses, onde os ultimos annos tantas notabilidades se tem manifestado, Salvan figurou sempre em separado, associando, como o seu amigo e condiscipulo Eugenio Corbiére, que voltou já ás antigas normas, o catholicismo mais accentuado ao mais solido talento de clinico e de anatomista.
Mais celebre do que conhecido, os seus immensos trabalhos conservaram-no sempre affastado dos salões e o gosto pelas investigações puramente scientificas, da clientela.
A morte do seu unico filho, em 1898, em circumstancias bem crueis--envenenara-se, longe dos seus, n'um hotel de Napoles, por desespero d'amor--tornou-o ainda mais concentrado.
Foi desde então que deixou a sua instalação no boulevard Malheserbes, para se refugiar ali, n'uma casa mais modesta, mas que não lhe recordasse constantemente a creança tão tragicamente perdida.
Este detalhe prova bem quanto um tal homem tanto em contacto com os soffrimentos da humanidade, era sensivel, apezar da sua apparente severidade e indifferença e da dureza do seu penetrante olhar. Eis tambem a justiça do motivo porque o brilho dos seus olhos feriu Joanna de Node, quando o observou ao descer da carruagem. O mesmo brilho agudo, como a lamina d'um bisturi feriu tambem Chalinhy, emquanto lhe descrevia o ataque que acommettera o sr. Dumont. O medico estava assentado ao fogão, n'uma pequena sala que servia de gabinete de trabalho a sua mulher, vestia uma sobrecasaca preta, de luto, que não abandonou mais desde a morte do filho, e á medida que o marquez proseguia na descripção, o seu rosto, d'uma expressão tão energica, assombrou-se visivelmente:
--«Está muito doente, não é verdade?» perguntou Chalinhy.
--«Muito», respondeu Salvan. «Está á mercê do mais pequeno abalo. É mesmo espantoso como tem resistido a tanto, é espantoso!... Teve o primeiro ataque ha seis annos. Vinte vezes o tenho considerado perdido; mas tem uma tal vontade de viver!... E quando verdadeiramente se quer viver, vive-se... No entanto, devo dizer-lhe que sem os cuidados das senhoras de Chalinhy, não teria resistido. Teem sido admiraveis de dedicação as duas. As suas visitas é que o prendem á vida... Tambem se resolveu a ir vêl-o, fez bem. As dissensões de familia devem desapparecer deante da morte... Espero que não será ainda hoje, comtudo não ha tempo a perder, estarei lá dentro de vinte minutos. Póde annunciar-me.»
Deus! como Chalinhy, escutando estas palavras que mais escureciam ainda o enygma, desejaria interrogar o professor, convidando-o a explicar-se. O que aproveitaria com isso? Mesmo que a sua honra o não prohibisse de entrar n'um assumpto que envolvia uma mentira por parte de sua mãe e de Valentina, não era evidente que Salvan acreditava no pretexto de dissensões familiares, imaginado pelas duas mulheres para justificarem a sua presença á cabeceira do leito d'este moribundo, em que outro homem da familia ali fosse? O que lhe era então esse senhor Dumont?
Que sagrado dever vinha cumprir junto d'este infeliz, n'um bairro escuso, primeiro sua mãe e depois sua esposa--occultando-se d'elle, como se tinham occultado, com a prudencia de criminosas?
Tinha sido necessario para que conhecesse o segredo d'estas visitas, um tal concurso de circumstancias! E eram innocentes estas visitas, demonstrava-o o testemunho do medico declarando-as nobres e da mais benefica caridade. De que tinham então receio as duas mulheres? Que elle, filho e marido, lh'as prohibisse? Não. Qual seria então a imperiosa razão que as dominou, a ponto de nem ao medico terem dito a verdade, visto que inventaram a fabula d'um parente malquisto.
E o doutor Salvan acreditou na existencia d'este parente, occulto, dos Chalinhy? Porque? Não entraria ahi o segredo profissional.
Por outro lado, não acontece muitas vezes que um membro deshonrado d'uma familia se esconde em Paris, mudando de nome? Com certeza que sua mãe e Valentina tinham contado esta historia ao doutor, mas a verdade é que tal historia era falsa. Se fosse verdadeira, elle Norberto, o actual chefe da familia, conhecel-a-hia... Estes retratos, porém, no salão do doente, representando-o a elle, á mãe, á mulher e aos filhos, em differentes idades, o que significavam?
A perspectiva agora aberta deante do seu espirito infligia-lhe um tormento tão forte, que o impedia de sentir a consolação de ser livre d'uma outra suspeita, da que, duas horas antes, tinha a respeito da esposa.
A sua espectativa actual, por ser d'uma outra natureza, não era menos terrivel. Reconheceu-o no momento em que voltando á rua Lacépède, o creado lhe annunciou, com grande consternação, que o doente não recuperára ainda os sentidos.
Quando ha pouco o medico o felicitou por ter tambem ido visitar o enfermo, um intenso rubor lhe subiu ás faces pela immerecida saudação. Que atroz ironia, desde que, realmente, a sua apparição na sala, aonde nunca havia figurado, senão em effigie, é que produziu no dono da casa aquelle abalo terrivel, talvez mortal. Comtudo emquanto se affastava da pequena casa, sempre silenciosa, olhando as velhas tilias cujo ramos ultrapassavam o muro do jardim, um violento e inolvidavel remorso começava a perseguil-o. Disse ao cocheiro que o conduziu da rua Lacépède, ao _boulevard_ Saint-Germain, e d'ali novamente á rua Lacépède, para o levar á rua Varenne, ao seu proprio palacio.
Uma unica pessoa podia auxilial-o na decifração do enigma que, de minuto a minuto, se lhe affigurava mais tremendo, e no qual figurava d'um lado o desconhecido, e do outro sua mãe, sua mulher, os filhos e elle proprio.
--«Não se recusará a fallar-me», dizia elle, «não deve fazel-o. Não pode deixar-me n'esta horrivel incerteza... Tenho o direito de tudo saber, pois que se trata d'ella e de minha mãe...
Por maiores que fossem os seus esforços para mostrar a si mesmo a immutavel soberania do seu titulo de filho e de marido, não podia esquecer-se da scena com a esposa, duas horas antes, e da mudança operada na sua situação ao voltar de novo á presença de Valentina. Deixára-a, completamente desconcertada pelas suspeitas que o zelo perigoso d'uma parenta imprudente tinha insinuado no seu coração. Luctava contra essas suspeitas não acreditando na sua veracidade. Ella que não contava na sua vida um unico facto que merecesse censura, não tinha zelos, e, a par d'isso, elle que a atraiçoava, recorria, impellido pela mais calumniosa, pela mais gratuita denuncia, á mais insultante das investigações. Para iniciar com ella a conversa que lhe daria, emfim, a luz de que tanto necessitava, era preciso referir-se primeiro a essa investigação. O que entrevia no fundo d'aquella alma tão terna e tão reservada, produzia-lhe, n'esse momento, uma vergonha de si mesmo e do seu procedimento, muito superior ás outras perturbações do seu ser. Estas emoções de caracter bem diverso, tornaram-lhe horrivelmente dolorosa a entrada do gabinete aonde Valentina se encontrava depois de almoçar. Estava junto dos filhos, Francisco e Armanda--o filho tinha o nome do irmão mais velho de Norberto, morto tão novo ainda, e a filha o de sua avó. Quando o marido abriu a porta, a marqueza de Chalinhy acariciava os cabellos annelados das duas formosas creanças, n'uma attitude muito semelhante á da photographia que estava no salão do doente, em que nunca as tinha visto.
Uma tal analogia, augmentando de novo em Chalinhy a sensação do mysterio, deu-lhe força para provocar uma tão dolorosa conversação. Além d'isso, se todos os signaes, o tremor das suas mãos brancas de mulher em volta dos cabellos das creanças, o rubor das faces, a expressão dos olhos, lhe denunciavam bem que ella, por seu lado estava agitada, vibrante, não sabendo ainda da sua acção recente, de que podia ella tremer senão do desgosto que lhe confiára pela manhã em termos tão claros, muito embora disfarçados? A «crueldade do mundo», como tinha dito, feriu-a, e, por isso, tentava esquecel-a ao contacto das duas almas candidas descendentes da sua, e cuja innocencia lhe sorria atravez dos lindos olhos azues e das boccas rosadas. A mãe sorria-lhes tambem, com um sorriso que nos seus labios nervosos se transformou em tremor, quando viu entrar Norberto; deixando ir as duas creanças ao encontro do pae, com a ligeireza e maneiras graciosas d'essas delicadas creaturas quando estão contentes. Em crises como a que atravessavam marido e mulher, estas festas tão expontaneas, tão innocentes do filho e da filha deviam incommodal-os. A antithese entre o pesar que os paes teem no coração e a alegria communicativa cheia dos encantos da vida, d'essas sensibilidades tão juvenis, constituem a parte tragica e pungente de certos dramas de familia. São tambem muitas vezes a sua unica consolação. É o rejuvenescimento, é o porvir que annunciam esta alegria descuidada dos filhos ao homem e á mulher que soffrem. Norberto e Valentina experimentavam por vezes uma e outra impressão, e as suas primeiras phrases quando, de commum accordo mandaram as creanças embora, exprimiram essa tristeza e esse prazer.
--«Como estavam satisfeitos na tua companhia» disse Chalinhy, «deixaval-os gosar um pouco, e tinhas razão! Quando se não é feliz em creança, arrisca-se a gente a morrer sem nunca o ter sido...»
--«Não os distrahia», respondeu a mãe, «distrahia-me com elles. Quando tenho momentos de desanimo como aquelle que tive a fraqueza de te deixar perceber esta manhã, elles fazem-me readquirir a esperança. Mas, como vês, estou melhor, tive força sobre mim. Não me deitei. Almocei com elles, visto que me mandaste dizer que não almoçarias em casa, e acabámos ha pouco...»
Conservaram-se silenciosos durante algum tempo.
Deante d'esta nova prova da benevolencia e energia d'esta alma, que não queria mostrar-lhe quanto fôra violentamente magoada com a denuncia da carta anonyma, o marido, perfido e desconfiado, sentiu um remorso mais vivo ainda, a par d'uma recordação agudissima do mysterio contra que se debatia. Era forçoso que a esposa lhe ligasse uma importancia capital para que continuasse a manter a maior reserva sobre um tal mysterio, pela sua attitude, como uma mulher culpada, quando é certo não tinha a occultar senão a mais pura dedicação!
Mas porque... E encontrando na sua crescente affeição, força para confessar o seu degradante accesso de ciume, disse:
--«Valentina venho da rua Lacépède.»
Emquanto pronunciava estas palavras de que só ella no mundo, visto que a mãe de Norberto tinha morrido, podia medir o tragico alcance, ditas pela sua bocca, olhou-o com espanto e assombro. Repetiu, como se não podesse acreditar nas palavras que tinha ouvido: