Four Plays of Gil Vicente

Chapter 11

Chapter 113,450 wordsPublic domain

_Capelã._ ¶ Pois que nam posso rezar por me ver tão esquipado por aqui por este Arnado quero hum pouco passear por espaçar meu cuydado, e grosarey o romance de Yo me estaba en Coimbra pois Coimbra assim nos cimbra que nam ha quem preto alcance. 10 ¶ Yo me estaba en Coimbra cidade bem assentada, pelos campos de Mondego nam vi palha nem ceuada. Quando aquilo vi mezquinho entendi que era cilada contra os cauallos da corte & minha mula pelada. Logo tiue a mao sinal tanta milham apanhada 20 e a peso de dinheiro: ó mula desemparada! Vi vir ao longo do rio hũa batalha ordenada, nam de gentes mas de mus, com muita raya pisada. A carne estaa em Bretanha & as couves em Biscaya. Sam capelam dum fidalgo que nam tem renda nem nada; 30 quer ter muytos aparatos & a casa anda esfaymada, toma ratinhos por pag̃es anda ja a cousa danada. Querolhe pedir licença, pagueme minha soldada.

¶ _Chega o capelam a casa do fidalgo, & falando com elle diz:_

_Cap._ ¶ Senhor, ja seraa rezam.

_Fid._ Auante, padre, falay.

_C._ Digo que em tres annos vay que sam vosso capelam.

40 _F._ He grande verdade, auante.

_C._ Eu fora ja do ifante, e podera ser del Rey.

_F._ A bofé, padre, não sey.

_C._ Si, senhor, que eu sou destante Aindaque ca mempreguei. ¶ Ora pois veja, senhor, que he o que me ha de dar, porque alem do altar seruia de comprador.

50 _F._ Nam volo ey de negar. Fazeyme hũa petiçam de tudo o que requereis.

_C._ Senhor, nam me perlongueis, que isso nam traz concrusam nem vejo que a quereis. ¶ Porque me fiz polo vosso clericus & negoceatores.

_F._ Assi vos dey eu fauores & disso pouco que eu posso 60 vos fiz mais que outros señores. Ora um clerigo que mais quer de renda nem outro bem que darlhe homem de comer, que he cada dia hum vintem, & mais muyto a seu prazer? ¶ Ora a honrra que se monta: he capelam de foam!

_C._ E do vestir nam fazeis conta, & esse comer com payxam, 70 & dormir com tanta afronta que a coroa jaz no cham sem cabeçal, e aa hũa hora, & missa sempre de caça? & por vos cayr em graça serviauos tambem de fora, atee comprar sibas na praça; ¶ E outros carregozinhos desonestos pera mi. Isto, senhor, he assi. 80 & azemel nesses caminhos, arre aqui & arre ali, & ter carrego dos gatos & dos negros da cozinha & alimparvolos çapatos & outras cousas que eu fazia.

_F._ ¶ Assi fiey eu de vos toda a minha esmolaria & daueis polo amor de Deos sem vos tomar conta hum dia.

90 _C._ Dos tres annos que eu alego dalaey logo sem pendenças: mandastes dar a hum cego hum real por Endoenças.

_F._ Eu isso nam volo nego.

_C._ ¶ E logo dahi a um anno pera ajuda de casar hũa orfaã mandastes dar meo couado de pano Dalcobaça por tosar. 100 E nos dous annos primeyros repartistes tres pescadas por todos estes mosteyros na Pederneyra compradas daquestes mesmos dinheyros. ¶ Ora eu recebi cem reaes em tres annos, contay bem, tenho aqui meo vintem.

_F._ Padre, boa conta daes, ponde tudo num item 110 & falay ao meu doutor que elle me falaraa nisso.

_C._ Deyxe vossa Merce ysso pera el Rey nosso senhor, & vos falay me de siso. Que coma, senhor, me ficastes ysto dentro em Santarem de me pagardes muy bem.

_F._ Em quantas missas machastes? das vossas digo eu porem.

120 _C._ Que culpa vos tem çamora? Por vos estam ellas nos çeos.

_F._ Mas tomay as pera vos & guarday as muytembora, entam paguevolas Deos. ¶ Que eu não gasto meus dinheyros em missas atabalhoadas.

_C._ & vos fazeys foliadas & nam pagaes o gaiteyro? Isso sam balcarriadas. 130 se vossas merces nam ham cordel pera tantos nos vyuey vos a aquem de vos & nam compreis gauiam pois que não tendes pios. ¶ Uos trazeis seis moços de pee & acrecentaylos a capa coma Rey, & por merce, nam tendo as terras do Papa nem os tratos de Guine: 140 antes vossa renda encurta coma pano Dalcobaça.

_F._ Tudo o fidalgo da raça em que a renda seja curta he per força que isso faça. ¶ Padre, muy bem vos entendo: foy sempre a vontade minha daruos a el Rey ou ha Raynha.

_C._ Isso me vay parecendo bom trigo se der farinha. 150 Senhor, se misso fizer grande merce me faraa.

_F._ Eu vos direy que seraa: dizey agora hum profaceo, a ver que voz tendes pera laa.

_C._ Folgarey eu de o dizer, mas quem me responderaa?

_F._ Eu. _C._ Per omnia secula seculorum.

_F._ Am̃e. _C._ Dominus vobiscum.

_F._ Auante. _C._ Sursum corda.

160 _F._ Tendes essa voz tam gorda que pareceis Alifante depois de farto daçorda.

_C._ ¶ Pior voz tem Simão vaz tesoureyro e capelam, & pior o Adayam que canta como alcatraz, e outros que por hi estam. Quereys que acabe acantiga & vereys onde vou ter.

170 _F._ Padre, eu ey de ter fadiga, mas del Rey aueis de ser, escusada he mais briga.

_C._ ¶ Sabeis em que estaa a contenda? direys: he meu capelam. & el Rey sabe a vossa renda & rirse ha, se vem aa mam, & remetermaa aa Fazenda.

_F._ Se vos foreis entoado.

_C._ Que bem posso eu cantar 180 onde dam sempre pescado & de dous annos salgado, o pior que ha no mar?

¶ _Vem um pagem do fidalgo & diz:_

_Pag._ ¶ Senhor, o oriuez see alli.

_F._ Entre. Quereraa dinheyro. Venhaes embora, caualeyro, cobri a cabeça, cobri. Tendes grande amigo em mi & mais vosso pregoeyro. Gabeyuos ontem a el Rey 190 quanto se pode gabar. & sey que vos ha dacupar, & eu vos ajudarey cada vez que mi achar: ¶ Porque aas vezes estas ajudas sam milhores que cristeis, porque soo a fama que aueis & outras cousas meudas o que valem ja o sabeis.

_Our._ Senhor eu o seruirey 200 & nam quero outro senhor.

_F._ Sabeis que tendes milhor, eu o disse logo a el Rey & faz em vosso louvor, ¶ Não vos da mais ̃q vos pagũe que vos deyxem de pagar. Nunca vi tal esperar nunca vi tal auantagem nem tal modo dagradar.

_O._ Nossa conta he tam pequena, 210 & ha tanto que he deuida, que morre de prometida, & peçoa ja com tanta pena que depenno a minha vida.

_F._ ¶ Ora olhay ese falar como vay bem martelado! Folgo nam vos ter pagado por vos ouuir martelar marteladas dauisado.

_O._ Senhor, beyjovolas mãos 220 mas o meu queria eu na mão.

_F._ Tambem isso he cortesam: 'Senhor, beyjovolas mãos, o meu queria eu na mão.' Que bastiães tam louçãos! ¶ Quanto pesaua o saleyro?

_O._ Dous marcos bem, ouro & fio.

_F._ Essa he a prata: & o feitio?

_O._ Assaz de pouco dinheyro.

_F._ Que val com feytio & prata?

230 _O._ Justos noue mil reaes. & nam posso esperar mais que o vosso esperar me mata.

_F._ Rijamente mapertaes. E fazeisme mentiroso, que eu gabeyuos doutro geyto & seu tornar ao deffeito nam seraa proueyto vosso.

_O._ Assi que o meu saleyro peito?

_F._ Elle he dos mais maos saleiros 240 que eu em minha vida comprey.

_O._ Ainda o eu tomarey a cabo de tres Janeyros que ha que volo eu fiey.

_F._ ¶ Jagora não he rezam: eu nam quero que vos percais.

_O._ Pois porque me nam pagais? Que eu mesmo comprey caruão com que mencaruoiçaes.

_F._ Moço vayme ver que faz el Rey, 250 se parecem damas la, este dia nam se va em pagaraas, nam pagarey. & vos tornay outro dia ca se nam achardes a mi falay com o meu Camareyro porque elle tem o dinheyro que cadano vem aqui da renda do meu celeyro, e delle recebereys 260 o mais certo pagamento.

_O._ E pagaisme ahi co vento ou co as outras merces?

_F._ Tomaylhe vos la o tento.

¶ _Indose o capelam vay dizendo:_

_C._ ¶ Estes ham dir ao parayso? nam creo eu logo nelle. Eu lhes mudarey a pelle: daqui auante siso, siso, juro a Deos queu mabruquele.

¶ _Vem o pagem com recado e diz:_

_P._ ¶ Senhor, in Rey see no paço.

270 _F._ Em ̃q casa?

_P._ Isto abasta.

_F._ O recado que elle da! ratinho es de maa casta.

_P._ Abõda, bem sey eu o ̃q eu faço.

_F._ Abonda! olhay o vilam. Damas parecem per hi?

_P._ Si, senhor, damas vi, andauam pelo balcam.

_F._ ¶ E qũe erã?

_P._ Damas mesmas.

_F._ Como as chamã?

_P._ Nam as chamaua ñigũe.

280 _F._ Ratinhos sã abãtesmas & quem por pag̃es os tem. Eu ey de fazer por auer hum pagem de boa casta.

_P._ Ainda eu ey de crecer, castiço sam eu que basta se me Deos deyxar viuer. ¶ Pois o mais deprenderey como outros como eu peri.

_F._ Pois fazeo tu assi, 290 porque has de ser del Rey, moço da camara ainda.

_P._ Boa foy logo ca vinda. Assi que atee os pastores ham de ser del Rey samica! Por isso esta terra he rica de pão, porque os lauradores fazem os filhos paçãos: ¶ Cedo não ha dauer vilãos, todos del Rey, todos del Rey.

300 _F._ E tu zõbas?

_P._ Nam mas antes sey que tambem alguns Christãos hã de deyxar a costura.

¶ _Torna o capelam._

_C._ ¶ Vossa merce per ventura falou ja a el Rey em mi?

_F._ Ainda geyto nam vi.

_C._ Nam seja tam longa a cura como o tempo que serui.

_F._ Anda el Rey tam acupado co este Turco, co este Papa, 310 co esta França, co esta trapa que nam acho vao aazado porque tudo anda solapa. Eu entro sempre ao vestir, porém para arrecadar ha mister grande vagar. Podeis me em tanto seruir atee que eu veja lugar.

_C._ Senhor queria concrusam.

_F._ Concrusam quereis? Bem, bem, 320 concrusam ha em alguem.

_C._ Concrusam quer concrusam, & nam ha concrusam em nada. Senhor, eu tenho gastada hũa capa & hum mantam: pagayme minha soldada.

_F._ Se vos podesseis achar a altura de Leste a Oeste, pois nam tendes voz que preste, perequi era o medrar.

330 _C._ & vos pagaisme co ar? Mão caminho vejo eu este.

¶ _Vayse._

_P._ Deueo el Rey de tomar que luta como danado: elle é do nosso lugar, de moço guardaua gado agora veo a bispar. ¶ Mas nam sinto capelam que lhe chãte hum par de quedas, e chamase o labaredas.

340 _F._ E ca chamase cotão, mais fidalgo que os azedas. Satisfaçam me pedia, que he pior de fazer que queymar toda Turquia, porque do satisfazer naceo a melanconia.

¶ _Vem Pero vaz, almocreue, que traz hum pouco de fato do fidalgo & vem tangendo a chocalhada & cantando:_

¶ A serra he alta, fria & neuosa, vi venir serrana, gentil, graciosa.

Falando.

¶ Arre mulo namorado 350 que custaste no mercado sete mil & nouecentos & hum traque pera o siseyro. Apre ruço, acrecentado a moradia de quinhentos paga per Nuno ribeyro. Dix pera a paga & pera ti. Arre, arre, arre embora que ja as tardes sam damigo, apre besta do roim, 360 uxtix, o atafal vay por fora & a cilha no embigo. Sam diabos pera os ratos estes vinhos da candosa.

Canta.

¶ A serra he alta, fria & neuosa, vi venir serrana, gentil, graciosa.

Fala.

¶ Apre ca yeramaa que te vas todo torcendo como jogador de bola. Huxtix, huxte xulo ca, 370 que teu dou yraas gemendo e resoprando sob a cola. Aa corpo de mi tareja descobrisuos vos na cama. Parece? dix pera vossa ama, nam criaraas tu hi bareja.

Canta.

¶ Vi venir serrana g̃etil graciosa, chegueime pera ella con grã cortesia.

Fala.

Mandovos eu sospirar pola padeyra Daueiro, 380 que haueis de chegar aa venda & entam ali desalbardar & albardar o vendeyro senam teuer que nos venda vinho a seis, cabra a tres, pam de calo, fillhos de mãteyga, moça fermosa, l̃eçoes de veludo, casa juncada, noyte longa, chuua com pedra, telhado nouo, a candea morta & a gaita a porta. 390 Apre, zambro, empeçarás? Olha tu nam te ponha eu oculos na rabadilha & veraas por onde vas. Demo que teu dou por seu & andaraas la de silha. ¶ Chegueime a ella de grã cortesia, disselhe: Señora, quereis cõpanhia?

¶ _Vem Vasco afonso, outro almocreve, & topam se ambos no caminho & diz Pero vaz:_

_P._ ¶ Ou, Vasco Afonso, onde vas?

_V._ Huxtix, per esse cham.

400 _P._ Nam traes chocalhos nem nada?

_V._ Furtarão mos la detras na venda da repeydada.

_P._ Hi bebemos nos aa vinda.

_V._ Cujo he o fato, Pero vaz?

_P._ Dum fidalgo, dou oo diabo o fato & seu dono coelle.

_V._ Valente almofreyxe traz.

_P._ Tomo o mu de cabo a rabo.

_V._ Par deos carrega leua elle.

410 _P._ ¶ Uxtix, agora nam paceram elles & la por essas charnecas vem roendo as vrzeyras.

_V._ Leixos tu, Pero vaz, que elles acham aqui as eruas secas & nam comem giesteyras. & quanto te dam por besta?

_P._ Nam sey, assi Deos majude.

_V._ Nam fizeste logo o preço? mal aas tu de liurar desta.

420 _P._ Leyxeyo em sua virtude, no que elle vir que eu mereço.

_V._ ¶ Em sua virtude o deixaste? & trala elle com sigo ou ha dir buscala ainda? Oo que aramaa te fartaste! Queres apostar comigo que te renegues da vinda?

_P._ Elle pos desta maneyra a mão na barba & me jurou 430 de meus dinheyros pagalos.

_V._ Essa barba era inteyra a mesma em que te jurou ou bigodezinhos ralos?

_P._ ¶ Ora Deos sabe o que faz & o juiz de çamora: de fidalgo he manter fee.

_V._ Bem sabes tu, Pero vaz, que fidalgo ha jagora que nam sabe se o he. 440 Como vay a ta molher & todo teu gasalhado?

_P._ O gasalhado hi ficou.

_V._ E a molher? _P._ Fugio. _V._ Nam pode ser. Como estaraas magoado, yeramaa. _P._ Bofa nam estou. ¶ Huxtix, sempre has dandar debayxo dos souereyros? & a mi que me da disso?

_V._ Per força ta de pesar 450 se rirem de ti os vendeyros.

_P._ Nam tenho de ver co isso. ¶ Vay, Vasco afonso, ao teu mu que se quer deytar no cham.

_V._ Pesate mas desingulas.

_P._ Nam pesa: bem sabes tu que as molheres nam sam todo o verã senã pulgas. Isto quanto aa saudade que eu della posso ter; 460 & quanto ao rir das gentes ella faz sua vontade: foyse perhi a perder & eu nã perdi os dentes. ¶ Ainda aqui estou enteyro, Vasco afonso, como dantes, filho de Afonso vaz e neto de Jam diz pedreyro & de Branca Anes Dabrantes, nam me faz nem me desfaz. 470 Do que me fica gram noo que teue rezam de se hir & em parte nam he culpada; porque ella dormia soo & eu sempre hia dormir cos meus muus aa meyjoada. ¶ Queria a eu yr poupando pera la pera a velhice como colcha de Medina & ella mosca Fernando 480 quando vio minha pequice foy descobrir outra mina.

_V._ E agora que faraas?

_P._ Yrey dormir aa Cornaga e aamenhaã aa Cucanha. E tu vay, embora vas, que eu vou seruir esta praga & veremos que se ganha.

¶ _Vai cantando._

¶ Disselhe: señora ̃qreis cõpanhia? Dixeme: escudeyro segui vossa via.

490 _Pag._ Senhor, o almocreue he ãqlle que os chocalhos ouço eu, este he o fato, senhor.

_Fid._ Ponde todos cobro nelle.

_Per._ Uxtix mulo do judeu. O fato hu saa de por?

_Pa._ Venhaes embora, pero vaz.

_Pe._ Mãtenha deos vossa merce.

_Pa._ Viestes polas folgosas?

_Pe._ Ahi estiue eu oje faz 500 oyto dias pee por pee em casa de hũas tias vossas.

_Pa._ Ora meu pai que fazia?

_Pe._ Cauaua andando o bacelo bem cansado e bem suado.

_Pa._ E minha mãy?

_Pe._ Leuaua o gado la pera val de cubelo, mal roupada que ella ia. Huxtix, que mao lambaz. & vossa merce que faz?

510 _Pa._ Estou louçam coma que.

_Pe._ E abofee creceis açaz, saude que vos Deos dee.

_Pa._ ¶ Eu sou pagem de meu senhor, se Deos quiser pagem da lança.

_Pe._ E hum fidalgo tanto alcança? Isso he Demperador ora prenda el Rey de França.

_Pa._ Ainda eu ey de perchegar a caualeyro fidalgo.

520 _Pe._ Pardeos, João crespo penaluo, que isso seria esperar de mao rafeyro ser galgo. ¶ Mais fermoso estaa ao vilam mao burel que mao frisado & romper matos maninhos, & ao fidalgo de naçam ter quatro homes de recado e leyxar laurar ratinhos; que em Frandes & Alemanha 530 em toda França & Veneza, que vivem por siso e manha por nam viver em tristeza; ¶ nam he como nesta terra. Porque o filho do laurador casa la com lauradora & nunca sobem mais nada; & o filho do broslador casa com a brosladora, isto por ley ordenada. 540 E os fidalgos de casta seruem os Reis & altos senhores de tudo sem presunçam, tam chãos ̃q pouco lhes basta; & os filhos dos lauradores pera todos lauram pam.

_Pa._ ¶ Quero hir dizer de vos.

_Pe._ Ora yde dizer de mi; que se grave he Deos dos ceos mais graves deoses ha qui.

550 _Pa._ Senhor ali vem o fato & estaa ha porta o almocreue, vede quem lha a de pagar isso tal que se lhe deue.

_F._ ¶ Isto he com que meu mato. quem te manda procurar? Atenta tu polo meu & arrecado muyto bem & nam cures de ninguem.

_Pa._ Elle he dapar de Viseu 560 & homem que me pertem, pois a porta lhabri eu.

¶ _Entra dentro o almocreue & diz:_

¶ _Pe._ Senhor, trouxe a frascaria do vossa merce aqui. Hi estam os mus albardados.

_Fid._ Essa he a mais nova arauia d'almocreue que eu vi: dou-te vinte mil cruzados.

_Pe._ Mas pagueme vossa merce o meu aluguer, no mais, 570 que me quero logo hir.

_F._ O aluguer quanto he?

_Pe._ Mil & seis centos reaes, & isto por vos seruir.

_F._ ¶ Falay co meu azemel, porque he doutor das bestas & estrologo dos mus: que assente em hum papel per aualiações honestas o que se monta, ora sus; 580 porque esta he a ordenança & estilo de minha casa. & se o azemel for fora, como cuydo que he em França, dareis outra volta aa massa & hiruos eis por agora. ¶ Vossa paga he nas mãos.

_Pe._ Ja a eu quisera nos pees, oo pesar de minha mãy!

_F._ E tens tu pay & yrmãos?

590 _Pe._ Pagay, senhor, não zombeis, que sam dalem da sertãy & nam posso ca tornar.

_F._ Se ca vieres aa corte pousaraas aqui cos meus.

_Pe._ Nunca mais ey de fiar em fidalgo desta sorte, em que o mande sam Mateus.

_F._ ¶ Faze por teres amigos & mais tal homem comeu 600 porque dinheyro he hum vento.

_Pe._ Dou eu ja oo demo os amigos que me a mi levam o meu.

¶ _Vayse o almocreue & vem outro Fidalgo & diz o fidalgo primeyro:_

_F. 1^o._ ¶ Oo que grande saber vir & que gram saber maa vontade.

_F. 2^o._ Pois, senhor, que vos parece? desejo de vos seruir & nam quero ̃q venha aa cidade hum quem nam parece esquece.

_F. 1^o._ Paguey soma de dinheyro 610 a hum ouriuez agora de prata que me laurou & paguey a hum recoueiro que he a dar dinheyros fora a quem nam sei como os ganhou.

_F. 2^o._ Ganhã-nos tã mal ganhados que vos roubam as orelhas.

_F. 1^o._ Pola hostia consagrada & polo Deos consagrado que os lobos nas ouelhas 620 nam dam tã crua pancada. Polos sanctos auangelhos e polo omnium sanctorum que atee o meu capelam per mesinhas de coelhos & hũa secula seculorum lhe dou por missa hum tostam. ¶ Não ha ja homem em Portugal tam sogeyto em pagar nem tam forro pera molheres.

630 _F. 2^o._ Guarday vos esse bem tal que a mi ham me de matar bem me queres, mal me queres.

_F. 1^o._ Per quantas damas Deos t̃e nã daria nemigalha: olhay que descubro isto.

_F. 2^o._ Sam tam fino em querer bem que de fino tomo a palha pola fee de Jesu Christo. ¶ Quem quereis que veja olhinhos 640 que se nam perca por elles la per hũs geytinhos lindos que vos metem em caminhos & nam ha caminhos nelles senam espinhos infindos.

_F. 1^o._ Eu ja nam ey de penar por amores de ninguem; mas dama de bom morgado aqui vay o remirar, aqui vay o querer bem, 650 & tudo bem empregado. ¶ Que porque dance muy bem nem baylar com muyta graça, seja discreta, auisada, fermosa quanto Deos tem, senhor, boa prol lhe faça se seu pay nam tiuer nada. Nam sejaes vos tam mancias, que isso passa ja damor & cousas desesperadas.

660 _F. 2^o._ Porem la por vossas vias vou vos esperar, senhor, a rendeyro das jugadas. ¶ Porque galante caseyro he pera por em historia.

_F. 1^o._ Mas zombay, senhor, zombay.

_F. 2^o._ Senhor, o homem inteiro nam lha de vir ha memoria co a dama o de seu pay; nem ha mais de desejar 670 nem querer outra alegria que so los tus cabellos niña: nam ha hi mais que esperar onde he esta canteguinha, e todo mal he quem no tem, e se o disserem digão, alma minha, quem vos anojou meu bem. Ey os todos de grosar ¶ ainda que sejam velhos.

_F. 1^o._ Vos, senhor, vindes tão brauo 680 que eu eyuos medo ja: polos sanctos auangelhos que leuais tudo ao cabo la onde cabo nam ha.

_F. 2^o._ Zombaes, & daes a entender zombando que mentendeis. Pois de vos muy alto sou, porque deueis de saber que se damor nam sabeis nam podeis yr onde vou. 690 ¶ Quando fordes namorado vireis a ser mais profundo, mais discreto e mais sotil, porque o mundo namorado he la, senhor, outro mundo, que estaa alem do Brasil. Oo meu mundo verdadeyro! oo minha justa batalha! mundo do meu doce engano!

_F. 1^o._ Oo palha do meu palheyro, 700 que tenho hum mundo de palha, palha ainda dora a hum anno; e tenho hum mundo de trigo para vender a essa gente: bom cabeça tem Morale. Nam quero damor, amigo andar gemente & flente in hac lachrymarum valle.