A agua profunda

Chapter 7

Chapter 73,766 wordsPublic domain

Se pode sustentar-se que os pensamentos dos paes teem influencia no caracter dos filhos, devia Chalinhy ter sido concebido em horas de bem intima inquietação para ser assim, indeciso e inaccessivel, susceptivel de se deixar arrastar e comtudo apaixonado pelas coisas elevadas, avido de paixão e amante da honestidade, tão fraco para com certas particularidades do seu caracter, e tão violento, tão implacavel, para com outras, ia proval-o mais uma vez.

Depois d'esses raciocinios, estava ainda inteiramente preoccupado na maneira porque, de futuro regularia uma traição, da qual deveria ter horror, comparando a esposa, tal qual se lhe mostrava agora, á amante. Mas conheceria elle tambem a amante?

Não tenho sabido descobrir no coração de Valentina a riqueza occulta da mais ardente sensibilidade como teria advinhado no de Joanna todas as miserias, toda a sequidão, e uma unica paixão ardente: a inveja? Reconheceria logo que caracter tão admiravel sacrificára uma alma tão dura. O ruido d'uma porta que se abria interrompeu-o de repente nas suas meditações, e viu entrar, como na vespera, á mesma hora, a auctora da carta anonyma que serviu de ponto de partida á scena entre os dois esposos, a propria baroneza de Node.

Chegára ligeira e esbelta, com um vestido de passeio. Tendo andado a pé, o contacto do ar fresco rosara-lhe as faces, e os olhos negros brilhavam com intensidade.

Vinha constatar pessoalmente o effeito da denuncia.

Não necessitou olhar duas vezes o amante para advinhar que estava ainda mais perturbado que de costume. Percebeu tambem, distinctamente, que havia fallado a Valentina. As almofadas d'uma cadeira de braços, collocada junto do fogão, mostravam que alguem se tinha ali assentado ha pouco, e um lenço esquecido sobre uma pequena meza attestava que esse alguem fora a marqueza de Chalinhy.

Não era preciso mais. Joanna concluiu logo que a scena da explicação devia ter sido violenta.

--«Vim saber noticias de Valentina,» disse dissimulando as suas intenções.

«Ella não se levantou ainda?... Não está melhor?...»

--«Levantou-se», respondeu Chalinhy, «mas tivemos uma conversa que a incommodou muito. Sentiu-se peior e tornou-se a deitar.»

--«Joanna» acrescentou com uma singular firmeza, «não me enganei, fallaram-lhe a nosso respeito...»

--«E o que disse?» perguntou ella.

--«Não entrou em detalhes. Não precisou factos nem pronunciou nenhum nome. Mas comprehendia-a perfeitamente. Contaram-lhe tudo, percebes, e nada acreditou...»

--«Não comprehendo, então, porque motivo tomas um ar tão solemne para me annunciar que nada mudou na nossa situação», respondeu Joanna, «a não ser que...»

--«A não ser que?...» perguntou Chalinhy, visto não ter ella concluido a phrase, «que queres dizer? Conclue o pensamento...».

--«A não ser que tu proprio desejes que elle mude. Ah! A Valentina é muito mais forte do que imaginava», continuou com um máo sorriso.

--«Se te tivesse dito que acreditava, protestarias e ter-nos-hias defendido. Em logar d'isto, fez de generosa, ella que não quiz admittir que a sua Joanna e o seu Norberto possam enganal-a, e tu preparas-te para me pedir que seja prudente, para a poupares. Confesso. Diviso este pedido nos teus labios. Dispenso-te de o fazeres».

Fallou com uma irritação crescente, que provinha da sua profunda decepção. Esperava encontrar Chalinhy pesaroso, para o interrogar, para obter d'elle a declaração da carta anonyma, para conseguir que lh'a mostrasse, e para emfim, o aconselhar a que procedesse a um rigoroso inquerito, o qual, em sua opinião, devia ser a perda da rival. Todo o seu plano fora porém, destruido. Porque artificio? Suspeitava-o, sem comtudo comprehender como a discussão das suas relações com Chalinhy, tinha substituido a da carta anonyma.

--«Joanna», replicou Chalinhy; com aquella accentuação de voz que se emprega para com as creanças que não desejamos molestar, «tu não és justa, nem comigo, nem com Valentina.

«Porque a accusas d'um calculo que não está no seu pensamento, juro-to? Se a tivesses visto, como eu, aqui, ainda ha pouco, não duvidarias da sua sinceridade. Soffria e censuram-na ainda. Eis toda a verdade. Não acreditas?...»

--«Não,» disse, com uma dureza na voz que denunciava o seu odio occulto, pela prima. Chalinhy cometteu a mais perigosa imprudencia,--estando collocado, como realmente estava, em consequencia das suas proprias faltas, entre duas mulheres, uma das quaes apenas o queria por aversão á outra--appelando para a ternura e para a piedade d'um coração em que sómente havia sede de vingança! Era exasperar ainda mais este cruel apetite, e Joanna, cedendo a elle, repetiu: «Não, não acredito. Queres saber porque? É porque a conheço melhor do que tu, meu caro, muito melhor, fica certo». Acompanhou esta phrase d'um mau sorriso. Sentou-se, conservando os olhos abertos, e, no rosto, evidentes signaes de obstinação. Movia entre os dedos crispados, uma faca de tartaruga para cortar papel, que se achava sobre a meza a que se encostou, e ouvia, n'um mutismo pertinaz, Chalinhy perguntar-lhe visivelmente irritado, por a ver assim increpar Valentina em termos tão insidiosos.

--«O que significa tudo isto? Explica-te: Já uma vez, na semana passada, quando, jantamos em casa dos Sarliévre, proferiste as mesmas palavras enigmaticas e acompanhadas do mesmo sorriso... Queres dizer que ha na vida de Valentina coisas que não vejo, que não sei e que tu sabes? Não se falla a um homem da mulher que usa o seu nome, de maneira que possa tornal-a suspeita, quando nada de preciso se diz. O que ha? O que se passa? Respondes ou não».

Continuava calada, e os seus dedos a brincar cada vez mais nervosamente com o objecto que servia para occultar a grande agitação interior. Ao chegar o momento de consumar, por um testemunho directo e pessoal, a obra da deleção começada pela carta sem assignatura, hesitava, tinha medo. Chalinhy calou-se tambem. Uma idea, que não lhe tinha ainda occorrido, atravessava n'aquelle momento o seu espirito, e logo lhe pareceu evidente. Levantando-se bruscamente agarrou a amante por um pulso e obrigou-a a olhar para elle.

--«Joanna!» disse subitamente «tu é que escrevestes a carta.» E com a voz transtornada e como estrangulada pela indignação, repetiu. «Fostes tu que a escrevestes, fostes tu... Mas confessas então...»

--«Magoas-me» respondeu Joanna levantando-se e debatendo-se contra uma tão brutal violencia. «É indigno. Deixa-me».

Chalinhy deixou-a, e passando a mão pela fronte como um homem que volta a si, depois d'um minuto de delirio, disse, envergonhado, quasi supplicante «Tens razão, é indigno. Perdoa-me. Mas peço-te sem violencia, responde-me. Recebi hontem uma carta anonyma, rasguei-a e nem quero pensar no que continha. Se foste, porem, tu que a escreveste, tudo mudou. O que n'ella se diz é então verdade. Dize, é tua a carta?»

--«Sim, é minha,» respondeu a amante, depois d'um novo silencio.

--«N'esse caso» e a voz de Chalinhy estrangulou-se para articular a suprema pergunta, «então é verdade?...»

«É verdade, é.» Depois, baixando novamente os olhos, rapidamente, como não desejando dar a si mesma tempo para se arrepender do que tinha feito e que era já irremediavel, começou a referir os acontecimentos que já conhecemos.

Contou o seu encontro com a prima no grande armazem da rua de Rivoli, a sahida d'esta por uma porta differente d'aquella aonde tinha o _coupé_, a partida da carruagem, a mentira d'essa noite a respeito do que fizera de tarde; a tenção formal que tinha feito de nada revelar a Norberto, etc.

Expoz depois o segundo encontro, tendo, é claro, o cuidado de dizer que fora casual--como tinha visto, na antevespora, sahir Valentina a pé, seguiu-a quasi machinalmente;--como a prima alugou novamente uma carruagem, não poude tambem deixar de alugar outra, e que, por isso, chegaram quasi ao mesmo tempo a esse bairro perdido, proximo do Jardim das Plantas,--e o resto: A marqueza de Chalinhy sahiu da carruagem em frente do hospital, seguiu a pé até ao pavilhão da rua Lacépède, entrou na tal casa, chegando alguns minutos depois, um individuo em carro de aluguer, o qual consultou o relogio, com a impaciencia de quem chega tarde para uma entrevista.

--«Continuaria calada, juro-te; mas quando hontem e ante hontem a vi representar a comedia da suspeita contra nós, comprehendi que sabia ter eu surprehendido o seu segredo.

«Não foi a tia de Nerestaing que nos denunciou a ella; ella é que nos denunciou á tia de Nerestaing.

«Calculou que te fallaria no assumpto e quiz tomar a deanteira, acusando-nos... Então perdi a cabeça. Disse de mim para mim que eramos solidarios eu e tu, que não podia permittir que te fizesse tal, havendo-se trahido, e escrevi-te, uma primeira carta... Depois, no momento de t'a enviar, tive receio de que me despresasses... Comtudo era por ti, só por ti que te escrevia.

«Sim tive esse receio, disfarcei a lettra e não assignei!... Agora que sabes tudo, diz-me que acreditas que apenas procedi assim por tua causa, para que possas defender-te antes que ella te fira.

«Dize que me não desprezas por ter empregado este meio para te avisar. Oh! dize-me, meu amor, meu Norberto, dize-me.»

Escutou-a, sem a interromper, com uma physionomia que a cada detalhe dado pela accusadora se foi carregando até se tornar terrivel.

Se é verdade que nos pequenos como nos grandes acontecimentos, segundo a opinião dos Livros Eternos: «as iniquidades ferem quem as pratica, e que as más acções ficam com quem as faz» a invejosa estava sendo punida pela sua repugnante delação, por a propria attitude de Chalinhy.

Podia ver bem no seu rosto, n'aquelle momento, que não existia mais para elle.

O amante desappareceu para só existir o marido.

Não respondeu á supplica que Joanna lhe dirigiu, atemorisada pela sua propria obra.

Não lhe podia dizer se a despresava ou não. Só tinha no pensamento a mulher--_a sua mulher!_--indo a uma entrevista amorosa.

--«A infame!...» exclamou Chalinhy, repetindo «A infame!...» E dirigia-se á porta que conduzia aos aposentos de Valentina, quando Joanna se lhe collocou deante, dizendo:

--«Onde vaes?»

--«Ao seu quarto,» respondeu elle. «Obriga-la a confessar».

--«Não farás semelhante cousa. Se lhe fallas agora, comprehenderá que tudo soubeste por mim. Não farás isso, não tens mesmo o direito de o fazer...»

--«É justo» disse, fitando-a. Via-a agora como realmente era, e lia até ao fundo do seu coração. Ficou algum tempo insensivel, sem que ousasse interroga-la, e, depois, com um gesto rapido e uma grande aspereza na voz, accrescentou: «Dou-te a minha palavra d'honra que lhe não digo quem me avisou. Além de que, necessito ainda de outras provas e hei de tel-as, dou-te a minha palavra tambem...» Sahiu da sala, debaixo da impressão d'esta ameaça, sem ter para aquella que o havia impellido para o caminho da vingança, nem uma palavra, nem um gesto.

Ella viu sahir o agente do seu antigo odio, que ia emfim ver saciado, sem ter força para o deter. Que iria fazer? O intenso furor de que ia animado, não recuaria, via-se bem, deante de nenhum meio de investigar a verdade, nem deante de nenhum extremo e punição. Joanna anteviu logo uma espera feita á porta da casa mysteriosa; a chegada de Valentina no dia seguinte, no immediato, ou em qualquer dia da semana; e um assassinato...

E seria ella a causadora. Um instinctivo movimento de terror a precipitou para a porta dos aposentos da companheira de infancia.

Era ainda tempo de reparar uma parte do seu crime, prevenindo-a.

No momento, porém, de pôr a mão no fecho da grande porta, occulta por um reposteiro de seda verde, graças ao qual o ruido d'essa tragica conversa não chegou ao ouvido da calumniada--a delatora deteve-se. Encolheu os hombros e seguiu para o lado opposto, em direcção á porta que conduzia á escada de sahida, que desceu, dizendo para si:

--«Ella não nos pouparia em igualdade de circumstancias. O furor de Norberto abrandará emquanto procede ás investigações; e depois não fará escandalo por causa dos filhos. Abandonal-a-ha, restando-me em seguida fazer com que case comigo. Eu me encarregarei d'isso...»

E os seus pequeninos pés pousavam nos degráus com uma energia, como se já se achasse de posse d'aquelle palacio, no qual estava convencida, dentro em pouco, viria substituir a outra. Crispavam-se dentro das suas pequeninas botas, como se quizessem esmagar debaixo dos saltos um remorso que não conseguia anniquilar.

VII

O retrato

Sahindo, pela fórma porque o fez, do pequeno compartimento em que recebeu o terrivel golpe da espantosa revelação, Chalinhy não pensou no que fazia. Sentiu que não teria força em si e que necessitava deixar passar algum tempo antes de proceder. Era sobre tudo necessario que não visse Valentina. Se a visse, não poderia conter-se, fallar-lhe-hia com certeza no assumpto e não _devia_ fallar-lhe. Tinha dado a sua palavra a Joanna e, além d'isso era sua convicção que não surprehenderia a culpada se não procedesse com dissimulação.

Sahiu do palacio, dizendo que não vinha jantar. Depois da scena d'essa manhã, a sahida de Chalinhy, sem se ter despedido da esposa, era de natureza a causar admiração a Valentina, mas elle calculou que se voltasse a casa não poderia ser superior aos seus nervos e provocaria uma explicação plausivel. Caminhava depressa, com receio de que Joanna de Node sahisse logo tambem, e não queria encontrar-se outra vez com ella. A presença da perigosa amante, n'aquelle momento, era-lhe physicamente intoleravel. Tinha-o ferido muito bruscamente, muito brutalmente, n'uma das mais intimas fibras do coração.

Por mais intelligentes e perspicazes que as mulheres sejam não medem com exactidão certas reacções da alma masculina, quando principalmente procedem do orgulho molestado. Onde iria o marido repentinamente ferido na sua dignidade de homem? Nem elle mesmo o sabia.

As palavras inolvidaveis resoavam-lhe ainda aos ouvidos. As imagens evocadas com intelligencia por a invejosa, fixaram-se no campo luminoso do seu pensamento em fórmas tão nitidas como se pessoalmente tivesse assistido á subida da mãe dos seus filhos para a carruagem furtiva, á descida na rua suspeita, e á entrada na casa equivoca. Esta serie de factos positivos, não deixaram a menor duvida no seu espirito suggestionado, sem que desse por isso, pela odiosa paixão que Joanna tinha desenvolvido.

Por uma invencivel e espontanea associação de idéas, as continuas impressões mal definidas que experimentou durante a sua estranha vida conjugal e que tinham por base o silencio, reappareciam agora e coordenavam-se.

Toda a timidez experimentada na frente de Valentina lhe refluia ao coração. Tinham agora para elle perfeita explicação na força da hypocrisia d'essa mulher, tão reservada, tão retrahida, que não teria mesmo ousado julgal-a capaz da mais simples leviandade, e via-a sempre, n'essas duas scenas que Joanna observou com os seus proprios olhos: sua mulher, a marqueza de Chalinhy, deslisando por entre os frequentadores do grande armazem, para transpor d'uma a outra porta--do seu _coupé_ á carruagem alugada--como uma adultera ignobil--sua mulher a pudica, a timida Valentina, aventurar-se a ir a essa rua do arrabalde.

A visão tornava-se precisa, uma verdadeira allucinação, e a revolta contra esse angelico e puro rosto que por tanto tempo o havia enganado, sob a impressão do qual tanto se havia enternecido ainda n'essa manhã, produzia no sangue do marido ultrajado a febre do homicidio. Tendo caminhado a direito, sem mesmo saber para onde ia, chegou, sem dar por isso, á estação do caminho de ferro de Montparnasse. Parou por algum tempo defronte da _gare_ e depois, na incerteza de saber que direcção devia tomar, uma imperiosa tentação se apoderou d'elle, invencivel desde logo, a de ir até á rua Lacépède, cujo nome desde a vespera se associava ao seu d'uma maneira, que lhe pareceu tão ridicula quando leu a carta anonyma, e que, n'aquelle momento, depois da conversa com Joanna, lhe parecia tão espantosamente insultante.

Para o inquerito a que ia proceder, até surprehender a esposa no flagrante delicto de adulterio, o grande, o unico dever da sua vida, não seria o primeiro ponto a illucidar a existencia da casa onde se realisavam as entrevistas amorosas?

E depois, mesmo sem esta rasão, não devia Chalinhy experimentar uma imperiosa necessidade de ver o local onde era arrastada a sua honra conjugal?

O ciume, uma vez despertado, tem sempre este apetite da realidade concreta e viva, que supplicia e satisfaz ao mesmo tempo. O irresistivel desejo do homem que se julga trahido é conhecer todos os detalhes da perfidia de que é victima; figurar com uma implacavel brutalidade cada episodio; experimentar o paroxismo da sua dôr ao contacto do immovel e indestructivel quadro que foi theatro do indelevel ultrage.

Começou para Chalinhy este paroxismo, quando o seu olhar encontrou pela primeira vez, sobre a placa da esquina da rua que procurava, o nome já tão detestado. A memoria do sabio naturalista e do sagaz cortezão que ella perpetuava n'este bairro de miseraveis, parecia bem mal escolhido para se associar a emoções d'esta ordem! Chalinhy tinha continuado a andar, parando, de quando em quando, como um provinciano perdido n'este grande Paris, perguntando informações sobre o caminho a seguir, umas vezes á policia e outras aos tranzeuntes.

A pequena actividade animal do movimento abrandou um pouco o seu furor.

Augmentou quando os seus pés tocaram no pavimento da rua maldita. Entrou n'ella pelos quarteirões superiores, que a rua Monge separa dos inferiores, de maneira que, não vendo logo nas duas linhas de casaria nenhum predio que correspondesse aos signaes do pavilhão, teve um momento de duvida, e, portanto, de allivio.

A inspecção dos numeros bem depressa lhe fez comprehender o seu erro. Deu mais alguns passos e do lado dos numeros impares apparecia a casa mysteriosa, tal como Joanna lha havia descripto: com as grades de ferro das janellas do rez-do-chão pintadas de preto, a porta escura elevada por trez degraus, as sacadas do primeiro e do segundo andar burguezmente guarnecidas de bambinellas de musselina, e o muro do jardimsinho com as suas tilias.

Era mais de meio dia, e o sol d'esta bella tarde de novembro estava limpo do nevoeiro que o velára durante a manhã. O céo azul pallido, onde fluctuava uma humidade doce, banhava os ramos das arvores meio despidas.

O vento destacava d'ellas, de quando em quando, uma folha côr d'ouro, que volteava lentamente e vinha algumas vezes cahir para fóra do muro. A alegria da hora do almoço enchia com a sua expansão a modesta rua. N'uma casa de pasto, de má apparencia, em cujo frontespicio estavam escriptas as seguintes palavras, cheias de promessas: «Refeições baratas», vinham instalar-se varios operarios.

Duas aprendizas, raparigas ainda, da lavandaria proxima, sahiam em cabello para irem comer, á pressa, a casa da familia, no fundo d'algum pateo de qualquer das travessas visinhas.

Algumas das janellas do pavilhão estavam abertas, e sahia fumo por dois tubos de chaminés. Se o honesto aspecto da casa havia surprehendido bastante o marquez de Chalinhy, estes indicios que mostravam ser ella habitada regularmente, mais o espantavam ainda. Não estava, então, deante da casa suspeita escolhida por dois amantes que querem ali encontrar-se, de vez em quando, durante algumas horas, occultamente. Mas, então, o desconhecido que Joanna viu chegar em carro de aluguer, era o habitante permanente d'aquelle casa? Era pouco provavel, em vista da sua attitude impaciente do homem que chega tarde a uma entrevista amorosa, e que manda esperar a carruagem para tornar a ir n'ella. Quanto mais o marido de Valentina estudava o aspecto mudo d'essa casa mais o seu frenesi dos primeiros momentos, misturado d'uma aguda curiosidade, acabava por o impellir aos actos mais oppostos ao seu caracter. Avistando um ferro velho que fumava no seu cachimbo á porta da locanda, que ficava a alguns passos de distancia, avançou bruscamente para elle e sem mais preambulos:

--«Queres ganhar uma nota de cem francos?» perguntou Chalinhy.

--«_Ixo_ não se pergunta» respondeu o interrogado. Era um dos muitos ferros velhos que tanto abundam n'aquelle bairro, um Auvernhez de cara redonda, que pronunciava o _xim_ classico dos naturaes de Saint Flour, por o «sim», apezar de viver ha trinta annos em Paris. O seu olhar vivo denunciava a esperteza campesina tão peculiar n'essa classe de vendedores ambulantes, que se fornecem das casas de bric-á-brac. Com a prudencia innata d'um filho do Cantal, acrescentou logo--sempre com a mesma pronuncia tão pitorescamente caracteristica--«_Ixo_ depende do trabalho que tiver de fazer.»

--«Tens apenas que me responder a uma pergunta», e indicou o pavilhão: «Quem móra n'aquella casa?»

--«N'aquella casa?» respondeu o futuro antiquario, com uma finura nescia, «é o seu dono, está claro!»

--«E quem é o seu dono?» insistiu Chalinhy, imperativamente: «Dou-te duzentos francos de gratificação se m'o disseres immediatamente, senão vou perguntal-o a outra pessoa...»

--«É o senhor Dumont», respondeu o auvernhez, depois de ter reflectido. Pensou, sem duvida, que um dos seus collegas da rua seria menos escrupuloso, e duzentos francos, em Paris como em Saint-Flour, era muito dinheiro!

--«É novo ou velho?...»

--«Velho,» repetiu o homem, «e muito doente. Está paralytico. O anno passado ainda sahia de carruagem; mas este anno vio-o só uma ou duas vezes...»

--«Recebe muitas visitas?» perguntou Chalinhy.

--«Muito poucas», respondeu o provinciano a quem os duzentos francos pareciam estar já bem ganhos, e, por isso, deu a conversa por terminada com a seguinte phrase: «não posso dar mais informações, é raro chegar á porta, por isso, pouco sei. Tenho que fazer ali...,» e mostrou com o cachimbo--que para esse fim tirou da bocca--o montão de fragmentos de metal enferrujado que na sua industria pareciam ainda susceptiveis de venda.

O gentil homem conhecia não poder continuar o interrogatorio sem se deshonrar aos seus proprios olhos.

Tirou da carteira as notas promettidas e passou-as para a mão do ferro velho, que, com um grande espanto, que o seu largo rosto não dissimulou, o vio atravessar a rua e ir bater á porta do pavilhão.

O plano de Chalinhy era muito simples, concebera-o rapidamente, emquanto tirava as notas. Conheceu que tinha na carteira, misturados com os seus, bilhetes de visita da esposa, e que elle se havia encarregado de entregar, o que, por um contra tempo qualquer, não tinha podido fazer. Tomou um d'aquelles bilhetes e entregou-o á pessoa que veio á porta--um creado de quarto já velho, cuja physionomia e vestuario se harmonisavam mais com o aspecto da casa do que com o do bairro. A cara barbeada, o comprido avental branco de serviço e o fato proprio correspondiam perfeitamente á idéa d'um interior burguezmente confortavel, e ainda mais á escala e atrio que Chalinhy estava observando e que devorava com o olhar. Sua mulher subiu aquellas escadas na vespera!

Guarnecia-as um espesso tapete. As paredes estavam adornadas com um estofo escarlate emoldurado por pedaços de tapeçaria expressiva e vulgarmente chamada «verduras».

Quando o recem chegado disse: «Venho da parte da marqueza de Chalinhy», a physionomia do creado ficou tão absolutamente inexpressiva como se nunca um tal nome tivesse sido pronunciado deante d'elle.

Valentina vinha então a essa casa sem que esse homem achasse a sua presença extraordinaria. Este novo indicio, d'um estranho mysterio, era de natureza a elevar ao auge a curiosidade do marido, que insistiu:

--«Entregae um bilhete ao sr. Dumont, e dizei-lhe que a senhora marqueza de Chalinhy me encarregou d'uma importante e pessoal commissão para com elle...»