Chapter 10
--«Volta já para a rua Barbet-de-Jouy, Norberto, peço-t'o. Ficarei aqui mais algum tempo para cumprir um dever; o teu cifra-se apenas em o coração lhes fazer presentemente inteira justiça...» E com a mão indicou-lhe primeiro o retrato da mãe e em seguida a porta do quarto onde repousava o morto. «Entra no meu gabinete e procura na gaveta da secretaria um cofre de couro; abre-o» e desligou d'um bracelete aonde estavam presos alguns berloques, uma pequenina chave d'ouro, que lhe entregou. «Ali encontrarás um sobrescripto que tem por fóra as palavras: «Para meu marido, depois d'eu morrer», escriptas pela minha mão. Toma conhecimento do que contem e se desejares voltar aqui, iremos depois juntos... _É ella que assim o quer_...»
Achava-se tão esgotado por uma série de acontecimentos qual d'elles mais violento, que obedeceu á esposa, como teria obedecido vinte e cinco annos antes a uma supplica d'aquella cuja effigie inesperadamente apparecida n'aquelle mesmo logar se lhe tinha afigurado como mais compromettidor indicio. Recebeu a chave e deixou-se conduzir por Valentina até á porta, e meia hora depois, tendo encontrado o cofre de couro negro de que lhe falou, e dentro do cofre o sobrescripto com a epigraphe indicada, eis as paginas que começou a ler. Eram todas escriptas por Valentina e datadas de 3 de setembro de 1897, dois dias precisamente antes da mãe fallecer. As palavras traçadas no sobrescripto estavam reproduzidas no principio d'aquellas paginas, cuja primeira linha, por uma recordação do terno appello feito pela senhora de Chalinhy a Valentina, o fez logo chorar. Tinha por ventura culpa de não ter conhecido, então o que era esta mulher! Porque lh'o não teria sua mãe revelado? Ai! As mesmas reservas da sua vida de casado, conheceu n'outro tempo, no seio da familia, como filho.
Tinha a pesarem sobre elle as consequencias sombrias e crueis do seu sêr concebido na mentira e temor. Trazendo tambem o mesmo peso sobre o coração, como teria sua mãe podido viver com elle n'essa communhão que suppõe a inteira sinceridade? É a inevitavel expiação das felicidades prohibidas que pela necessidade do mysterio, não permittem a uma mulher dizer ao seu proprio filho qual o sangue que lhe corre nas veias e o nome d'aquelle que deveria chamar seu pae!
«_Para meu marido, depois de eu morrer.»_
«3 de setembro de 1867
«A mamã esteve hontem tão mal, que o medico julgou que não vivesse 24 horas. Pediu-me que não a abandonasse, ella que de ordinario deseja sempre que me vá deitar. A enfermeira devia substituir-me depois da meia noute. Comprehendi logo, pela sua terna insistencia que tinha uma ultima recomendação a fazer-me, á qual ligava uma extraordinaria importancia. Não podia suspeitar quanto essa entrevista teria de solemne e que confidencia me ia ser feita, a qual quero transcrever aqui, n'este momento em que todas as suas palavras estão ainda tão precisas na minha memoria. Quer ella, se eu morrer antes de uma certa pessoa, que meu marido seja o depositario d'este segredo, que não teve força para lhe revelar. Assim o quer para que um certo dever seja cumprido, dever que me confiou. Satisfarei os seus desejos deixando depois de mim, se for necessario, este testemunho. É precizo que eu reproduza as suas proprias palavras e que não misture com ellas as minhas emoções. Não poderia expôr d'outra fórma o seu pensamento. Depois d'essa conversa estou exhausta, estonteada. Só a vejo a ella e só a ella ouço.
«Reinava em volta do palacio um profundo silencio.
«Nesta epocha do anno poucas carruagens transitam pelas ruas Varenne e Barbet-de-Jouy. A palha que se fez espalhar pelas duas ruas amorteciam-lhes o ruido.
«Instalei-me á cabeceira da cama, com a minha costura, mas não consegui fazer nada.
«Pousava-a constantemente para olhar o pobre rosto d'essa mulher, que era ainda tão bella quando casei, e onde vejo já pronuncios da morte proxima.
«Fechou os olhos e parecia dormir.
«Rezava mentalmente, pedindo a Deus coragem para me fallar, e quando levantou as palpebras, vi-lhe no olhar um tão intenso ardôr que advinhei logo o seu desejo e antecipando-me, para attenuar um pouco o grande esforço que faria em articular as palavras, disse-lhe:
--«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta para lhe fazer o que desejar.»
--«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como isto é penoso», acrescentou ainda.
«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:--«querida mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a oito dias... Terá então já recuperado as forças...»
--«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te, vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido de ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada, muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas francamente.»
--«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel, cumpri-la-hei. Prometto-lho.»
--«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso orar primeiro.»
«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de intensa dôr.
«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia. Tinha medo...
«Quando a oração mental terminou, disse-me:
«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.» Obedeci-lhe:
«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua mão.» Obedeci-lhe ainda.
«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o som d'essa voz que parecia vir da outra vida,--e não era a confissão d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...--nunca me esquecerá.
--«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito sem interrupção.
«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de Norberto. Chama-se, direi antes, _chamava-se_ Filippe de Raynevilhe...
«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não tentarei desculpar-me.
«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.
«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.
«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia sido violentado a partir.
«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.
«Repito-te que não procuro justificar-me.
«Precedi mal desposando alguem que não amava, tendo a imagem d'outro no coração. Mal fiz ainda em não occultar de meu marido a minha indifferença para com elle. Peor fiz, porém, affastando-o pela minha frieza, em tomar como pretexto a sua infidelidade para justificar a minha.
«Teve uma amante. Soube-o. Disse comigo que a sua falta de fé conjugal me tornava livre.
«Encontrei Filippe no mundo, a nossa antiga paixão reviveu; lancei-me nos seus braços e fui mãe.»
«Ficou como morta. Apertei-lhe a mão com toda a piedade que, perante a confissão d'uma tragedia tão simples mas tão pungente na sua expressão muito humana, me enchia o coração. Com a outra mão, a que conservava livre, acariciava-lhe as faces, como faço algumas vezes, quando soffre mais e não supporta sequer que lhe toquem. Os meus dedos molharam-se com as suas lagrimas que lhe corriam dos olhos, silenciosamente, promovidas pelas caricias, que n'essa noite lhe prodigalizei.
«Para me provar quanto taes caricias, depois do que acabava de me confiar, lhe eram agradaveis e doces, agarrou-me na mão livre e levou-a aos labios. Nunca chorei tanto como n'esse momento.
--«O peor está ainda para dizer», repetiu depois: «quando Norberto nasceu juro-te que não receberia o nome de Chalinhy se não tivesse tido outro filho. Não tinha tido força para me conservar uma mulher honesta, por causa d'esse filho, e não tive tambem coragem para o abandonar. Illudi a minha consciencia justificando-me com tantos exemplos de eguaes compromissos que via em torno de mim, e tambem porque a grande fortuna era minha. Estes miseraveis sophismas foram bem castigados. Se tivesse fugido com Filippe nada do que aconteceu, e que é medonho, teria acontecido. Era muito rica, bem o sabes. Vivia no mesmo meio em que tu vives hoje, sem ter nunca que me preoccupar com as questões de ordem material. Reynevilhe herdára dos seus uma fortuna muito abalada. Para viver na sociedade e fazer figura n'ella gastava mais do que os rendimentos. A infelicidade, soube-o depois, perseguia-o tambem. A fallencia d'um banco, em que imprudentemente collocára uma parte dos fundos, acabou de o arruinar. Se ao menos me tivesse dito alguma coisa!... Mas eu ignorava tudo! Vendo-se na necessidade de mudar de vida--o que segundo elle imaginava, o desgraçado, equivalia a perder-me--commetteu um crime. Tinha um tio muito velho e muito rico, sem filhos. Nenhum dos primos necessitava verdadeiramente da herança.
«O tio falleceu de um ataque, na epocha em que Filippe se achava mais atormentado, e, tendo sido chamado para junto d'elle, não resistiu á tentação, destruiu o testamento e fabricou um em que era declarado seu unico herdeiro... Uma manhã, ao despertar, Chalinhy entrou no meu quarto e mostrou-me um jornal onde se relatava a descoberta da falsificação e a prisão de Reynevilhe... Se não enlouqueci repentinamente, foi porque o olhar de meu marido me fez comprehender que suspeitava da nossa ligação. Pensei em Norberto, e tive força para me calar...»
--«Ah! pobre mãe!» exclamei, «tem razão em dizer que tudo expiou. Pagou tudo com a dedicação por seu filho n'esse momento. Tem porventura a culpa de se ter enganado a respeito do senhor de Reynevilhe e d'elle ser um miseravel?»
--«Não lhe chames miseravel, porque o não é», interrompeu logo. Quando classifiquei d'uma maneira tão dura o amante falsario, a minha imaginação ia alem da sua confidencia. Reportava-se á historia sinistra d'uma _chantage_. Pela energia com que a sua mão se crispou sobre o meu braço, reconheci que os seus sentimentos pelo pae de Norberto não eram de odio e de desprezo. Continuei a escutal-a:
--«Tudo o que Filippe havia feito, fel-o simplesmente porque me amava. Posso fazer a mim mesma a justiça de que tive a intuição d'isso, desde o primeiro momento. A certeza d'um horrivel equivoco é que evitou que succumbisse logo, ali mesmo.
«O meu instincto de mulher não me enganou... Mas», e o tom da sua voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem! Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam. Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente, quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna, inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não despresar e não o despresei...»
--«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde vive?»
«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma maneira á sua obra de piedade. Sem duvida tinha continuado a manter uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no seu tristissimo estado physico!
«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as invenções dos livros.
«Mas que uma aventura como essa fosse possivel--que uma mulher da nossa sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a melhor parte da sua vida a um amante cahido--(e em que desastrosa queda!)--que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua ternura, por cartas, que o impediram de se matar,--que tivesse continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena--que tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus conselhos na sua tortura moral--que esse homem culpavel d'um tão grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras--e que as relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez, durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de seculo 19, tão positivo, tão brutal--não, não teria nunca imaginado um similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.
--«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas. Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?... Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter a liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes, emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver, a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceu _sem testamento_, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris, com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer, e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha morte...
«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»
--«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira ainda estas outras phrases, que me disse tambem:
--«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».
--«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me acredite piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro, durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!
«Disse-me ainda que o sr. Reynevilhe mora actualmente na rua Lacépède n.º 11, com o nome de _Dumont_.
_Valentina._»
X
Epilogo
Eram quatro horas da tarde quando o filho dos dois heroes d'este doloroso e mysterioso drama d'amor começou a ler as paginas em que a confissão da morta se achava reproduzida com uma emoção que a escripta e a redacção denunciavam. Ha muito que era já noite e ainda tinha nas mãos aquellas folhas, cujas phrases não podia deixar de repetir, uma por uma. Era como se as palavras pronunciadas nas trevas do leito da agonia, viessem, com effeito, do tumulo, d'ali, do Père Lachaise, onde tinha acompanhado sua mãe poucos dias depois que ella confiou os amargos segredos da sua vida, n'esta confissão suprema.
A marqueza de Chalinhy não quiz que a depositassem no jazigo de familia. Fez construir no ultimo anno da sua vida um tumulo especial, pedindo que na frontaria da pequena capella fosse gravado um unico nome: _Armanda_. O filho conformou-se com esta disposição testamentaria da mãe e viu n'ella um d'esses caprichos de hypocondria que as pessoas que padecem de doenças do figado, que tão profundamente alteram o caracter, teem muitas vezes. Comprehendia agora o motivo occulto d'um tal desejo. E recordava-se tambem de que ao lado do mausoléo da sua mãe, e quasi igual a elle, existia um outro completamente novo e que não tinha ainda nenhum nome gravado na frontaria. Admirára effectivamente uma tal similhança; mas disseram-lhe que o comprador d'aquelle terreno fizera copiar o monumento visinho por lhe ter admirado a simplicidade elegante. Esse comprador, adivinhava-o: era Reynevilhe. O amigo e a amiga quizeram repousar em mausoléos parecidos já que não podiam reunir-se no mesmo tumulo. Quem reconheceria o antigo homem escravo da elegante moda parisiense, o condemnado por falsificador, debaixo d'este appellido anonymo, este nome quasi impessoal de Dumont? Quando o filho fosse, de futuro, lançar flôres no tumulo da mãe, como fizera ainda no principio do mez de novembro, o tumulo do seu verdadeiro pae elevar-se-hia ali proximo implorando um olhar, um pensamento, um perdão. Recusar-lh'o-ia?... Não. A transformação que Valentina lhe tinha annunciado estava-se já operando n'elle. Era-lhe impossivel condemnar estes dois seres, dos quaes descendia. A sua falta foi tão tragicamente perseguida pela justiça vingadora, inherente á felicidade criminosa, que, mesmo no coração d'um extranho, a piedade teria sobrelevado a mais severa austeridade. Como não havia, pois, um filho de sentir superabundar nelle essa piedade, jorrando em lagrimas sobre o papel onde se descobriam ainda os vestigios d'outras lagrimas? E esses vestigios recordavam ao marido de Valentina a ternura feminina que acabara de purificar uma aventura culposa no principio, ainda que com muitas attenuantes,--criminosa depois pela allucinação d'um dos seus auctores,--ennobrecida mais tarde, mesmo na propria falta, pela fidelidade e pela dôr. Chegou a mesma aventura ao seu conhecimento absolutamente purificada por sua mulher. Era para junto d'ella, pois, que n'aquelle momento voava a sua alma dolorida, porque só por intermedio d'ella podera reconciliar-se inteiramente com a morta e com o morto, de cujo adulterio o nascimento o havia tornado cumplice, mau grado seu, unicamente pelo nome. Fizeram ainda peor! Transmittiram-lhe no intimo do ser as violentas contradições dos seus actos e das suas sensibilidades.
O que possuia de nobre e altivo, a instinctiva nobreza que o fizera soffrer sempre tanto com a mentira da sua traição a Valentina, devia-o a elles. O extranho romanesco da sua ligação mostrava evidentemente que tinham sido d'aquelles amantes que respeitam pelo menos os seus corações e que procediam movidos pela paixão e não pela intriga e pela galanteria. A fraqueza lamentavel da sua vontade em presença de certas tentações, provinha ainda d'elles. O peccado do seu amor transmittiu-se-lhe no sangue e tambem nas commoções do perigo que tinham corrido para se darem um ao outro. O que tinha de ferozmente timido derivava d'elles, assim como a desconfiança da doentia susceptibilidade, o obstaculo levantado ha alguns annos entre si e a esposa, exactamente como entre elle e sua mãe. Para que a moribunda o não tomasse por confidente, n'aquella hora suprema, era preciso que tivesse deixado augmentar muito entre os dois a profundeza do silencio que só catastrophes como aquella que o feria conseguem despedaçar.
Eis as ideias suggeridas por essas folhas de papel, já um pouco amarellecidas, a esse homem, subitamente collocado em presença da mais inesperada, da mais estonteante das revelações--idéas ainda emmaranhadas e indeterminadas, confusas e incertas. Não se desenhavam na sua reflexão em tão vivos contornos. Mas no emtanto apossavam-se já d'elle, condensavam-se levando-o ao reconhecimento apaixonado por Valentina, a uma necessidade de lhe pagar em ternura, em culto, em veneração, tudo o que ella tinha feito primeiro pela moribunda, em seguida pelo solitario da rua Lacépède, e por ultimo por elle proprio! Os acontecimentos succediam-se depressa, fornecendo-lhe occasião de provar esta gratidão, e, como acontece sempre quando se está collocado em certas situações d'uma ambiguidade insoluvel, a volta ao respeito do seu lar não podia fazer-se senão á custa de quem lh'o tinha feito profanar.